quarta-feira, 3 de julho de 2013

O CORSO E O LANÇA-PERFUME


Os trilhos do bonde ainda corriam pelo centro da rua de paralelepípedos.

Havia um certo charme europeu nas lojas de tecidos e confeitarias das ruas Nova e Imperatriz.

No carnaval era ali o foco do "corso", das brincadeiras, do desfile dos blocos, clubes e troças.

Fantasias para todos os gostos se faziam notar, vestidas por meninos e meninas, moças e rapazes dos quatro cantos do Recife.

As varandas dos casarões eram enfeitadas com muitas serpentinas coloridas e máscaras de papel.

Famílias residentes ou proprietárias de alguma loja ou casa de comércio tomavam conta das calçadas e dali viam passar o carnaval.

E nós participávamos disso tudo, quando Paizinho começava a preparar o Land Rover para o Corso.

Era uma festa pra gente. Paizinho tirava a capota do jeep, colava umas máscaras, serpentinas e confetes pela carroceria, abaixava o vidro dianteiro e então o jeep ficava no clima da festa.


Havia, aliás, quem retirasse o escape do carro ou botasse no final do cano um apito que era outra loucura carnavalesca.

Devidamente incrementados seguíamos para o centro da cidade.

Já na rua da Imperatriz, entrávamos naquela fila de carros enfeitados e igualmente barulhentos para "fazer o Corso", isto é passear pela cidade ao som de alto-falantes presos nos postes tocando frevo o tempo todo, orquestras de frevo em palanques ou a pé fazendo a alegria do povo que não parava de chegar e de dançar.

Das calçadas ou do meio da rua mesmo, jatos de lança-perfume, bisnagas com água, serpentinas, confete e talco, muito talco, marcavam a festa.

Nisso passávamos toda a tarde, entrando pelo início da noite, até que o Land Rover nos levasse de volta à Torre, exaustos mas felizes.

De brincadeira sadia e familiar, o Corso foi-se transformando, por força da perversidade de alguns, num desfile de maldades.

Começaram a surgir os casos de agressão explícita e incontrolada. Aos poucos, por volta dos anos 60, era quase impossível encontrar alguém de bom senso nesses desfiles outrora tão cordiais.

O lança-perfume passou a ser usado como droga; a água das bisnagas foi trocada por água de esgoto, quando não por urina e até ácidos; o talco foi substituído por lama ou graxa retirada dos feixes de molas dos próprios veículos... enfim, um circo de horrores logo proibido pela polícia, ora à força de portarias, ora ao poder dos cassetetes.

Deste tempo guardo uma imagem cruel: uma linda menina, dos seus 15 ou 16 anos, num grupo de garotas fantasiadas de japonesas, com coloridos quimonos de seda, sombrinhas de papel, flores de cerejeiras nos cabelos, foi brutalmente agredida por um "play-boy" que, pulando de um jeep azul, passou a mão embaixo do carro, lambuzando-a de graxa e incontinenti emporcalhando a fantasia da garota, o seu rosto e o seu cabelo.

Apesar dos gritos da moça, ninguém conseguiu impedir que o marginal voltasse ao jeep e, aos gritos, fugisse por uma rua mais vazia.

Perdeu o Recife, perderam as pessoas civilizadas, que sabiam fazer do carnaval um motivo de alegria e confraternização. Repetiu-se a História: voltou, em meados do século 20, o costume bárbaro do entrudo do século 19, já esquecido entre as traças das gavetas de alguma delegacia do Recife Antigo.

(Do livrode crônicas "Caçador de Lagartixas", Recife, Livro Rápido, 2008)

terça-feira, 25 de junho de 2013

LEMBRANÇAS DO INTERIOR



Nesses tempos de festas juninas bate uma vontade danada de voltar àqueles dias e noites de férias do menino da cidade passadas ora numa Fazenda em Lajedo, Agreste pernambucano, ora numa Usina em Camutanga, Mata Norte.


Férias esperadas, pelas lembranças das muitas brincadeiras, da vida ao ar livre, do carinho dos tios e primos.

Tempo bom, em que a única preocupação era esticar ao máximo aqueles dias e acordar cedo para melhor aproveitá-los.

Hoje, saudoso, trago aqui uns versos com o que restou desses dias maravilhosos, porque as lembranças têm que ser cultivadas, para não se transformarem em nada, para não caírem no vácuo do não-vivido, para não se perderem no caos.


MENINO DA CIDADE

Um cavalo rudado que eu montava
Quando ia de férias pra fazenda
Uma cana caiana na moenda
Se no engenho as férias eu passava
Pois urbano menino que adotava
O rural como sua diversão
Se  viver por ali era era a paixão,
O prazer,  a maior felicidade
Era triste a volta pra cidade
São lembranças que eu guardo do Sertão

***************

SÃO JOÃO NA ROÇA 

É a cultura nordestina
incendiando o sertão
lenha verde se estalando
na fogueira de São João
A quadrilha no terreiro
e a moçada o tempo inteiro
fazendo adivinhação

Essa festa é a melhor
de todas do ano inteiro
o povo se emociona
dando viva ao padroeiro
do Nordeste tão sofrido
mas que é o mais querido
desse povo brasileiro

******************

quarta-feira, 19 de junho de 2013

MEIA VOLTA, VOLVER...

Tendinite atrasando o blogueiro

Não, não tem nada a ver com comandos de marcha, nem ordem de desistir da caminhada. 

É somente uma re-avaliação de uma atitude que tomei dias atrás e que simplesmente, pelo que sinto, não agradou.

Tentei mudar o formato do blog, retirando alguns elementos que eu julgava que vocês não gostavam ou cuja existência seria desnecessária.  

Errei feio, pisei na bola.

Então volto atrás, passo uma borracha e começo tudo de novo.

Há blogs e blogs.  Alguns crescem, viram locais de discussão de qualquer ordem (política, variedades, arte, cinema, literatura, etc). 

Outros são, como lembrei um dia desses aqui, feito aquelas conversas de fim de tarde, na calçada de casa, ouvindo o barulho da meninada brincando na rua, as lâmpadas amareladas dos postes acendendo e a noite iniciando o seu reinado refrescado pela brisa de um Recife tranquilo e suburbano que não mais existe.

É para esse clima que voltamos, então.  Deixo o dito pelo não-dito, retorno tudo ao que era e seguimos em frente. Continuem gostando de mim e do blog, comentando ou não - e eu adoro quando vocês comentam, porque fico sabendo do que gostam ou não gostam. Então... é isso. Vamos em frente.  Sim... ia esquecendo... O Pros&Rima sai do ar.  Afinal, tudo fica como estava, não é ?
E, como se diz no facebook, apesar da foto lá em cima, "não curti" nada uma tendinite de mau jeito que está me tornando um "cata-milho" no teclado por uns dias. Mas isso é outra história.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

HORA DE AVALIAÇÃO

Meus queridos familiares, amigos, colaboradores, leitores, frequentadores e comentaristas.

Revendo estatísticas dos Blogs nesses quase dois anos e meio de atividade, notei ser ínfimo o percentual de comentários às postagens.  Entre outras razões, porque vocês que acessam esses nossos espaços se satisfazem com a leitura, a informação, o conteúdo, e isso é muito gratificante para mim.  

Mas noto que uma das principais razões é a dificuldade de postar os comentários, por conta da necessidade de abrir conta no Blogger, ou de ter conta por lá a não ser no caso de comentar como Anonimo.  

Por outro lado, a grande maioria das mensagens de retorno me é dada por e-mail. O percentual total de comentários no blog Sete Instrumentos é de apenas 1,78% (um vírgula setenta e oito por cento) e no Pros&rima 2,24 % (dois vírgula vinte e quatro por cento) diziam respeito ao conteúdo num total de 6,2 % de comentários. Não costumo definir marcadores (tags) para os assuntos que publico e no novo blog já não coloquei aquelas "seções" (a título de assuntos).  

Fiz essas considerações para dizer a vocês que -dando uma enxugada no visual dos blogs- resolvi dispensar a divulgação desses elementos que citei.  Então, a partir de hoje, ficam suprimidas as áreas de:

1. SEGUIDORES: é uma informação desnecessária. porque os leitores não-seguidores (isto é, os oficialmente incluídos pelo cadastro do  Blogger) são tratados pelo Editor com o mesmo carinho e recebem -todos, seguidores e não seguidores- avisos por email das atualizações.  Além disso, dos poucos seguidores oficiais, em número de 73, muitos ( a maioria, aliás) , sequer acessa o blog e muito menos mantém contato;

2. COMENTÁRIOS (qualquer comentário poderá ser feito, de agora em diante, diretamente para os meus emails fredcrux@gmail.com para o seteinstrumentos.com e fred@proserima.com para os relativos ao montefred@blogspot.com (pros&rima).  Quando os comentários forem dirigidos aos colaboradores, eu farei o redirecionamento para os emails dos mesmos;  

2. LINKS PARA OUTRAS POSTAGENS (as miniaturas que aparecem logo abaixo da postagem do dia), também foram suprimidos, porque são aleatórios, remetendo a postagens que às vezes não despertam interesse do leitor;  

3. MEU PERFIL (completamente dispensável, porque o próprio Blogger ou o Google o disponibilizam por completo aos pouquíssimos leitores que não me conhecem e visitaram essa área); 

4. CONTADOR DE VISITAS (apesar de ser um indicativo que poderá interessar  a alguns leitores, à imensa maioria o dispensará, por certo)  A sua utilidade só é realmente de interesse do blogueiro que, pelas estatísticas advindas dos seus números de acesso pode melhorar ou tentar melhorar o espaço, que é -afinal- o que estou fazendo agora.

Assim, espero que vocês continuem prestigiando nosso espaço e se comunicando com o Editor que, pessoalmente, continuará respondendo a cada um dos comentários que fizerem para os emails acima.

Mais uma vez, agradeço de coração a amizade de vocês e a atenção que dão aos Blogs. Um abraço especial para cada um de vocês !

quinta-feira, 6 de junho de 2013

PACIÊNCIA É O SEGREDO - PÁSSAROS

Guriatã
Tenho um fascínio muito grande pelos pássaros.
Nunca de vê-los enjaulados para meu deleite.
Mas de sabê-los livres, voando e cantando, felizes.
Não me importa sua beleza, se bem que isso, acho eu, é uma constante na espécie.
Muitos animais foram agraciados pelo Criador ou, se quiserem, pela Natureza, com formas e cores especiais.
Mas, para mim, os pássaros, no reino animal, como as flores, no reino vegetal, são campeões de beleza e de cor.

Carcará
Uma das minhas alegrias é, diariamente, chegar à varanda ou à janela do meu apartamento, sempre com uma câmera pronta por perto. para observá-los e ouví-los cantar.
E eu tenho tido muita sorte. Comumente sou saudado por bem-te-vis, sabiás, sibitos.  Mas, vez por outra aparecem aqui pelo Poço da Panela outros habitantes provisórios dos galhos de uma azeitoneira bem em frente à minha janela. Uma variedade enorme, que eu jamais desconfiava existir no Recife poluído e barulhento de hoje. Já fotografei sanhaçus, maracanãs, gaviões, guriatãs, freis-vicentes, rolinhas, e ultimamente recebi a visita de um pica-pau.

Pica-pau carijó
De uma espécie que eu nunca tinha visto, bem diferente dos naturais dos cerrados, onde são comuns na Chapada dos Guimarães, na Chapada Diamantina, no Panatanal matogrossense... Quando eu tenho dúvida em classificá-los recorro a um grande especialista no tema, meu amigo Professor Galileu Coelho. Ele, pacientemente, me esclarece e me "passa a ficha" do indivíduo emplumado.
Espero melhorar a qualidade das minhas fotos, já que os "modelos" são bastante ariscos e desconfiados, adquirindo uma câmera com uma objetiva de melhor alcance e definição, já que a minha é bem precária para tanto e pretendo me dedicar melhor a  fotografar meus amigos alados.

Sanhaçu
Pois saibam que nesta Freguesia do Poço da Panela, outrora povoação suburbana do Recife, esses pequenos prazeres ainda são uma constante. E quem deles não usufruir, por certo estará perdendo ótimos momentos de alegria e contemplação.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

CICLOFAIXA DE LAZER PARNAMIRIM / PINA

A magrela da vez.. Só não cabe no chaveiro !
Certa vez comentei por aqui uma iniciativa da Prefeitura do Recife, ano passado, de promover a criação de uma ciclofaixa na Zona Norte da cidade, em oposição à Ciclovia existente na Orla de Boa Viagem.  Bem mais antiga e estruturada, a ciclovia da Zona Sul sempre foi um sucesso de público, pois -apesar de gente mal educada a utilizar como via de transporte de toda sorte de carrinhos de sorvete, lanches, carroças de cadeiras de banhistas e absurdos que tais- a ciclovia serve bem tanto para o transporte, como para o lazer e esporte.  A questão da educação do povo para utilizá-la com coerência e respeito está mais no fundo do buraco.  Tenho esperança de que ainda vou alcançar um tempo em que não teremos mais que reclamar de absurdos vistos e consentidos pela mentalidade ainda relaxada e descomprometida do nosso povo.
A magrela dobrada.
Mas, falava eu da Ciclofaixa de lazer há pouco tempo inaugurada pelo atual Prefeito, com o apoio de um Banco privado.  Ideia pra lá de saudável e excelente para os cidadãos recifenses se iniciarem no esporte sobre as duas rodas, fazerem da bicicleta um hábito e um transporte e congregarem família e amigos para passeios dominicais seguros, tranquilos e bem frequentados.
Quem desejar usar a ciclofaixa com alguma pressa ou objetivo esportivo, claro, pode tirar a sua magrela da chuva...  A pista é destinada a passeio mesmo. Passeio em ritmo lento e descomprometido.  Passeio e também uma espécie de turismo agradável por paisagens que normalmente não vislumbramos na Cidade Maurícia.
Casarões antigos, palacetes, Sítios remanescentes, prédios modernos e suntuosos, parques e praças belíssimos, a tranquilidade dos casarões multi-centenários do Recife Antigo, o Cais do Porto, e até mesmo o ar gostoso da praia do Pina, no final/retorno da ciclofaixa, quando ela se encontra com a Ciclovia de Boa Viagem.
Quer aparecer? Bota uma melancia na cabeça !
O percurso é completamente seguro, marcado por cones do início ao fim, com intervalos de 3 metros, em média.  Guardas de trânsito e funcionários bem orientados cuidam da sinalização a cada cruzamento e realmente, nas duas vezes que transitei por lá (a primeira ida e volta de Casa Forte ao Recife Antigo e a segunda de Casa Forte ao Pina, retornando a Casa Forte), não vi nada que provocasse a mínima intenção de crítica.  Tudo ótimo, enfim. Inclusive e principalmente a presença de crianças de todas as idades, adolescentes, adultos e idosos, todos congregados pelo espírito sadio do esporte e do lazer urbano.
Se vocês não me vêm por lá é porque prefiro o ciclismo mais desportivo, isto é, um pouco mais veloz e livre, fazendo meus percursos sempre pela manhã/quase madrugada.  Em geral saio por volta das 5 ou 5,30 da manhã e retorno à base uma a duas horas depois de rodar 20 a 30 quilômetros, numa temperatura amena e livre da poluição e do barulho do trânsito.

Circuito Ciclofaixa Parnamirim/Pina Saindo do Poço são 26,26 km

Para quem se interessa por estatísticas e mapas, juntei aqui duas imagens de percursos, uma na ciclofaixa e outra nesse meu modo mais esportivo. Não tenho estado no ritmo em que "andava" quando me preparava para o triathlon, anos atrás. Por dois motivos: o avanço da idade e a mudança da "bike".  Meu brinquedo de estimação agora é uma magrela dobrável, da marca Soul, com câmbio de 6 marchas e rodas de aro 20.  Mais parece uma antiga "Monareta" ou "Caloi dobrável", lembram ? Por mais que eu tente correr ela nunca passa dos 25 kmph.  Muito diferente das minhas "Shimano" de corrida, toda de alumínio, com pneus de 3/4 ", aro 27, 8 kgs de peso. Na pista (BR-101) alcançava facilmente 35 a 40 kmph.  Mas, eram outros tempos e outro Fred.  Aquele que ainda tinha cabelo, hahaha.
Circuito livre, pela madrugada, Poço/Marco Zero/Monteiro/Poço.  São 19,17 km

domingo, 26 de maio de 2013

77.777, UM RECOMEÇO, UM NOVO BLOG


77.777

Passei parte da tarde botando em dia a leitura de emails e dividindo minha atenção com o contador do Blog.  Queria poder "congelar" a tela de abertura para mostrar a vocês, o nosso contador de visitas marcando 77.777, como fiz certa vez, quando chegamos às 55.555 visitas.

Infelizmente, por um número, não acertei. Tinha interrompido a leitura quando o contador ainda marcava  77.764 e fui reler uns trechos de um livro do poeta Gonçalo Ferreira de Lima (Vertentes e Evolução da Literatura de Cordel). Quando voltei para conferir, já era tarde: a marcação era essa aí da foto: 77.778.  E por que eu queria tanto aquele número redondo?  Simples.  O Blog chama-se "Sete Instrumentos" e eu já havia planejado dividir o seu espaço em dois. E é o que vou fazer a partir da próxima semana, tão logo acabe de organizar o mais novo.  Vai se chamar "PROS&RIMA" e terá como tema exclusivo a Literatura, em prosa e rima. O "Sete Instrumentos" seguirá como meu blog pessoal, onde continuarei postando matérias sobre Viagens, Vídeo, Fotografia, Família, Esportes e Música. "Prosa&Rima" cuidará apenas de Crônicas e Cordel. Um dia, quem sabe, vou me aventurar em alguns Contos, também.  Muito remotamente, penso num plano mais ambicioso: um Romance.  Vai demorar, claro, preciso amadurecer bastante ainda essa idéia.

Voltando ao contador de visitas. Já deu pra perceber que tenho um fascínio pelo número 7, não é ?
Sete Instrumentos é o nome do Blog, sete eram seus marcadores originais... Nada mais lógico que eu encerrasse esta primeira fase exatamente no número 77.777.  Abraços a todos, muito obrigado pelas 77.778 visitas (até agora)  e continuem ligados no "Sete" !

segunda-feira, 20 de maio de 2013

PEGA O PEIXE, PESCADOR !


Praia dos Carneiros-PE - foto do autor



PEGA O PEIXE, PESCADOR !

Eu que sempre morei no litoral
e conheço o sertão só de passagem
não queria dizer muita bobagem
pois então vou louvar a capital
que tem praia bonita e original
e um mar que é cheio de magia
águas verdes e claras como o dia
onde nadam peixinhos tropicais
que na graça e na cor são maiorais
representam da vida a harmonia


Mariquita, Olhão, tem mais Arraia
Budião, Xira, Gato e Agulhinha
tem o Galo, também tem a Tainha
tem Cioba e Sargento lá na praia
quando a noite já vem e o sol desmaia
pescador pega logo o seu puçá
e na beira do mar vai fachear
pra pegar a Saúna e o Camarão
samburá fica cheio de montão
e ele já garantiu o seu jantar


De manhã bem cedinho sai de novo
a maré já baixou e ele insiste
na jangada com sua vela em riste
pra pescar a Lagosta usa seu covo
pois além do Guajá, cutuca o Polvo
que se esconde na loca do arenito
no ganchinho de ferro é expedito
e com sorte inda fisga uma Moréia
vai feliz prosseguir nesta odisséia
e assim garantir seu peixe frito

sexta-feira, 17 de maio de 2013

MAIS UMA DO CHIQUINHO

Pimentinha, o alter-ego do Chiquinho



Cena bem comum num apartamento qualquer do Recife.

O avô prepara um suco de laranja e está cortando as ditas cujas, para passá-las no extrator de suco.

Chiquinho, de lado, de olho, quem sabe querendo aprender a fazer o seu.
A faca, amoladíssima, escorrega na casca da laranja e corta o dedo de Vovô Bita, que reage:

- Putaquipariu !!!

Chiquinho, corre para Vovó, na sala e "dedura":

- Vovó, eu "uvi" tudo... Vovô Bita disse um nome feio !

- Foi não, Chiquinho.. eu também ouvi daqui.  Ele falou "A fruta que caiu".

- Ah, foi, Vovó ?  Então agora eu posso dizer:  que gol do baralho, né ?

E o "cabra" só tem 6 anos.  (Os nomes foram trocados para preservar as fontes.)


quarta-feira, 15 de maio de 2013

O SERTÃO SE DESMANCHA EM POESIA

A Lua, nos Cariris paraibanos, abençoando a Poesia - foto: Fred Monteiro
"Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia"


Com esse mote, o Poeta Hélio Crisanto trouxe para o Jornal da Besta Fubana, ontem, um momento de paz e poesia experimentado por todos os que amam essa arte tão cultivada nos nossos interiores nordestinos. Momentos como esse, de reflexão sobre a beleza da Vida, que continua bela, apesar do sofrimento causado pelas intempéries naturais na nossa Região, não são raros, pelo contrário, são muitos, são constantes, naquele Jornal virtual.  Reuni, então, algumas glosas e aqui as divulgo, com a licença dos poetas envolvidos.

Quando ouço o cantar da seriema
Se coçando na trave da cancela
Um sanhaço voando perto dela
Parecendo uma tela de cinema.
Uma cobra no ninho bebe a gema,
A cigarra completa a melodia,
Uma cabra deitada dando cria,
Um cavalo pastando joga a crina;
Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia
(HÉLIO CRISANTO, autor do mote)


Canta a Luz na campina avermelhada
Dança o Sol alegrando o amanhecer
vai a Lua nas serras se esconder
Já cansada em cumprir sua jornada
E tão logo se acorda a passarada
Sanhaçus vão trinando uma sinfonia
Um canário improvisa com alegria
desafios aos Galos de Campina
“Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia”
(FRED MONTEIRO)


Já cedinho o cabra tá de pé
No curral bem sentado tira leite
A ‘muié’ preparando seu banquete
De cuscuz, tapioca, e um bom café
No terreiro já cisca uma guiné
O anu lá de longe assobia
Dois cabritos pulando na folia
O cantar do concriz é coisa fina
“Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
O sertão se desmancha em poesia”   
(JEFFERSON SOUZA)


Poesia, aqui, amigo Hélio
é artigo comum e corriqueiro
porque todo poeta brasileiro
tem paixão pelo nosso Sertão velho
esse amor que não cabe num “Aurélio”
é que explica essa imensa simpatia,
é motivo pra tanta cantoria,
que os poetas jamais esgotam a mina
“Quando o sol, de manhã, rasga a cortina
e o sertão se desmancha em poesia”
(FRED MONTEIRO)

domingo, 12 de maio de 2013

O AVENTAL DE MAMÃE



Não me ocorre, neste Dia das Mães, coisa mais justa que amanhecer cantando para ela, como sempre fiz, a música que tornou-se a imagem das mães de todos os tempos.  Desde as do início do século passado até as atuais mães modernas e independentes.  Todos os anos, até hoje inclusive, homenageamos nossa querida Maria, hoje e desde três anos atrás reunida em outra dimensão com o nosso querido Frederico.  Morreu de amor.  Não suportou mais que cinco meses a ausência dele.  Por isso, mesmo sendo hoje o Dia das Mães, não pude separá-los nessa fotografia.  Aliás, esta foto foi feita uma semana antes de uma queda fatal em que meu pai fraturou a coluna e iniciou um calvário de mais de seis anos que o levou aos 93.  Para minha Mãe (e também para meu Pai, sua razão de ser) um terno beijo de eterno agradecimento.

....
Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança
Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

(MAMÃE (João Dias)


MARIA (Fred Monteiro)

Maria, a mais linda menina
sorriso traquina nos olhos de mel
Um anjo de amor transformando 
A vida difícil em pedaço do céu

Das noites insones recordo
suas mãos, seus afagos
Me trazendo a paz
E as suas cantigas singelas 
Abriam janelas 
Em ondas de Luz

.......

quinta-feira, 9 de maio de 2013

GUERREIRO DE LANÇA

Guerreiro de lança de maracatu rural
Tradição que se cultiva desde a infancia

Em Nazaré da Mata, no carnaval de 2005, num encontro regional de Maracatus Rurais, registrei a nobreza do olhar e da expressão deste menino-brincante, orgulhoso das suas vestes de guerreiro de lança de um grupo de maracatu rural. Uma das mais legítimas expressões do Carnaval de Pernambuco, o maracatu rural tem origem na Zona da Mata, em meio aos canaviais dos engenhos de cana-de-açucar. Consiste num cortejo formado por rei e rainha, damas do paço, guerreiros de lança e outras figuras folclóricas oriundas de folguedos como o bumba-meu-boi (mateus e catirina, burrinha e caçador). A orquestra do folguedo é predominantemente percussiva (caixas de guerra, tambores, cuícas e ganzás) mas caracteriza-se pelo uso do trombone (por isso é também chamado "maracatu de trombone").  Tudo isso é comandado por um "mestre" que canta loas de improviso, repetidas pelo contra-mestre e coro das baianas, com suas características vozes esganiçadas pouco inteligíveis no calor das sambadas e dos desfiles.

terça-feira, 30 de abril de 2013

O BUEIRO DA TACARUNA - UM TÓPICO, DUAS HISTORINHAS

A chaminé, ou bueiro, da Tacaruna


Um tópico, duas historinhas.

Entre o Recife e Olinda, na Estrada de Salgadinho, existiu outrora uma grande fábrica de tecidos e cobertores.  Muito antes disso, a fábrica foi uma Usina de Açúcar, que chegou a pertencer ao lendário Delmiro Gouveia.  
Fechada pela crise, passou quase 30 anos inativa, voltando, em 1924, como industria têxtil e finalmente de cobertores populares.  Encontra-se hoje desativada, em vias de ser transformada num grande centro cultural, ou ter destinação comercial.

1. A POEIRA DA ASMA

Pois bem.  Lá pelos idos de 1950, quando eu ainda morava em Olinda, passei muita vezes por ali e -de ônibus ou no jipe do meu pai- todos nós crianças tínhamos o hábito disseminado na época de tapar o nariz e a boca ao cruzarmos a vizinhança da fábrica, com sua enorme chaminé (que aqui também chamamos de bueiro) listrada em preto e branco dominando a paisagem plana de areal e vegetação.
Dizia-se que a poeira do algodão e da lã dos cobertores provocava crises de asma.  Eu, que já era asmático de nascença, ficava mais temeroso ainda.
Puro folclore, lenda urbana, mas em que muitos acreditavam.

2. O BUEIRO DA TACARUNA

Já passado da adolescência, que naquela época findava mesmo aos 18, não aos 40, como hoje, nessa moda esdrúxula de "filhos-cangurus", eu ouvi e repassei dezenas de vezes uma piada que até hoje considero engraçada, embora bobinha  para os padrões da nossa época.

Uma velhinha, muito compenetrada, com vestido de seda preta atacado até o pescoço, onde pousa um camafeu, vai sentada no banco do bonde Recife-Olinda, ao lado de um moço, talvez escriturário ou bancário, bem trajado, mas que, distraído ou apressado, deixara  aberta  a braguilha da calça.

Seguia a anciã admirando a paisagem do lado direito (a Tacaruna ficava no lado oposto) das praias do Istmo, quando o rapaz nota que a sua braguilha está aberta e, todo enrolado, tenta desviar a atenção da senhora para o outro lado, a fim de fechar os botões da calça. Vale lembrar que calças com braguilha de botões são contemporâneas dos bondes...

Pergunta, então, o moço, com muito respeito:

- Madame, a senhora já viu o bueiro da Tacaruna ?

A velhinha, dedo em riste, sobrinha pronta para um combate, ameaça com toda a raiva do mundo:

- Não vi,. não quero ver, e se botar pra fora eu meto-lhe a sombrinha !!!!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A NAU BRASIL

A Nau Brasil (foto do autor)


Para onde vai a Nau, mares avante?
quem tem o leme às mãos, quem nos conduz?
eu tenho medo que nos roubem a luz
um negro abismo se advinha adiante

sugando a força da Nação vibrante
a turba insana fere a inteligência
e sem pensar, sem demonstrar fluência
esmaga a vida que surgia infante

secando a flor-democracia (rara)
sem perceber que até a fé nos tira,
e a esperança,. que nos é tão cara

prevejo dor e crime, e  ódio e ira
Noite de fel, que num céu negro gira
ao me roubar o sonho, da vida me separa

quarta-feira, 24 de abril de 2013

MOTES E GLOSAS - UMA NOVA SEÇÃO


Grafite de Derlon Almeida
foto Fred Monteiro

Hélio Crisanto, poeta de Santa Cruz-RN propôs um mote no Jornal da Besta Fubana, logo glosado por alguns dos muitos poetas que ali pontificam.  Como sempre, participo desses "desafios" e deixei lá a minha glosa, também.  Essa interação da poesia de cordel é sempre estimulante e como venho me dedicando bastante ao tema, ultimamente, vou abrir aqui mais uma seção para que os aficionados possam ir direto ao assunto, sempre que quiserem conhecer essa tradição tão nordestina, que recebemos de heranças ibéricas e vimos mantendo por anos a fio.  O mote proposto pelo Hélio foi: Duas semanas de amor,  dez anos de sofrimento".





HÉLIO CRISANTO:

Quem viu a felicidade
Estampada no meu rosto
Não pôde ver o desgosto
Que hoje em dia me invade
Um rosário de saudade
Eu rezo a todo momento
Não tem amor, nem alento
Que me supere essa dor
Duas semanas de amor
Dez anos de sofrimento

FRED MONTEIRO:

O amor é doce fruta
que dá prazer mas vicia
faz você saber um dia
que enfrentará a luta
vigie a sua conduta
estude bem seu momento
não despeje sentimento
numa paixão sem valor
duas semanas de amor
dez anos de sofrimento

segunda-feira, 22 de abril de 2013

UM TAPETE DE PEIXES

Era uma ruazinha estreita, embora a principal, da cidade de Porto de Pedras, Alagoas.
Dezembro de 2008, eu estava indo de Japaratinga para Maceió, rever aquelas praias que não devem nada às caribenhas, com águas azul turquesa e coqueiros que fazem a festa dos turistas e dos conterrâneos também.
Vou tranquilo observando a modorra do meio-dia quando, olhando para a direita, vejo a cena que aí está: metade da rua tomada por um tapete de folhas de coqueiro com centenas e centenas de peixes secando ao sol.
Cena estranha, pelo menos para mim.  Parei o carro, como sempre faço nessas ocasiões e fiz questão de registrar esse tapete diferente de todos os outros com que já tinha me deparado.
Provavelmente são (eram) sardinhas.  Ou provavelmente não... os peixes nordestinos têm tão variadas formas, cores e nomes que até hoje não atinei para essa variedade, com segurança.. Também, não havia uma viva alma na "Rua dos Peixes" que pudesse me tirar essa dúvida.  Acho que a população inteira estava no gozo da merecida "siesta" .

terça-feira, 16 de abril de 2013

CRIANÇA SABE DAS COISAS !


Esses meninos de hoje andam vendo muito comercial de TV.


Um deles, de oito anos, foi ao supermercado com seu irmãozinho de quatro.

Entre outras coisas botou no carrinho de compras 2 pacotes de absorvente OB.

No caixa, o funcionário indaga ao mais velho:

- Quantos anos você tem, meu filho ?
- Oito anos, senhor.

Pegando os pacotes de OB, o caixa pergunta:

- E você tem idéia para o que serve isto aqui?
- Não, senhor. Isto aí não é para mim.  È para meu irmãozinho pequeno.

_ ????

- É que a gente ouviu na TV que com isso aqui você consegue nadar e andar de bicicleta, sem problemas...

E meu irmãozinho ainda não sabe fazer isso.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

DUAS VIAGENS, DUAS PAISAGENS


1. LAGOA DE ARITUBA. O PARAÍSO

Sabem onde fica o paraíso? 
Eu sei e digo pra vocês... onde a gente tá feliz!
E, podem crer, eu estava muito feliz quando fiz essa foto aí.  
Onde?  Arituba..
"Sei lá onde é isso?", perguntarão vocês.. Eu ensino..  
Pertinho de Natal, uma lagoa linda, onde a gente passa um dia de rei.  
Verdade.. perguntem a quem já foi.   E aproveitem.  O paraíso é logo ali.

Arituba: guarda-sol, coqueiro e céu...precisa mais ? - foto do autor


2. FOZ DO IGUAÇU - MACUCO SAFARI


Claro que não é coisa do outro mundo, senão não iria no barco gente de toda idade.. Mas que exige um pouco de espírito aventureiro, isso exige..  Passeio gostoso, num bote de borracha empurrado corredeiras acima do Rio Iguaçu por dois possantes motores de popa e conduzido com habilidade por um piloto birm]aem treinado que faz manobras bem legais.. O passeio ao longo das corredeiras, a toda velocidade, termina por baixo do Salto Três Mosqueteiros, numa superducha gelada que refresca o corpo e a alma, fazendo a turistada gritar feito criança (não sei se de puro prazer ou para espantar o medo).. Divertimento garantido, podem crer.. E quando forem a Foz de Iguaçu não deixem de aproveitar !  É bom demais !!






Foz do Iguaçu - foto Edla Cristina

sexta-feira, 5 de abril de 2013

REFLEXO (PARA MAÍRA E MOEMA)


Recebi, ontem à tarde, um presente especial do meu amigo o Professor, Economista, Compositor Inaldo Lima.  Desta vez, não era um dos seus discos de frevos e marchas de bloco, choro ou valsa, para alguns dos quais escrevi o texto de capa. Era um disco que representa, para mim, a coroação de duas carreiras gêmeas, as carreiras brilhantemente musicais e ternas das suas filhas gêmeas Maíra e Moema. Garotas mais que especiais, geniais, que conheci ainda muito jovens, pois foram colegas de turma no segundo grau, da minha filha Tatiana.


Maíra e Moema que até hoje confundo, por pessoas lindas que são.  Não arrisquei, sequer, colocar nas legendas das fotos os seus nomes, porque poderia acontecer vir a confundI-las, mais uma vez.


Não sou bom de fazer resenha de disco.  Temo, na paixão que tenho pela música, cometer injustiças de julgamento.  Então, para evitar isso, vou tentar resumir o que penso deste trabalho em algumas palavras. 

De início, reporto-me a um  texto que escrevi sobre o pai delas. Nele dizia, resumidamente que Inaldo, então recém-aposentado comprovava sua musicalidade acumulada desde o tempo em que foi clarinetista da Banda do Liceu Pernambucano, extravasando naquele trabalho ("Frevos de Bloco Para Todos os Gostos e Desgostos", um disco experimental que ele próprio produziu com samplers de computador), toda uma "represa de talento", por tantas décadas acumulado.

Capa do CD CHORO BRASIL-Tempo de Choro

E qual foi a minha surpresa, ao ver repetida pelo grande músico Maurício Carrilho, que apresentou o CD, essa ideia, referindo-se -obviamente- às doces musicistas num trecho que aqui transcrevo, por oportuno:  "Acho que o compositor passa um grande tempo da sua vida armazenando informações e as digerindo e transformando. Na maturidade, o resultado é um rio de música que corre solto".

Nada mais coerente: Bons frutos não nascem de árvores estéreis. 

Escolhi, para mostrar a vocês uma faixa que me agradou demais (embora todas tenham-me agradado demais...) Chama-se "Reflexo" e ilustra, no título, o que acontece na vida dessas gêmeas de corpo, alma e instrumentos: bandolim e cavaquinho se entrecruzando, se confundindo numa sonoridade única, fusão de notas e sentimentos puros, femininos, angelicais, muito embora denotem o poder da correnteza de um Rio de Doçura, que nos encanta e nos arrebata para uma Praia de Felicidade.



Obrigado, Inaldo, pela oportunidade de ter no meu Blog essa família maravilhosa e musical.  Parabéns, Maíra/Moema, vocês são demais !

segunda-feira, 1 de abril de 2013

HISTÓRIAS DO CHIQUINHO - BATMAN, O BOCA-SUJA

Chiquinho, menino esperto que já andou pontificando por aqui, não perde tempo para divulgar seu aprendizado nesse início de vida.  Falante e gesticulador como sempre, chegou, na hora do almoço, meio emburrado e reticente.
Sua avó, minha amiga, sabendo que ali tinha coisa, chega junto:

- E aí, Chiquinho, alguma novidade na Escola, hoje?
- Teve, vó.. foi por causa de um palavrão.
- Mas, quem falou esse palavrão, Chiquinho ?
- Não "foi" eu não, vó. Não "foi" eu...

A avó, cabreira, conhecendo o gênio do neto, insiste:

- E quem foi, Chiquinho ?  Você sabe quem foi ?
- Foi esse aqui, vó. 

E puxou da mochila o boneco do Batman, seu companheiro de aventuras fantásticas.

- Mas, Chiquinho, boneco não fala !
- Mas esse fala, vó.. esse fala... Eu vou "contá".  Eu "tava" brincando com meu amigo Batman e Zé Carlos me empurrou.  Aí meu amigo Batman disse pra ele: Seu "filo-da-puta" !
-CHIQUINHO !!! que coisa mais feia !
- Vô, você não "uviu" eu dizê" não ?  Foi esse Batman aqui, esse boca-suja !

sábado, 30 de março de 2013

DALU E CEMINHA


Praça de Casa Forte - foto do autor
Quem não é de Casa Forte, pode não saber de quem estou falando.
Mas, quem for daqui e não conhecer, nem de ouvir falar, essas duas grandes mestras, da Escola Padre Donino, ou é muito novo, ou então chegou agora.
Elas foram responsáveis, durante uma vida inteira dedicada à Educação, com E maiúsculo mesmo, pela formação de uma legião de crianças e jovens que hoje ocupam posições de destaque  na sociedade pernambucana.
Idalina Costa Lima e Iracema Costa Lima, ou Dona Dalu e Dona Ceminha, foram estrelas raras num universo de idéias pálidas, nesse campo.
O amor que elas tinham pelo ensino era intenso.
Pelos alunos, também... sabiam ouvir e aconselhar cada um de nós, como segundas-mães afetuosas e ternas, porém firmes e rigorosas, no momento necessário.
Ceminha era a criatura mais doce que alguém pode imaginar.
E assim continuou por toda a vida, até encantar-se aos mais de 90 anos.
Há até bem pouco tempo, eu ficava muito feliz de vê-la cruzar com seus passinhos curtos, mas firmes, a calçada da velha Praça de Casa Forte.
Sempre que a via, parava para conversar com ela beijando, respeitosamente, a sua testa larga, enrugada de tanto amor.
Eu mesmo sou testemunha tanto do carinho de ambas, quanto dos puxavantes de orelha (mais do que merecidos que recebi) -nunca de Ceminha- mas de Dalu.
Também ela, que gostava demais de Matemática, insistia pra que eu estudasse e pelo menos procurasse gostar da matéria, que sempre me causou repúdio.
Eu ainda não consegui entender os números até hoje... sou um fracasso nessa área.
Certa vez, num 7 de Setembro, acho que de 1954, eu já na 4a. série primária fui "convidado como voluntário" a participar de uma cena de teatro escolar,  que Dalu dirigia,para integrar o quadro do Grito da Independência. Fui, mas fui muito amuado.
Achei muito infantil aquele negócio de um monte de meninos montados em cabos de vassoura com uma cabeça de cavalo pintada e recortada numa cartolina azul claro; chapéu de cartolina branca na cabeça, um laço de fita crepe azul no braço esquerdo, que teria que ser rasgado dramaticamente quando "Dom Pedro I", gritasse "Independência ou Morte".
E mais (essa era a pior parte para mim, que assistia, nos seriados do cinema Luan às lutas dos melhores espadachins do mundo): uma ridícula espada feita de um cone muito fino e comprido de papel do jornal Diário da Noite.
Mas, minha vingança foi total !
Com uma cara de meter medo, desafiando a História do Brasil, fui o único soldado a não romper os laços com a Coroa Portuguesa, recusando-me a rasgar a fita crepe do braço esquerdo e a levantar aquela espada fuleira de papel de jornal.
Salvei minha fama de valente espadachim, mas levei um puxavante de orelhas de Dalú. Mais um deles...pena que tenha sido o último. Terminei o Curso Primário, fui para o Ginásio São Luís.   Depois a Universidade, a vida e o tempo tomaram conta do resto. 

(do meu livro de crônicas "Caçador de Lagartixas", Recife, ed. Livro Rápido, 2008)

quinta-feira, 28 de março de 2013

UM MOTE ANTIGO



Um dia desses um poeta do Jornal da Besta Fubana, (bestafubana.com) onde tenho coluna, lembrou um mote antigo: "Isso é somente 1% dos 100% que eu sei".
Escrevi três glosas a respeito e trago hoje uma delas para vocês.
O que eu mais gosto na chamada literatura de cordel é justamente essa dificuldade a mais, representada pelo mote.  Além de o poeta ter que manter a forma (dez versos setessilábicos, nesse caso, tem que manter o estilo (ABBAACCDDC), não fugir do assunto ou motivo e cuidar, principalmente da métrica e das rimas.  O que exalta muito mais o valor dos nossos repentistas, por fazerem tudo isso de improviso, a maior parte deles dividindo a atenção por toda essa técnica literária, com o canto e a execução primorosa dos seus instrumentos, notadamente a viola e o violão.


Literatura de Cordel é um patrimônio cultural que herdamos dos ibéricos há séculos atrás e que mantemos vivo, principalmente no Nordeste, com muito respeito e carinho.  Vamos à glosa:

Um jumento, uma cangalha,
uma vaca, uma galinha,
um baú chei' de farinha,
um colchão cheio de palha..
O matuto e a sua tralha,
se sentindo como um Rei,
fazendo sua própria Lei.
dentro do seu pensamento:
"isso é somente 1%
dos 100% que eu sei"

quarta-feira, 20 de março de 2013

NOTÍCIAS DO JALAPÃO - 3

capim dourado, riqueza em artesanato
No penúltimo dia no Camp Korubo, abdicamos do passeio à trilha do Mirante e nos dedicamos a caminhar pelos arredores, tomar banho de rio e jogar conversa fora debaixo de uma providencial palhoça na prainha, tomando uma cervejinha bem gelada para espantar o calor intenso da manhã. À tarde, mais uma atividade no rio: descer a correnteza com coletes salva-vida, desde um trecho mais para trás, cerca de 500 metros até a prainha, pelo meio do rio, livrando pedras na margem e vencendo a correnteza, no final a nado, isso umas boas três ou quatro vezes, qual curumins aproveitando a vida da aldeia.  Noite chegada, depois do jantar, a tradicional fogueira, numa clareira próxima, para conversar e ouvir os "causos" do nosso guia Mauro, conhecedor emérito do lugar, com suas histórias de onças e lobos-guarás, aventuras e assombrações.
Palácio Araguaia
Dia seguinte, a volta à civilização, infelizmente...  No caminho, uma das grandes atrações nos esperava: a Cachoeira da Velha e mais um último banho no Rio Novo, antes que este se lançasse sobre as pedras formando o belo complexo de cascatas em forma de ferradura, caindo poderosamente de uma altura de 20 metros, como se fosse uma mini Foz do Iguaçu, com direito a "garganta do diabo" e tudo. Mais um espetáculo da natureza pródiga do Tocantins. Confiram no vídeo, abaixo.


Uma vez em Palmas, aproveitamos a manhã seguinte para conhecer a cidade, a mais nova capital de Estado do Brasil, construída há pouco mais de 20 anos, com uma população de 200 mil habitantes de todos os estados brasileiros.  Planejada nos moldes de Brasília, com largas avenidas e setores específicos e independentes e banhada pelo imenso rio Tocantins, a cidade tem tudo para ser um polo de desenvolvimento importante naquela região. 

No Jalapão, deixei minha marca, a assinatura do caminhante, 
trazendo na mala bastante saudade, como disse o Poeta

sexta-feira, 15 de março de 2013

HISTÓRIAS DO CHIQUINHO

"Pimentinha", cortesia do Blog Omelete

O neto de uma amiga, de apelido Chiquinho, é um cabra arteiro como ninguém.
Esperto até onde pode ser um menino de seis anos, inventa cada história que assombra quem não lhe conhece.
Vejam bem o que esse guri inventou semana passada. Como passa boas horas na casa dos avós paternos, e já que esses não gostam mais de dirigir, cismou que tinha de tirar "carteira de motorista".
Chega pra avó e diz:
- Vovó, eu quero tirar minha carteira de motorista.
- Não pode, Chiquinho, você é muito pequeno, é uma criança, ainda
- Pequeno ?  Nada disso, vovó.  Eu tenho seis anos e sei dirigir.  Já dirijo meu carrinho de pedal sozinho !
- Não, Chiquinho... você só pode tirar sua habilitação com 18 anos.
- Pois eu vou sozinho ao DETRAN e vou tirar minha carteira, você vai ver..
A avó, curiosa pra ver o que iria sair daquela cabeça esperta, pergunta:
- E o que você vai dizer por lá ?
- Eu digo ao homem que dá as carteiras que tenho pêlos no rosto e nas pernas.
- Sim... mas mesmo assim o homem vai lhe achar muito pequeno para dirigir.  E agora ?
- Ah.. vovó !  Você não entendeu nada.. Eu digo a ele que sou pequeno, mas sou velho. É porque eu sou anão !!!
- ?!?!?!?!?!
- Aí eu quero ver se ele não me dá minha carteira !!!

quarta-feira, 13 de março de 2013

NOTÍCIAS DO JALAPÃO - 2 -

No fervedouro de S. Félix
4 de março, segunda-feira. Mas pra gente, poderia ser até 31 de fevereiro de um dia qualquer da semana. A essa altura, calendário não fazia mais sentido, nem falta.  Sempre que "estou pelo mato", essa questão é recorrente.  Que importância tem uma data? E sempre respondo a mim mesmo: só a da chegada e a da partida.  Como na vida, só temos certeza de que chegamos e um dia iremos partir.  No meio disso tudo, vivemos... É o que importa, afinal.
Pois nesse dia -que por acaso era 4 de março, uma segunda-feira- subimos mais uma vez no sacolejante caminhão, depois do café da manhã, rumo aos poços do fervedouro 1 e 2, em Mateiros e S. Félix.  São ressurgências d'água tão fortes que não permitem que os banhistas afundem, Nem que queiram !  Uma experiência inédita.  De lá, mais estrada.  As distâncias no Jalapão são sempre imensas.

Na camisa do glorioso América do Recife,
o verde-esmeralda das águas da cascata
E mais uma maravilha: a Cascata ou Cachoeira da Formiga.  Apaixonado por cachoeiras, das muitas que conheci pelo Brasil afora, nunca tinha visto uma tão linda !  Águas verde-esmeralda e cristalinas.  Inacreditavelmente belas, essas águas fluem, numa forte correnteza, formando um riozinho incrível, onde ficaríamos o dia inteiro, não viesse a tarde caindo rapidamente. De lá, passamos pela pequena Mateiros, para compra de artesanato de capim-dourado, atração decantada do Jalapão.  Ouro em fios de um capim bem fino e brilhante, que apenas ocorre nas veredas daquele Paraíso.  Dali para o acampamento, onde chegamos à noitinha, moídos e sacolejados pelas dezenas de quilômetros de estrada jalapenses, abertas no areial do cerrado pelo valente caminhão.



terça-feira, 12 de março de 2013

NOTÍCIAS DO JALAPÃO 1 - O VÍDEO

Araras livres no cerrado (foto de Fred Monteiro)
Postei ontem, com esse mesmo título e umas fotos,alguma coisa sobre a nossa viagem ao Jalapão, lugar maravilhoso, em que a Natureza encontra-se ainda quase virgem.  De difícil acesso, e por isso mesmo, pouco conhecido, o Parque Estadual do Jalapão, no Tocantins, é um destino turístico/ecológico cobiçado pelos que amam a Natureza e os seus encantos.

Palavras e fotos são, muitas vezes, insuficientes para descrever o prazer de estar ali.  Por isso, tomei o cuidado de -como sempre faço, há mais de 43 anos- filmar em vídeo todo o passeio.

Primeiro, para jamais esquece-lo, como nunca esqueci todos os que fiz até hoje.  Depois, para dividi-lo com os que não têm a oportunidade ou o hábito de acampar em lugares menos confortáveis mas de muita beleza.

Agora, com essas imagens, deixo um conselho: nunca é tarde para voltarmos às origens.  Quando um dia decidirem (e nunca é tarde para começar) enfrentar uma viagem assim, garanto que não se arrependerão.  A Paz e a beleza desses campos, rios e serras lhes recompensarão todo o sacrifício !