terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DE REPENTE, UMA CANTORIA

Nas minhas andanças pelo Brasil, volto sempre à minha terra natal, Maceió.

Av Tomaz Espíndola, Farol, a casa onde nasci
Toda vez que vou a Maceió, passo aí...
Atraído, quem sabe, pelo meu umbigo que ficou enterrado por lá, conforme é crença aqui na Nação Nordestina, gosto muito de rever aquelas praias de um azul único em todo o Brasil, de sentir a brisa morna das tardes alagoanas, sob o manto dos coqueiros cujo verde escuro contrasta com o céu azul intenso do verão e o verde azulado do mar e das lagoas.

Numa dessas muitas estadas por lá, passei uma manhã na Praia do Francês, no vizinho município de Marechal Deodoro.

E lá, com cara de turista, fui abordado por uma dupla de violeiros de praia, dfas muitas que atuam por ali, fazendo loas e cantando seus improvisos à cata de uma boa gorjeta.

Fazendo de conta que eu era de fora, deixei que eles cantassem à vontade.  Quando pararam para respirar, informei que, apesar de morar em Pernambuco desde ainda bebê, tinha nascido em Maceió, no bairro do Farol.

Não se deram por vencidos e mandaram mais uma dezena de estrofes em torno do tema.

Dada a gorjeta de praxe, partiram, sobre a areia quente e o sol escaldante para agraciar com seus versos mais um casal de turistas.


sábado, 19 de janeiro de 2013

DOIS ANOS NO AR. . E EU NEM ESPERAVA TANTO


No último dia 8 deste mês, o Blog completou seu segundo aniversário.
Com tantas tarefas a cumprir (aposentado também tem suas ocupações, hahaha) deixei "passar batida" a data .  
Dividindo a atenção entre família e casa, tenho que cuidar do Blog, da coluna no Jornal da Besta Fubana (Mascate das Lembranças) - bestafubana.com - da criação de cordéis, do estudo da música (músico burro sofre!) fui deixando pra depois falar sobre isso.
Mas a verdade é que estou muito feliz em chegar a esta marca. 
Nesses dois anos, atingimos até hoje, 62.000 acessos, o que não considero pouco para um blog pessoal bastante modesto, como o nosso.
Pra mim, "Sete Instrumentos" é aquela cadeira velha e confortável que a gente colocava na calçada da casa, nos bons tempos em que se podia fazer isso literalmente, quando a noite começava a cair, pra contar histórias acontecidas durante o dia, ou coisas do passado. 
Despertar esse interesse de um papo amigável com outras pessoas é coisa que faço com um prazer que beira a paixão.
Sinto que às vezes torno os assuntos uma questão pessoal, um abrir de coração, um dividir intimidades.
Não sei se isso é bom ou se vocês aprovam.  
Mas para mim isso representa a vontade de mostrar que gosto de vocês todos que passam por aqui. De verdade. Muito embora a distância e as limitações de transmitir emoção por uma telinha de computador ou de smartphone.  
Estatisticamente foram mais de 2583 acessos mensais, 86 diários.  Há blogs que cravam esse número num mísero segundo.  
Mas, quem quer saber do tempo aqui, se a intenção é apenas relaxar naquela cadeira de calçada e contar a cada amigo que passa pela rua virtual da minha casa, uma historinha boba, mostrar umas estrofes que acabei de escrever, umas fotos antigas ou novas, uma música que acabei de compor, dissertar sobre viagens, dividir umas emoções, tudo isso com o prazer de uma criança que ganhou um brinquedo novo ?! 
A única coisa que me interessa por aqui é ter sempre assunto pra conversar naquela calçada, sentindo a brisa do Tempo e olhando, da minha cadeira de conversador compulsivo, o movimento dos dias, dos meses e dos anos, bem ali, no leito da Avenida do Agora.  
Um abraço fraterno a cada um de vocês que me dão a honra desse papo diário pela vida afora.  Saúde, Alegria e Paz !

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

NUMA RODA DE CHORO... SÓ DE FERAS ! - PARTE 2


Dando sequência a uma série de clipes musicais que improvisadamente gravei numa reunião de chorões recifenses de primeira linha, trago hoje, em homenagem aos seus 50 anos de atividade musical profícua, o Mestre Henrique Annes, um dos maiores violonistas brasileiros, mudialmente consagrado.
Querido e respeitado por todos os músicos daqui e de fora, Henrique dispensa maiores comentários, motivo pelo qual deixo para vocês o som cristalino do seu violão e a maestria da sua arte. Prestem atenção, a partir dos 2:20, num coro de passarinhos que acompanha Henrique Annes, da varanda da casa do nosso amigo Adalberto Cavalcanti, o Beto do Bandolim.

sábado, 12 de janeiro de 2013

DESVENTURAS DE UM CURURU


 1.
Casquinho era um cururu
que não gostava de rima
porque embaixo ou em cima
nunca rimam com caju
esse final jururu
do nome que ele leva
E "aquela" rima lhe entreva,
o faz ficar deprimido
mas sendo um sapo contido,
esse problema releva

2.
Porém Casquinho teve sorte 
de encontrar nessa vida
de sapo, difícil lida, 
amigo a lhe dar suporte
E assim tornou-se forte,
um cururu respeitado,
bem tranquilo e alimentado
seu emprego era guardar
do dono do seu lugar
um pote bem reforçado.

3.
O pote era um tesouro
num lugar de seca só
pobrezinho de dar dó
ali nunca se viu ouro
Num tamborete de couro
o pote tinha seu trono
E de inverno a outono
o Casquinho vigiava
Inseto ali não chegava,
pois ficava em desabono

4.
Casquinho só na vigia
jogava a língua e pegava
todo inseto que passava
ali naquela coxia
O cururu lhe lambia,
a lingua nele alcançando
Mesmo o inseto voando
o Casquinho lhe jantava
e nunca se aperriava,
estava sempre almoçando

5.
Pois um dia o seu patrão,
que por João é conhecido,
"Caneiro" por apelido,
foi fazer sua devoção
Passando um dia em ação
de bebedor veterano,
bebeu mais do que o plano
quase perdeu o caminho,
chegou assim de mansinho,
com cara de desengano

6.
Foi direto para o pote,
bebeu água a mais de quilo,
mas entalou-se com um grilo,
que na boca deu pinote
Pois  João pegou um barrote
de aroeira, bem pesado,
vingou-se no seu criado
gritando:  " Feladaputa,
você não tá na labuta
e eu lhe trato bem tratado ?"

7.
"Cururu cabra safado
você passa a pão de ló
e aqui me engana só
sem cumprir o seu riscado
de pegar bicho avuado
que no pote queira entrar ?
Pois você vai apanhar
uma surra de cacete
é agora que o porrete
no seu lombo vai cantar"

8.
Era o cururu pulando
e o João batendo o pau
com uma cara de mau
que o sangue foi jorrando
e o sapo escorraçando
de casa botou pra fora
Casquinho sem mais demora
foi jogado no terreiro
e o cururu sem berreiro
foi se finando na hora

9.
De manhã João saiu
procura o sapo e não vê
começa a se arrepender
vendo que o sapo sumiu
disse: "putaquipariu !
será que matei meu sapo?
eu tou me sentindo um trapo
homem desqualificado"
todo desmoralizado,
foi ao pé de jenipapo

10.
Lá na árvore frondosa
um cururu estirado,
por formigas devorado,
junto à moita de babosa
Criatura tão bondosa
que outrora lhe serviu..
João de joelhos caiu
pediu perdão ao amigo:
"Cururu, que fiz contigo?"
e então no choro abriu !

11.
Essa história que eu contei,
deste mesmo jeito assim,
ouvi tim-tim-por-tim-tim
de um poeta que é Rei
um cearense de lei,
José de Oliveira Ramo,
escritor que eu aclamo,
que é grande jornalista
e também é colunista
do Jornal que frequentamos

12.
Sua coluna é bacana
se chama "Enxugando Gelo"
ali ele monta a pelo
a tal da Besta Fubana,
criatura soberana
que reina só pelos ares,
navegando sete mares,
com suas asas de aço,
medindo a régua e compasso
suas rimas e cantares.

Recife, 30.12.12
Fred Monteiro

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

NUMA RODA DE CHORO.. SÓ DE FERAS !

Anteontem de tarde, estava aqui em casa trabalhando nesta árdua tarefa de "ensacar fumaça", encangar grilo e estudar violoncello (esse arco de cello ainda me bota doido), quando toca o telefone.
Era o meu amigo Bozó (Ewerton Sarmento, gente da melhor espécie):

Beto do Bandolim comanda a Roda.
- Fred, estás em casa?
- Claro, Bozó.. E eu não me aposentei de novo ?  Até vendi meu Estúdio pra você, rapaz!
- Se não estiver fazendo nada, vem aqui pra casa de Beto do Bandolim que a gente vai começar uma roda aqui..

[Beto (Adalberto Cavalcanti) foi assunto de recente post aqui no Blog.]

- Beleza, Bozó.. vou consultar minha Agenda.. peraí... hmmm.. Rapaz, tou com sorte ! Nenhum compromisso pra hoje... chego já, visse ?

E cheguei mesmo.  Foi só descer o elevador, caminhar até o portão do Condomínio, seguir pela calçada, dobrar à direita, continuar pela mesma calçada, atravessar a rua (ainda não asfaltada, vento soprando, mangueiras carregadas, passarinhos cantando) e chegar lá.  Esqueci de dizer. Eu e Beto somos quase vizinhos, aqui no Poço da Panela, um pedaço de Natureza encravado à beira do Capibaribe, que corre manso, bem pertinho dali.

Cheguei.  Surpresa !!  Beto e Bozó trouxeram pra pandeirar no choro, o nosso amigo João Araújo, Físico, poeta e pandeirista, chorão das antigas, embora tenha a mesma idade do meu filho mais velho.  Aliás, tocaram juntos, Fred Filho no bandolim, no tempo de estudantes da UFPE.  Gente fina demais.. vive atualmente na Alemanha.

Começamos os trabalhos.  Muita conversa, muito abraço, uma cerveja gelada e tome choro !  Daí a pouco chegou o Mestre Henrique Annes, meio século de violão pernambucano de nível mundial, recentemente comemorado no Teatro de Santa Izabel.  Pronto, a roda estava completa.  E Beto começou com um choro de Henrique (Angelical, dedicado à sua esposa Angélica)..

E daí pra frente foi choro até a noite chegar. Confiram no vídeo e depois me digam se eu não sou um cara de sorte, por ter amigos músicos deste nível.  E ser vizinho do Beto do Bandolim...  Vem muito mais por ai, dessa roda e de outras que combinamos fazer.  Aqui pertinho, ouvindo os passarinhos, o bandolim de Beto, o violão de 7 cordas de Bozó, o violão de Henrique Annes e o pandeiro de João, enquanto ele estiver no Recife.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

SEMPRE JUNTOS, MEU PAI !

Faz três anos que perdi o meu melhor Amigo.
O meu mais justo Conselheiro.
O meu Guia e meu Exemplo de Vida.
Seu nome, que originou o meu, como ele me originou, é Frederico.
Não, não morreu.
Retiro o que disse aí em cima: eu não o perdi.
Ele está sempre comigo, no meu coração e na minha alma.
Nos meus sonhos e nas minhas tarefas do dia-a-dia.  
Paizinho, você jamais morrerá.
Estaremos sempre juntos, meu Velho.
Neste ano e em todos os anos que virão.
Para o que der e vier.
Muito obrigado por ser seu filho.
Eu nem merecia tanto.



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

CRÔNICA PARA UM ANO QUE SE VAI




O ano agoniza.  Cai, desfalecido, céu abaixo, amortecendo a queda num colchão de nuvens. Da minha janela eu observo tudo. Saudade dos momentos bons, também dos momentos tristes.


Duas faces da mesma moeda, duas texturas diversas da mesma massa que nos modela: sentimentos.  Sentimentos, o motor dos humanos. Animais, dizem alguns, também os têm. Mas, penso eu, não tão exacerbados quanto os humanos (os seres e os Sentimentos).

(E, apesar de tudo, o ano agoniza.)

Vai embora, aos pouquinhos, sem pensar na gente. Cumpre sua rotina:  amanhecer, anoitecer, amanhecer, anoitecer, amanhecer.. 
O ano resume-se em cada dia que lhe cumpre existir. Amanhece a primeiro de janeiro, anoitece a trinta e um de dezembro. 

(E, apesar de tudo, o ano agoniza.  E agonizamos nós, solidários.)





Cada dia nos acrescendo bons e maus momentos. Não maus de todo. Tristes, apenas.  Tristes momentos de que temos até saudade. Cada dia, sua agonia. Cada dia, um fio de cabelo branco, um segundo que se foi.  Desperdiçado, algum.   aproveitado, outro.


Todos passando, todos desfalecendo, todos agonizando.

Negro, o céu agora.  Em repouso mortal.  
Para ressuscitar em janeiro.  Sob o barulho dos fogos, sob o clarão do Ano Novo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

VENDE-SE JESUS




"Vende-se Jesus."
Sintomático.  Misturam-se as coisas, no Natal de hoje.
Vende-se o Natal, vendem-se os sonhos, vende-se a alma.
Qualquer coisa tem seu preço, incluindo a virgindade leiloada.
Incluindo a honestidade e os princípios morais.
Quem dá mais por um deputado ?  quanto vale um Senador ?
Compra-se e vende-se de tudo neste mundo corrupto.
Vende-se a alma.  Não faltam Luciferes compradores.
A preço de banana...ou de uma pedra de crack.  
Vendem-se ilusões a granel.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 13 - ERALDO LEITE E MADEIRAS DO ROSARINHO

Há exatos 10 anos, o meu caro amigo Eraldo Alves Leite, Sociólogo, concluía seu Curso de Ciências Sociais, na Universidade Federal de Pernambuco.  Apaixonado pelo Carnaval recifense, Eraldo foi um dos grandes colaboradores do Bloco Flor da Vitória-Régia que lhe deve a maior parte do acervo filmográfico, bem como excelentes fotografias dos desfiles que ele acompanhava com devoção.

Estudioso da Cultura Popular, Eraldo esmerou-se numa pesquisa de campo à qual juntou farta documentação, entrevistas, vídeos e fotografias, tudo isso resultando num precioso documento enfeixado no seu trabalho sobre o mais conhecido e amado Bloco Carnavalesco Misto do Recife, "Madeiras do Rosarinho".

Como fio condutor do seu trabalho, Eraldo dissecou com precisão cirúrgica os elementos formadores desse "mythos" do Carnaval recifense e pernambucano, o frevo de bloco "Madeira que o Cupim não rói", composição de Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa).

A música tem origem no Carnaval de 1963, em decorrência do resultado do Concurso Carnavalesco daquele ano, em que o BCM Madeiras do Rosarinho perdeu o campeonato para o seu arquirival  "Batutas de São José".
Depois de concluído o trabalho, Eraldo, com suas muitas horas de gravação de vídeo, procurou-me no F STUDIO, para fazermos a montagem do documentário que agora, com sua autorização, reproduzo aqui.


Comemoramos esses 10 anos com muito orgulho, porquanto sabemos registrada para a posteridade esse belo trabalho de pesquisa e essas imagens com toda a sua pureza documental que a gente simples do bairro de Rosarinho, no Recife, construiu com muito amor pelas cores do seu Bloco que há oitenta e seis anos incendeia corações pelo Recife afora.

sábado, 15 de dezembro de 2012

ACAMPAMENTO FRUSTRADO

Trailer Turiscar Briliant
Quando estudava em Baturité, no Ceará, participei ativamente de caminhadas longas pela Serra, no grupo de escotismo improvisado na Escola, e tomei gosto pelas atividades ligadas à Natureza, coisa que até hoje me fascina e que pautou toda a minha vida, nisso incluído haver viajado por todo o Brasil, com meus filhos, praticamente sem ocupar um quarto de hotel, somente acampando, quer em campings organizados, quer em áreas de praias e montanhas, quer usando um trailer ou barracas simples de lona e nylon.
Conheci assim os principais pontos turísticos e as atrações naturais dos Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Goiás e Distrito Federal.
Aos demais, minhas viagens foram feitas por avião, dadas as distâncias enormes que nos separam deles.
Esse amor pela terra brasileira está bem solidificado em toda a minha família e cada vez me sinto mais apaixonado por esta pátria tão cheia de contrastes e ao mesmo tempo tão farta de beleza, de sol, de música e alegria.
Nas férias de 57, quando voltei do Ceará, após um semestre afastado de casa, resolvi acampar no fundo do quintal, embaixo de uma frondosa mangueira.
Passei uma corda do seu tronco para um cano grosso de ferro das pilastras que sustentavam o telhado lateral da casa, deixando-a bem esticada e por sobre ela lancei um cobertor de lã axadrezado, de casal, que "tomei emprestado" do varal onde secava.
Era de tardinha, por volta das 5, o sol já querendo se recolher, e o pessoal estava todo lá pela frente, de forma que "trabalhei" muito tranquilo na execução dos meus planos para armar minha tenda.
Esses planos incluíam uma ação meio nefasta, qual seja: armado de umas seis estacas de madeira, com cerca de um palmo cada, afiadas com faca de cozinha e originárias de um cabo de vassoura quebrado, passei a enfiá-las no cobertor, fixando-o no chão de terra do quintal e furando um buraco de bom tamanho, a cada estaca que batia.
Isso posto, com a minha cabana triangular perfeitamente esticada e fixada ao chão, providenciei um piso muito confortável: uma esteira de piri-piri, de propriedade de minha madrinha Dedé que, também desconhecendo a minha expropriação, ajudava Mãezinha com os pequenos, lá na frente da casa.
E prosseguia minha "trela"... fui ao quarto e, de cima da minha "cama patente" Faixa Azul, arrastei o colchão de palha seca, revestido de um tecido rústico de algodão listrado de azul, vermelho e branco, numas tonalidades meio desbotadas, creio que pela economia de tintura na fábrica de tecidos que o distribuía.
Colchão de palha..ô tempo bom ! 
Colchão em cima da esteira, fechei as abas da barraca com duas toalhas de banho e, calado, fui pra sala jantar.
Como já estava escuro e ninguém mais achou de ir até o fundo do quintal, naquela hora, meu "acampamento" ficou lá, camuflado pelas sombras da noite.
Terminada a ceia, anunciei meu segredo: iria acampar no fundo do quintal e, solenemente, pedi a Paizinho a permissão.
Ele, não contendo o riso, a concedeu e acrescentou:
-Vá, meu filho..mas se o medo apertar de noite, pode bater na porta que eu abro a casa pra você.
Fiquei feliz pelo voto de confiança e, muito ancho, recolhi-me ao meu acampamento particular. Por via das dúvidas, levei uma lanterna de pilhas, que naquele tempo a gente chamava de "flash-light" e era de metal cromado, da marca "Eveready".
lanterna eveready das antigas 
Valentemente fiquei lendo alguma coisa à luz da lanterna, até o sono chegar, enquanto escutava os risos dos irmãos, som que aos poucos foi sendo substituído pelo chiado dos grilos e miados de gatos da vizinhança; mais tarde, apenas um ou outro latido de cachorro e - distante- o assovio agudo e tranquilizante do apito do guarda-noturno.
Não sei se cheguei a dormir... acho que cochilava quando, de repente, um piado de coruja ou bacurau me fez arrepiar todo e saí em disparada pelo quintal, batendo várias vezes na janela do quarto dos meus pais.
Paizinho, que estava acordado, esperando mesmo este momento, abriu a porta da casa e me ajudou a botar o colchão pra dentro.
Chato foi ter que aguentar as gozações do dia seguinte, acompanhadas do jogral da irmanzada:
- "Escoteiro de marca fobó, que mija na cama e diz que é suor"....
E eu, que havia até pensado numa desculpa bem conveniente para a desistência, esqueci meu imaginário "gato-do-mato quase do tamanho de uma onça", que seria meu álibi para a corrida de volta ao sossego das quatro paredes de um quarto, sorri amarelo, disfarcei e entrei no coro.

(do meu livro de crônicas "Caçador de Lagartixas")



segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CORDEL - A TRISTE HISTÓRIA DO PINTO ZÉ



1.
Morava lá nas Queimadas
a Raimunda Buretama
mestiça trabalhadora
e que por ali fez fama
 "cevando" sua mandioca
deitando galinha choca
vivendo a vida sem drama

2.
Raimunda sempre dizia
que pra galinha chocar
e sem perder nenhum ovo
teria que acobertar
onze ovos, nada mais
pros pintos nascerem em paz
e em galinhos se tornar

3.
Certo dia, nesse afã
sentindo-se "afuleimada"
e conforme ela dizia
com "a priquita queimada"
sem querer, na conta errou,
doze ovos arrumou
no ninho atrás da latada 

4.
Ela tanto conhecia
seu ofício, que gostava
de botar nome nos ovos
que a galinha chocava..
e o ovo Zé sobrou
pois quando ela recontou
do ninho logo o afastava

5.
Mas, a galinha, sabida
uma mãe muito amorosa
empurrou o Zé pra dentro
da quenturinha gostosa
e chocou a dúzia inteira
o Zé foi, na brincadeira,
chocado pela penosa

6.
Cismada com suas contas
Raimunda foi conferir
de novo contou os doze
e de novo fez sair
o Zé de dentro do ninho
foi parar, o coitadinho
na "cesta de consumir"


7.
E quando os pintos nasceram
Raimunda fez um almoço
matou uma galinha gorda
que era só carne, sem osso
e serviu para o marido
aquele ovo escolhido
que foi frito sem sobroço

8.
Foi quando um pintinho saiu
piando com alarido
até encontrar o ovo
no prato lá do marido
Piava de fazer dó
que a Raimunda ficou só
lhe dando o maior "sentido"

9.
A Raimunda ouvindo o pinto
piando sua latomia
começou a chorar tanto
que chega dava agonia
traduziu na mesma hora
isso tudo, sem demora
o que o pinto dizia

10.
O marido da Raimunda
ficou triste como que
quando a mulher lhe falou
o que o pinto quis dizer :
" Zezinho, fala comigo!,
meu irmãozinho, meu amigo,
que saudade de você !"

11.
Esse drama de novela
aconteceu tal e qual
estou contando a vocês
e eu choro de passar mal
quando lembro que o Zé
não foi um pinto qualquer
d'uma tragédia rural

12
Essa história foi contada
a mim, desse mesmo jeito,
pelo amigo José Ramos
Cabra de muito respeito
morador de Imperatriz
E tudo o que ele diz
pode crer: é sem defeito !

Recife, 10.12.12
Fred Monteiro

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MEMÓRIAS DO FSTUDIO - 12- FRADE E FRED


Ele era baixinho, careca e meio gordinho.  Idade, por volta dos 80 anos.
Estava parado num ponto de ônibus defronte à Praça de Casa Forte.
Eu tinha acabado de sair de casa e ia fazer uma caminhada até o centro da cidade, para o estúdio.
Começou a chover e fui me abrigar na marquise do ponto de ônibus.
O Frade, vim saber depois, era apelido. Seu nome era José. Um cara muito engraçado e de fala e sorriso fáceis.
Começou uma conversa.  Contou que estava meio perdido. Tinha ido a uma consulta num posto de saúde próximo,
teve vontade de andar e vinha meio sem saber onde estava, até começar a chuva. Aí, ficou naquela parada esperando
o primeiro ônibus que fosse para o centro da cidade.
- Eu vou pro centro e pego um ônibus para o bairro de San Martin.  Na hora que chegar chego bem, porque minha velha fica até feliz quando eu estou fora de casa. Ela diz que eu perturbo muito.
Eu já achei o velhinho simpático e sorri do seu bom humor.  Era cego de um olho (hoje a gente tem que chamar deficiente visual, que saco!)
Mas estava feliz como um menino levado e começou a cantar baixinho uma marchinha.  Em certo ponto, parou.  Aí voltou com a carga toda:
- Tá ouvindo essa música?  Eu comecei a fazer.  A letra eu sei todinha, mas a música mesmo eu não sei como termino. Só tem esse pedaço.
Interessei-me na conversa.
- E o senhor é compositor?
- Nada.  E eu sei lá o que é isso ? Eu faço umas coisas e invento umas poesias. às vezes eu termino, às vezes não.
E eu:  - E por que o senhor não grava, pra não esquecer ?
- Ah, meu filho, e eu lá tenho dinheiro pra isso?
- Mas eu tenho um estúdio de gravação.  Se quiser gravar, terei o maior prazer. Gostei muito da sua marchinha.
O velhinho acendeu o olhar.
- Tá brincando comigo ? 
- Nada.. e eu sou de brincadeira.  Se quiser gravar, vamos lá no Estúdio e gravamos. Depois eu dou um acabamento e o senhor não esquece mais sua música.
- De graça?
- De graça, claro. Não sou eu que estou oferecendo o estúdio?
- Ave Maria, meu fio ! De graça até injeção na testa. Agora é que eu vou virar artista mesmo.
Chega o ônibus.  Entramos. Eu pela porte de trás, porque naquele tempo ainda não era idoso (tinha 55 anos), ele pela porta da frente, com a carteira de identidade na mão, feliz da vida.
Nos encontramos novamente no corredor.
Traçamos os planos.  Ele cantaria a parte que sabia da sua música, eu completaria o que faltava de melodia para o restante da letra e faria os arranjos.
Já no Estúdio, Frade soltou a voz e cantou.  Eu peguei o violão, compus na hora o restante da melodia, na intuição mesmo, em cima do que ele já tinha feito.  Passamos o resto da manhã fazendo as bases com a sanfona (teclado) e o ritmo (zabumba, triangulo, reco-reco e agogô).  Na hora  de cantar o Frade rejeitou a parada.  Não tinha jeito de afinar. Tentamos muitas vezes, mas cadê ritmo e afinação ?  Não deu...
- Deixa comigo, Frade, eu canto.
De tanto repetir, eu já tinha decorado melodia e letra e mandei ver.
Mas eu queria gravar a voz do novo amigo.  Afinal, o tempo todo ele falava:
- Minha velha não vai acreditar que eu agora sou artista e gravei minha música !  Eu quero ver a cara do pessoal lá da rua, quando ouvir essa música no Rádio.  O senhor conhece alguém de Rádio pra tocar minha música ?
- Conheço, Frade... Fique tranquilo. Vou levar seu disco para a Jovem Cap e para a Rádio Universitária, no programa de Ivan Ferraz. Agora você é um artista de verdade !
E inventei um diálogo que gravamos e depois mixamos, com os solos no meio e no final da faixa.  Tudo improvisado também.  Afinal, o que eu queria era ver o velhinho feliz.
E está aí o nosso trabalho. A voz dele fica meio ininteligível, no diálogo, mas parece muito com a do personagem "Coronel Ludugero" de saudosa memória.  Matutão desenrolado, o Frade ainda passou várias vezes lá pelo Estúdio.  Conversamos e rimos muito da sua aventura musical.  Levei, efetivamente, o Frade e seu disco para a Jovem Cap e o apresentei a Carminha Pereira, proprietária da emissora e animadora de diversos programas.  Ela adorou a figura.  Ivan Ferraz também.  Enfim, o Frade tocou bastante naquele São João e nos que se seguiram.  Faz tempo que não o vejo, e espero que ele esteja bem.
Como ele próprio diz, no final da música, com toda a alegria de quem está de bem com a vida, apesar de tudo :
- É, Compadre Fred. Agora vai... vai e vai bonitinho !!!






quinta-feira, 29 de novembro de 2012

NÃO É POR SER MINHA FILHA NÃO, MAS...

Tatiana fazendo de conta no contrabaixo

Se eu fosse publicar aqui somente minhas besteiragens musicais e poéticas, eu estava era ferrado!  Porque, aqui pra nós, não tenho mesmo muito o que mostrar.
Por outro lado, tenho... e é prata de casa, digo melhor, ouro de casa, no caso, meus filhos artistas.  Artistas, vírgula !  Artistas amadores, mas amadores competentíssimos.
Tatiana, cantora, poetisa e compositora festejada e premiada em alguns Festivais de Música.  
Fred Filho, bandolinista e cavaquinista, também compositor, também premiado em Festivais.
Enrico, saxofonista (alto) e flautista, compositor, arranjador e pianista.

Fazer o que?  Ora, mesmo a contragosto deles, que não gostam de aparecer, feito eu, que sou muito "amostrado", vou passar a trazer aqui, de quando em vez, alguma coisa do trabalho deles.

Feito esse clipe, que faz parte de um DVD amador que produzi, filmando com duas câmeras (uma fixa e outra na mão fazendo "takes" de outros ângulos,  e fazendo a edição em casa mesmo.  

Este "show" que ela fez, com a antes denominada Bande Ciné (hoje Bande Dessinée), aconteceu num espaço bacana, o Teatro da Livraria Cultura, onde apresentações de muito bom gosto e para um público seleto sempre acontecem.  Foi em 2007, outubro ou novembro, não estou bem certo.  O repertório da banda era bem eclético, com músicas dos anos 60, a maior parte  do repertório de artistas franceses, italianos, alguma coisa de música latina, também. 

Um detalhe, neste clipe, é curioso: A cantora DALIDA, que fez uma famosa dupla com Alain Dellon, não pronunciava corretamente a palavra "PARÔLE" (em francês, palavra, mesmo.)  Talvez por conta de sua naturalidade (egípcia) tinha dificuldade de falar o "R" dobrado ("parrole").

Mas assim ficou e todas as suas gravações e apresentações.  E Tatiana, fiel à pronúncia da Dalida, assim também o fez.  Esquisito, mas faz parte da História, já.

Curtam, então, o som dessa excelente Banda e a voz limpa e afinada da minha maior Musa, Tatiana, mãe de Theo, neto querido, e esposa do Bruno, que faz o contrabaixo elétrico (embora prefira o acústico, que também domina à perfeição).

E depois não me digam que eu sou CORUJA..  Podem me chamar de CORUJÃO, mesmo !




segunda-feira, 26 de novembro de 2012

MEMÓRIAS DO FSTUDIO - 11 - BETO DO BANDOLIM

Beto do Bandolim, em ação

Um grande amigo, um imenso músico, compositor, arranjador e, mais que isso tudo, um grande ser humano.
Gravei 3 CDs com o Beto do Bandolim (Adalberto Cavalcanti) e em todos eles me surpreendi com a qualidade da sua execução.  Beto é, sem dúvida nenhuma, um dos maiores bandolinistas do Brasil.  Além do que, como compositor, escreve belíssimas páginas musicais em todos os gêneros, dedicando-se principalmente ao chorinho e ao frevo.

Campeão de Festivais, agenda cheia o ano inteiro, Beto toca e compõe de tudo e na área da música nordestina é muito solicitado para gravações, o que faz com perfeição, sempre.

Quando inventei o Bloco Cinema Mudo, Beto entusiasmou-se com a idéia e saiu conosco fantasiado de "Carlitos", brilhando com seu bandolim pelas ruas do Recife Antigo.  Um perfeito ator, reproduzindo todo o gestual e até as características físicas do Mestre Chaplin, do qual é fã confesso.

No Bloco Cinema Mudo (Beto é o Carlitos, à direita)
 e da esquerda para a direita eu, (o Magro),
a melindrosa Dalva Torres e  Fred Filho (o Gordo)
Gravamos os CDs " Um Bloco em Poesia ", "Inspirações" e  "Felix Silva - Cantando com o Coração", um disco de seresta co-produzido por nós e que contou com a participação brilhante de Dalva Torres, Henrique Annes, Bozó 7 Cordas, Valdemir Silva (flautista), e outros feras da música pernambucana.

O que mais gostei de ter feito, foi Inspirações.  Um dos primeiros trabalhos autorais de Beto, contendo frevo-de-rua, valsa, maxixe, xote, baião, seresta e polka.  Inspirações, que deu nome ao disco é um choro fantástico que ele fez em parceria com o imortal Rossini Ferreira, que escreveu a segunda parte e o qual reproduzo aqui.  


O frevo-de-rua, foi um presente que o Beto me deu e do qual muito me orgulho.  Chama-se  "Pé-de-Vento" , apelido que ele me concedeu, por conta da minha condição de Maratonista. É um frevo de execução bem difícil, dada a intensidade do ritmo, que Beto sabe explorar muito bem, calcado nos poucos frevos para bandolim de autoria do imortal Jacob.  Reproduzo-o, a seguir.


Dos tempos da minha primeira sala (aquela foto de cima já foi feita na mais recente), tenho esta foto com o Beto e seu bandolim e eu, dando uma da flautista, coisa que nunca fui (mas que tive vontade de aprender esse instrumento, isso tive!)

Bandolinista de ouro e Flautista de araque
Somente para provar que não estou exagerando quando digo que Beto é um multi-artista, mostro aqui um outro presente especial: a minha caricatura (ele é exímio caricaturista e se diverte desenhando os colegas enquanto espera sua vez de gravar).  Fiz uma montagem do desenho sobre a partitura da melodia, devidamente oferecida, como vocês podem ver aí abaixo.

Parti-cari-catura
Resumindo, um dos grandes momentos do FSTUDIO com Beto, foram vários, porque além dos seus discos  o meu querido amigo Adalberto Cavalcanti foi assíduo frequentador do meu modesto estúdio, tocando dezenas de vezes com os conjuntos e Orquestras que comigo gravaram.

sábado, 24 de novembro de 2012

UM XOTE NA PRAIA (UMA PARCERIA FRUSTRADA)

Lagoa do Mundaú-AL
Um dia desses publiquei aqui um post que é um dos mais lidos do Blog, onde eu conto a história de minha música "Travesseiro de Macela".Só que eu não contei a história completa. Por que? Para não falar sobre uma parceria que morreu no nascedouro. Eu explico. Tatiana, minha filha, que é uma poetisa de primeira, cantora, compositora, advogada, e mãe do meu querido neto Theo, tinha feito um poema falando sobre a casa que ela gostaria de ter numa praia imaginária. Achei que o texto tinha um ritmo pra lá de gostoso que me lembrou desde logo um xote. E, depois da primeira leitura, já comecei a reler o poema cantando e e batucando com os dedos o ritmo. Para fazer surpresa, gravei de maneira bem simples o "nosso" xote e à noite, em casa, botei pra tocar. Tati realmente tomou um susto, ficou meio sem jeito mas, sincera como sempre foi me disse que não era bem num xote que ela tinha pensado e que fez o poema na brincadeira, sem a menor intenção de divulgá-lo. Eu entendi e disse a ela que também tinha feito a gravação somente para agradá-la, sem intenção de divulgar. Mas, passados mais de 12 anos, acho que ela não se importará se eu mostrar a vocês a sua "casinha na praia". E aqui pra nós: eu bem que forcei a barra, porque xote e praia não têm mesmo nada a ver, um com o outro. É como surfar lá na Praia da Joaquina, (Joáca, para os íntimos) , em Santa Catarina, vestido de vaqueiro...


 CASA NA PRAIA
(Tatiana Monteiro)


Quatro quartos, um banheiro, uma cozinha
Meu amor, duas salinhas: a do som e a do café
Um terracinho, a varanda com a rede
Encostado na parede um distinto canapé
Pelo chão, meu violão e mil tapetes
e um quadro de bilhetes, de cortiça, feito à mão
Na  minha casa, lá na praia, que sossego
vou contar-te meus segredos,
ver minha constelação

Ter as estrelas e o mar como vizinhos
Acordar com os passarinhos,
se não despertar te chamo
E no meu quadro, branco e verde, de bilhetes
vou pregar com alfinetes
um recado, que te amo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

55.555



55.555...
Número mágico.  Cinco números 5.  Na fila, feito menino entrando em sala de aula, com a mão no ombro do menino da frente, marchando e cantando alguma cantiga antiga e saudosa.

Um sorriso na carinha gorda, de bochechas avermelhadas. Uma mão no ombro, outra segurando a lancheira.

Mas, que história é essa ? 
Acho que a imagem infantil voltou à tela mental, por conta do mais novo poema do Mestre Jessier Quirino, que acabo de ler, intitulado "Merenda Corriqueira". Que, por sinal, termina assim:

"A mais doce ventura desta vida
É a lancheira, os recreios e a lição."


O número apareceu na tela do computador, hoje de manhã;  na verdade o que apareceu, logo que eu entrei no Blog foi o número 55.552.  

Fiquei ligado.  Ansioso e como se dizia antigamente, "com um olho no padre e outro na missa".  
Lia um dos muito emails e voltava de quando em quando para a página.  Numa dessas voltas, está lá estampado o número mágico.  55.555 acessos.  

Gostei tanto, que mandei logo um "print screen", copiei a tela pelo "paint" e  aí em cima está o arquivo para a posteridade. 

Mais uma vez agradeço a vocês.  Afinal, foram 55.555 vezes que me concederam a honra de suas visitas.
Eu queria muito estar "ligado" de novo, no dia em que o contador marcar 555.555 ou 5.555.555, o que já é
pedir demais... 

Mas 55.555 é um número único, uma filinha de cinco cincos, de mão esquerda no ombro do colega da frente e mão direita segurando a lancheirinha de lembranças. 

Muito obrigado a todos !

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MINIBEE



A abelhinha era menor que uma mosca.

A flor, menos de um centimetro de diâmetro.

A lente, sim,  foi uma macro-zoom. 

A paciência também foi macro.

Uns cinco ou seis minutos esperando que ela  parasse um pouco até eu conseguir enquadrá-la e, finalmente, fazer este registro.

Mas eu acho que valeu a pena e divido com vocês.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

CASA DE FARINHA




















Eu nunca participei
de festa de farinhada
Porém já vi num terreiro
debaixo de uma latada
em redor do forno quente
um meio mundo de gente
entretida na empreitada

É homem girando a roda
É mulher que vai rapando
É mandioca moendo
e outras vão peneirando
e enquanto a lenha esquenta
um cheirinho bom aumenta
e a farinha vai secando

Como eu sou um praciano
que nasceu pela cidade
sigo assim bem satisfeito
com toda felicidade
de provar dessa receita
tão gostosa e tão perfeita
branca preciosidade !

A raiz da mandioca
produz a farinha fina
mas se tem coisa que eu gosto
é do olhar da menina
desencaroçando a goma
depois sentir o aroma
da tapioca divina

Com um pouco de manteiga,
com queijo ou coco ralado,
purinha mesmo, bem quente
como até ficar impado
Mas pra ficar na medida
ela tem que ser servida
com café bem caprichado

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

PICHADORES: PORCOS NUMA CIDADE EMPORCALHADA



Esse país um dia vai ter jeito.  Vai deixar de ser o valhacouto dos imbecis e o alvo dos idiotas.
Eu tenho certeza de que isso termina por acontecer, mais dia, menos dia.

Um dia desses publiquei aqui no Blog uma matéria com um grafiteiro profissional, com fotografias e filme
de uma pequena entrevista que ele me concedeu, a meu pedido. Veja no link abaixo:


Era um trabalhador da Arte, ganhando o pão com o suor do seu rosto.

Pintava com spray colorido, traços precisos e emoção de artista reconhecido um muro e portão de um Centro Educacional, em Casa Amarela.  Um exemplo digno de como ganhar a vida sem dilapidar o patrimônio alheio, alegrando a cidade, sem emporcalhá-la. 

Hoje, pela manhã, no mesmo bairro de Casa Amarela, descendo a Rua Ana Xavier rumo ao Bompreço Supermercado, deparo-me com mais uma das milhares, talvez dezenas de milhares de pichações de vadios inescrupulosos que se julgam filósofos, políticos, líderes, sei mais o que.   Mas que no fundo são isso mesmo que você, caro leitor civilizado, está pensando: uns marginais recalcados que usam a liberdade que a democracia lhes concede para sujar a cidade que lhes abriga.

Já morei em casa térrea, já tive um muro pichado e sei qual a sensação que toma conta da gente quando vê seu patrimônio, seu lar, invadido por um bandido desses. 

A falta de policiamento, a falta de vergonha dos mandatários, a falta de fiscalização, a falta de educação e principalmente a falta de punição a este tipo de, vá lá....  "gente", nos irrita e nos deixa com sede de justiça.

Por mim, um corretivo muito eficaz para esses vândalos seria fazer com que todos os que fossem apreendidos com seu spray criminoso nas mãos fossem obrigados a limpar, manualmente, com lixa e tinta pagos por eles mesmos, dez imóveis sujos pela sua falta do que fazer, como "prêmio" à sua idiotice, imbecilidade e falta dos mais simples conceitos de cidadania.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

ULTRASSOM, O MARTÍRIO



Sala de espera dá um tédio de doer.  Principalmente sala de espera de consultório.

Para concluir meu check-up anual, fui providenciar um ultrassom, solicitado pelo médico.  Saí de casa às 9 em ponto e às 9,30 estava na clínica pensando que iria ser rapidamente despachado para voltar à minha rotina.
Qual o que... Saí de lá às 12,30, praguejando contra a porcaria de serviço médico brasileiro que nos transforma em otários cada vez que precisamos cuidar da saúde.  Pagamos uma pequena fortuna para manter um plano de saúde particular de primeira linha e o que temos ?  Um SUS melhorado !
Inevitavelmente nos sentimos otários explorados por um governo displicente e malversador dos recursos dos nossos impostos.  Principalmente nós idosos, que passamos a vida inteira contibuindo para a previdência social e hoje -contratos rasgados- mesmo aposentados, ainda somos mensalmente descontados por um serviço inexistente e que temos de comprar aos espertos planos de assistência médica particular.  Em resumo, uma vergonha !  
Mas voltemos ao tema, de que me desviei.  Voltemos à sala de espera.
Nessas três horas de espera, numa sala com cerca de 50 pessoas sentadas, sob o frio desregulado de um aparelho de ar condicionado e a voz cabulosa de uma atendente a chamar os pacientes, vez em quando, ouve-se de tudo.
Ontem mesmo, fiquei sabendo de todos os detalhes de uma festinha de aniversário que será realizada neste fim de semana, num diminuto "salão" que fica no terminal de ônibus de um bairro em Abreu e Lima.  A mãe da criança falava, digo melhor, gritava, ao telefone celular, todo o roteiro da festa da sua filha para o contratado, do outro lado da linha. E soube que, como o salão era pequeno, e o dinheiro curto, ela só iria querer, de equipamentos, uma "piscina de bolas".
Enquanto isso, próximo ao meu ouvido esquerdo, um palavreado rápido entre duas mulheres que até poucos minutos atrás eram ilustres desconhecidas, dava conta de toda a vida conjugal de uma delas, incluída aí a performance atlética (modalidade "pulo de cerca") do marido, o gênio ruim da sogra, as doenças do filho caçula e naturalmente, as dificuldades financeiras.  Nem sair de perto eu podia, visto que todas as cadeiras da sala estavam ocupadas.   Uma tortura chinesa a mais, outra a menos, não fariam diferença.
Enquanto isso, rolava o papo da festinha:
-  Mas a Elisângela, minha amiga que lhe indicou disse que você faria uma diferença.  180 reais só por uma piscina de bolas? Tá muito caro. E eu vou combinar ainda com o "pai da minha filha".  Vê se faz por R$ 150, moço, vai...

*****
- O senhor tem que tomar 6 copinhos de água, no máximo.  E devagar.  Quando a bexiga estiver cheia, me avise.

Ouvi essa recomendação a pelo menos 3 ou 4 pacientes que, naturalmente, iam fazer o competente ultrassom de próstata, bexiga e vias urinárias, que era também o meu caso. 

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- Mas você não imagina a cara-de-pau dele.  Estava de mãos dadas, na hora do expediente, com uma loura "piriguete", desfilando no Shopping Recife, já pensou.. Ah, se eu estivesse lá !  Quem viu tudo foi Marina, minha amiga de infância.. e o safado ainda chegou em casa ontem com cheiro de perfume.  

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Examezinho cruel, esse !  Quando você está no ponto de virar uma fonte ambulante, um Manequinho de carne e osso. vem a atendente e lhe manda entrar na sala do ultrassom.
E haja pressão justamente em cima da .... bexiga,  que está quase estourando, feito os balões do aniversário da menininha da festa.  A única coisa em que eu pensava, no momento, era num alvo e lindo sanitário, num banheiro cheirando a lavanda, onde eu pudesse descarregar toda a água acumulada em seis copinhos de plástico de 100 ml cada. E haja barreiras mentais de contenção.  Ganha a batalha, terminado o ultrassom, corri ligeiro para o banheiro, que estranhamente ficava no início do corredor e não no final, feito aquelas casas de cidadezinha de interior e, quase chorando de prazer, deixei lá, naquele trono branquinho e asseado, cheirando a lavanda, todo o líquido ingerido à força da necessidade do exame.

Ainda bem que outra tortura dessas somente no ano que vem, se Deus quiser !

sábado, 10 de novembro de 2012

ESTÃO VOLTANDO AS FLORES... E O FREI-VICENTE TAMBÉM !


Um caju apressadinho
Estão voltando as flores. A Primavera as trouxe de volta e junto com elas, o prenúncio do Verão.
O deste ano parece que está meio apressado, pois começam a subir as colunas de mercúrio dos termômetros. 
Das flores aos frutos é um passo e um passarinho.

Frei-Vicente voltou !
E aqui da minha varanda, das minhas janelas, observando com avidez as cores e as flores, os frutos e os pássaros que se apressam a veranear conosco, faço da minha ânsia de Sol e de Luz, aquilo que a fotografia, essa mágica ao alcance de todos me autoriza a fazer.

Registrar a Vida é um dos maiores prazeres que o ser humano pode ter.  E eu aproveito minhas idas e vindas curiosas a varandas e janelas, para escrever com luz (foto - grafar) os tons e os sons da vida.  Como nessas fotos de um caju apressado emergindo de um mar de folhas no imenso cajueiro do Sítio vizinho.

E também flagrar a beleza de um "frei-vicente" que veio extemporaneamente pesquisar o inquieto mercado imobiliário local da azeitoneira do nosso Condomínio.  Não sei se é o mesmo do Outono passado, mas está tão belo quanto aquele que foi objeto de uma pequena crônica aqui no Blog.   



Uma nota de correção.  Estou sempre dando fora em matéria de ornitologia.  O caro Professor Galileu Coelho, que já me corrigiu na matéria anterior, quando chamei de guriatã-de-coqueiro um frei-vicente (tangara cayana), acaba de me dar mais uma aula, Na verdade esse pássaro aí é que é a guriatã (euphonia violacea).  Feita a correção, onde está o "frei-vicente", leiam "guriatã".. Desta vez é ela mesma !  Nada como ter um amigo que é a maior autoridade em Ornitologia do Nordeste !!  Obrigado, Mestre Galileu !  O texto anterior, a que me refiro, está aqui: http://www.seteinstrumentos.com/2012/05/o-recife-ainda-e-verde.html 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

CAÇADOR DE LAGARTIXAS - REPOST

Deu trabalho, mas um dia ficou pronto
Não adianta discutir.. menino é menino, em qualquer circunstância.  Antigamente, aliás, a meninice durava muito mais tempo que hoje.  Uma afirmação aparentemente temerária  como essa, é facilmente comprovável por alguém que tenha 50 anos ou mais. 

Apesar de ter meu trabalho, meu próprio dinheiro e relativa independência, aos 14 anos de idade, nunca abdiquei do meu direito de ser criança.  Assim, aproveitei ao máximo as brincadeiras da idade e até estiquei-as pela adolescência afora, enquanto pude.  Não necessariamente tentando tornar-me um Peter Pan, de quem sou fã, assistindo ainda hoje, em dvd o antológico desenho animado de Walt Disney, com o mesmo prazer que experimentei ao vê-lo na tela do Cine Trianon, nos idos de 1953, 54, por aí..

Mas, é interessante lembrar essa minha vida dupla entre o homem-feito, com emprego registrado em carteira de trabalho de menor e tudo, e o menino de pés no chão, correndo pelas ruas de Casa Forte e do Poço da Panela.

Autografando no lançamento do livro
Com o mesmo entusiasmo eu brincava e trabalhava, não fazendo muita distinção entre a obrigação e o lazer porque, em ambas as situações, o que contava era o prazer. Além de empinar papagaios atormentei, ( e hoje me arrependo disso) as lagartixas do meu bairro.  Fazia laços para apanhá-las, com o talo das folhas de coqueiro.  Retirava da folha a parte verde, sobrando o talo central.  Na pontinha dele, fina e maleável, fazia o laço e partia para as minhas aventuras de caçador. 

Engraçado, como há poucas lagartixas hoje em dia por aí... os edifícios, as ruas calçadas, o barulho e o movimento da cidade, foram expulsando esses bichinhos simpáticos, que punham ovos à vontade nos quintais do meu tempo e ainda se prestavam a conversar conosco:
- Lagartixa, você é uma bobona ?  
E elas assentiam, balançando a cabeça pra baixo e pra cima.



lagartixa na Chapada Diamantina
(Sem quintais, pra onde fugiram as lagartixas?  São uma espécie em extinção ?)

Embora essas preocupações me aflijam hoje, naquele tempo nem passavam pela minha cabeça.  O desafio era chegar perto delas, sem assustá-las, ariscas que eram, colocar bem devagar o laço à frente das suas cabeças e, num movimento rápido e preciso, finalizar a operação, prendendo-as pelo pescoço.

Mas, de uma coisa podem ter certeza: jamais matei alguma, nas minhas caçadas infantis.  Como nesses programas de pesca esportiva de hoje, tão comuns nas estações de TV, tão logo as capturava, eu as soltava para, se elas deixassem, capturá-las em seguida e soltá-las outra vez.