segunda-feira, 2 de julho de 2012

MEU IRMÃO PEDRO AUGUSTO E OS PATRULHEIROS TODDY


Surgiu um dia, na programação do Canal 6, TV Rádio Clube do Recife, um programa patrocinado por um chocolate em pó : Os Patrulheiros Toddy.
Na verdade, o seriado que dava nome ao programa versava sobre as aventuras e desventuras de um pelotão de Rangers do Texas, modernos cowboys com seus chapelões característicos, revólveres à cinta e muita valentia, para entusiasmar as crianças e adolescentes que os assistiam.

(Foto extraída do Blog Anos Dourados)
Como toda criança da época, fomos mais ou menos colonizados por estórias desse tipo, que não eram de todo desprezíveis, porquanto incutiam nos jovens valores morais como a coragem, o amor à lei e à ordem e a vontade de ajudar o seu semelhante.
Pedro Augusto, nosso irmão, era o quinto na ordem de idade e o terceiro dos cinco filhos homens da casa.
Maior fã dos Patrulheiros, entre nós, não perdia um episódio do seriado por nada neste mundo e sabia de cor o hino e as gesticulações próprias dos cowboys que formavam o pelotão de “rangers”.
Um belo dia, o apresentador local do programa, devidamente uniformizado, anunciou que haveria o sorteio de um traje completo por semana, para formar uma turma de patrulheiros-mirins.

Pedro entusiasmou-se e pediu a Mãezinha pra guardar todos os rótulos de Toddy daí por diante... aliás, pediu o mesmo aos tios e tias mais próximos e até mesmo à vizinhança.
Tanto mobilizou o pessoal que conseguiu, de imediato, vários rótulos do produto os quais, devidamente envelopados com seus dados escritos no verso, foram enviados pelo correio para a emissora, a fim de concorrer ao cobiçado prêmio.
Nos sorteios, éramos todos um só coração a torcer por Pedro. E a coisa terminou por funcionar... certa vez, após o capítulo do seriado, o apresentador trouxe para o meio do palco a urna cheia de cartas e sorteou o ganhador que não foi outro, senão nosso mano: alegria e gritaria geral, muitos abraços, beijos e tapinhas nas costas do nosso herói.
Pedro Augusto, com nossos pais
Na semana seguinte, lá estava, no Estúdio da Televisão, nosso Pedrão, vestido a caráter, de calças compridas e camisa também de mangas compridas caqui, chapéu de feltro de na cabeça, estrela de xerife no peito, um belo cinto de couro largo, recheado de balas prateadas, um revólver colt no seu coldre de couro lavrado e um belo par de botas marrons e bem lustrosas.
Junto a outros meninos que já haviam ganhado uniformes e liderados pelo apresentador, cantaram o hino dos Patrulheiros e levaram ao delírio a platéia caseira: “Nós somos os Patrulheiros Toddy, a Lei juramos defender...”
Daí por diante, sempre que brincávamos de “cowboy” Pedrão era o líder... quem discutiria a autenticidade da sua autoridade de xerife texano, diante de um uniforme daquele ?!... Quem desafiaria um revólver tão real e que, por cima, disparava tiros de espoleta de papel, é verdade, mas que soavam como tiros de verdade e ainda deixavam no ar um cheirinho de pólvora como nunca sentimos ?...


(do meu livro de crônicas "Caçador de Lagartixas)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

NÃO CUSTA NADA LEMBRAR (1) SERENATA PERNAMBUCANA

Compus e gravei cerca de 90 músicas, sendo muitas dessas também gravadas e mesmo regravadas por outros cantores e grupos musicais de Pernambuco e do Brasil.  Ultimamente tenho me dedicado ao estudo do violoncello e não componho mais com a mesma frequência, mesmo porque o ato de compor requer paciência e espera, para que não se caia na tentação de, fazendo em quantidade, perdermos em qualidade ou, no mínimo, começarmos a nos repetir.  No começo deste ano, resolvi fazer uma experiência com música para cordas.   Dois temas musicais foram então escolhidos dentre 28 "marchas-de-bloco" já gravadas e conhecidas do público carnavalesco: "Mascate das Lembranças", em que homenageio os pregoeiros do Recife e "Saudade de Olinda", dirigida à nossa cidade-irmã.

O arranjo é do Maestro Edson Cunha e a interpretação de quatro excelentes musicistas, todas atuantes em Conjuntos de cordas e Orquestras do Recife: Gizelle, Valquíria, Aline e Roberta.  Fiquei muito feliz com o resultado e ainda este ano pretendo repetir a experiência com outras músicas minhas, sempre enfatizando a melodia e deixando de lado o aspecto ritmico dos mesmos.  No clipe presto também uma homenagem às duas cidades e ao elemento que as une: o Carnaval.

sábado, 23 de junho de 2012

A INCRÍVEL ODISSEIA DE FÁBIO JR

Um dia desses, conversando com minha irmã Marta sobre as crianças da família, surgiu uma lembrança bem interessante.
Estava ela tentando fazer dormir o filho recém-nascido, embalando-o na cadeira de balanço no terraço da casa dos nossos pais.  Aliás, nessas histórias de recém-nascidos, a casa dos pais está sempre presente.  É ali, no ninho antigo, que todos nós vamos buscar auxílio e experiência nos primeiros dias da gratificante tarefa de ser pais e mães.
Uma das irmãs, a caçula Ana Lúcia, tinha ganho um papagaio muito engraçado, metido a falante e assoviador.
Como toda adolescente da época, fã apaixonada do cantor Fábio Jr, Ana Lúcia pôs nele o seu nome.


E Fábio Jr fazia suas gracinhas pela casa, bem à vontade, até por essa época.
Marta cantava, embalando o filho, e Fábio Jr remedava de longe.
Mas Guilherme era (e continua sendo) do "agito".  E nada de dormir.  E Marta a embalar.  E Guilherme a berrar.  E Fábio Jr a aprender todos os detalhes do seu choro.
Finalmente, a paz.  A mãe, satisfeita, olhando para o filho que agora dormia, sereno.


Silêncio total na casa.  Marta, pé ante pé, vai levando o filho para o berço, com todo cuidado para não acordá-lo.  Mas, de repente, não mais que de repente, quem chega pela sala, no seu rebolado natural de papagaio?
Ele. Em pessoa e em choro: Fábio Jr. demonstrando toda a sua potência vocal chorava e berrava de uma maneira tal que o próprio Guilherme não conseguiria imitar.  Mas tentou e tentou até conseguir. Acordado pelo choro do papagaio, abriu o berreiro novamente e a ladainha recomeçou em dueto.
Tempos depois de muito perturbar, Fábio Jr foi dado de presente a uma tia que gostava muito dele. Um dia fugiu para o apartamento do vizinho.  Passou alguns dias por lá, voltou ao apartamento da tia até que dali -de novo- alçou o voo para o estrelato definitivo. Se é verdade que papagaios chegam facilmente ao centenário, deve estar por aí, em algum lugar, aprendendo novas cantigas de ninar e novos berros infantis para desespero de mamães de primeira viagem.

domingo, 17 de junho de 2012

VERSOS A GRANEL - 1

Vou começando por aqui uma série publicando uns versos que venho fazendo sem a menor pretensão. Às vezes me dá essa vontade de poetar e dano-me a comentar coisas em blogs e colunas por aí afora de forma a matar minha vontade de ser poeta cordelista.  Mania que peguei ultimamente, por conta do Jornal da Besta Fubana, onde tenho uma coluna (Mascate das Lembranças).  O JBF é lugar de poeta de primeira linha e é com eles que eu tenho aprendido muito nessa arte tão leve e gostosa de literatura. 

O post de hoje é uma miscelânea de estrofes soltas, a maior parte tendo servido de comentários a textos, crônicas, charges, artigos e outros poemas e cordéis ali publicados.

LATRINAMÉRICA


A Latrina americana
vai se arrepender um dia
quando a Democracia
não for mais a soberana
quando um tirano sacana
pisar no povo indefeso
esmagar todo o seu peso
em cima do pobre povo
sem trazer nada de novo
arrostando o seu desprezo


***

SAUDADE, FLOR TRISTONHA
(à minha maneira e à maneira de Zé Limeira)

A saudade é flor tristonha
Sem perfume, nem beleza
E possui uma natureza
que parece coisa estranha
Uma dor extemporânea
Que em segundos sumiu
E o tempo consumiu
Na mesma celeridade
Você não mede a saudade
Que deixou quando partiu.

A saudade é uma bola
Correndo dentro do peito
Deixando a gente sem jeito
Com cara de graviola
Cutuca essa radiola
Bota um disco de vinil
Daquele que a gente ouviu
Num recanto da cidade
Você não mede a saudade
Que deixou quando partiu

****








NOME DE CACHORRO

Eu fico muito pimpão
quando vejo um vira-lata
com nome que sai da mata
do mar ou de um riachão
Mas um absurdo, então
é botar nos animais
nomes de racionais
tem Xôla, Tupi, Piaba
É nome que não se acaba
se não tem a gente faz

Cachorro bom não atende
esses nomes de madame
e não gosta que lhe chame
de Zé, Carlinhos, João
não é um nome pro cão
nome de cão é Traíra,
Fura-Nuvem, Macambira
é Xerife, é Ferrabraz
é Malhado e Capataz
Saci, Cotó, Curupira

sábado, 16 de junho de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO - 7 - MAESTRO DIMAS SEDÍCIAS

Comecei esta série relembrando momentos muito importantes da minha vida de músico, compositor e produtor musical, focando alguns posts em personalidades da música pernambucana que cruzaram nossos caminhos e muito me honraram em participar da sua arte, através do meu modesto trabalho de perpetuar suas músicas em gravações que hoje, para mim, têm um grande significado.

Muito além do mero registro sonoro, são momentos inesquecíveis.  Aprendi muito com esses amigos/clientes/instrumentistas/cantores/arranjadores/compositores e maestros.
Por isso tudo sinto-me na obrigação de tornar públicos esses momentos de grande enlevo profissional e musical.

Trato hoje de um grande artista, de um grande músico, compositor, maestro, arranjador e amigo: Dimas Sedícias, nascido em Belo Jardim, em 1930, falecido no Recife em 2001. (mais dados biográficos aqui: http://www.enciclopedianordeste.com.br/nova328.php)


Genial e criativo, Dimas, infelizmente desconhecido do grande público, deixou uma obra vasta, comparável a dos nossos melhores Mestres.

Sua carreira brilhante desenvolveu-se sobretudo no Brasil, mas também na Espanha, Portugal, França e Itália, levando a outros povos a marca da nordestinidade pujante, mostrada  com toda ênfase no seu trabalho musical.

Em contrapartida, trouxe também para nós suas experiências européias, sua vivência de cultura universal e erudita. É o que ouvimos, por exemplo na música a seguir, uma pequena suíte para fagote e flauta magistralmente interpretada por Valdir Caires e Paco diGea, respectivamente, ambos seus colegas na Orquestra Sinfônica do Recife.

Trata-se de uma peça em três movimentos representando uma "festa de touros", que ele compôs para presentear ao seu amigo alcaide da vila de Molledo, no Norte da Espanha. Os elementos da rica cultura ibérica estão aí tão vivos que dispensam comentários, parecendo-nos estar numa "plaza de toros" assistindo o desenrolar desse drama secular do jogo de vida e morte entre o animal e o humano.



Mas Dimas era extremamente regionalista, também.  Neste disco que mal havíamos começado a gravar, quando sobreveio a doença que o levou à morte, há um exemplo disso, numa pequena peça que lembra o nosso decantado baião.

A execução primorosa do dueto entre o clarone de Crisóstomo Santos e o clarinete de Erilson Oliveira ilustram a música dedicada a um amigo de Dimas: Na Granja do Manoel, tem o balanço de um baião de pé-de-serra saído da mente desse bomjardinense fiel às origens.



Estas gravações que ora apresento são inéditas, fazem parte do acervo do FStudio e estão provavelmente sendo apresentadas pela primeira vez ao público, delas existindo até então apenas mais 2 cópias, uma delas com a viúva do Maestro e outra com seu discípulo e músico do Grupo SaGrama Crisóstomo Santos.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O PARAÍSO, TÃO PERTO...


Conhecem o Paraíso?  Ainda não?  Pois eu conheço.  Fica em Aldeia, no meio da paz e das plantas. Seus guardiões são gente de carne, osso e alegria: Jaime, meu irmão, e Elena, minha cunhada, que não medem esforços para nos fazer sentir especiais.  E assim nos sentimos.Ali o tempo passa lento, a pressa fica do lado de fora, a trilha sonora é executada por bentevis e sabiás.


De vez em quando  a chefe da segurança solta um latido forte para mostrar que está tudo sob controle. O nome dela é Kelly e é o xodó do casal.
Mas, essa introdução toda foi somente o pretexto para mostrar a vocês o outro xodó dos donos do Paraíso: as flores.  Lindas, em cada estação renovadas, criadas soltas, feito os passarinhos, jóias naturais no meio da exuberância do verde do lugar.  E, no entanto, cuidadas como se estivessem num vaso especial, dentro de casa, destacando as cores e a leveza das formas.
O Paraíso é o nosso ponto de encontro com aquele outro Paraíso mais famoso.  Enquanto não o temos, vamos aproveitar este aqui, tão perto.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

GERALDO AZOUBEL - UM PEQUENO REALEJO, UM IMENSO MÚSICO !

"Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas"..  Olavo Bilac



Partiu ontem um bom amigo.   
Voltou para o Pai, onde com toda certeza hoje tem seu abrigo e conforto, junto à sua querida Inez, que há dois anos também voltou para a Casa Eterna.

Geraldo, com sua filha Juliana

Geraldo Azoubel, um músico de grande sensibilidade, devotado ao seu instrumento que sempre trazia consigo. Uma pequena gaita-de-boca, ou realejo, como gostava de chamar.

Dela tirava sons suaves, ora vibrantes, ora dolentes, conforme lhe aprazia e cabiam no imenso e variado repertório.

Um dia, em 2004, Geraldo me procurou no Estúdio.  Estava entre sério e sofrido, preocupado com a notícia que havia recebido, acerca  da luta que haveria de travar durante quase oito anos.  


Guerreiro como sempre foi, naquele mesmo dia deixou gravadas várias melodias de belas músicas natalinas.  Seria seu presente de Natal para a família e amigos, disse-me.  Pediu-me que complementasse as linhas sonoras com uma harmonia, que deixou a meu critério fazer.


E assim nasceu o primeiro disco de uma série que fizemos juntos, num trabalho de parceria e cumplicidade musical, como ele aliás deixou escrito na dedicatória de um dos seis discos que gravamos. 


Foram eles, pela ordem: O Realejo do Natal; O Realejo da Paz; O Realejo Romântico de Olinda; O Realejo de Sempre; Meu Pequeno Realejo e O Realejo dos Blocos.

Não sei de qual eu mais gosto. Em cada um deles, ficou um pedaço do amigo e do seu amor pela Música.  Ficou também um pouco da minha vontade de, nos arranjos que fiz para acompanhá-lo, dizer da minha amizade e admiração pela sua musicalidade.

Sinto demais não termos feito o sétimo disco. 
Ainda na festa de lançamento do último deles, de frevos-de-bloco e marchas-rancho ( clique aqui para ouvir) conversamos sobre a vontade de fazer um trabalho juntando o som do seu realejo ao de um quarteto de cordas, explorando temas clássicos. Até cheguei a sugerir o título, no espírito dos demais discos da série: "O Realejo de Casaca".

Conheci Geraldo há coisa de trinta anos atrás.  Juntamente com Waldilson e Walter Neves, meus amigos/irmãos do conjunto musical Os Tártaros, fizemos alguns shows beneficentes destinados a entidades assistenciais.

Geraldo teve esse cuidado de dividir sua arte com aqueles que dela necessitavam, para esquecer seus dramas terrenos e aliviar seu sofrimento espiritual.  Um benemérito, sempre.

A imagem que persistirá na minha mente, acerca desse amigo que ontem partiu, será sempre a da bondade e da alegria, da força que transmitia, mesmo precisando de forças para lutar contra a doença, de amor à sua família e de lealdade à sua profissão e aos seus milhares de amigos.

Vá companheiro, gozar hoje a paz dos Justos e ouvir a Música das Estrelas que -como disse o Poeta Bilac- é reservada aos que amam profundamente a vida.  "Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas !"

sexta-feira, 1 de junho de 2012

THEO, MEU ALMIRANTE DE ESQUADRA !

Theo, desembarcando ontem à noite, cheio de vontade ! 
THEO, MEU PEQUENO ALMIRANTE
(para Theo, de Vovô Carequinha)

Tua nau aportou em berço puro
Consolou-me esse teu choro tão sincero
E a Paz que já trouxeste, bem seguro,
de que o amor que te envolve é todo vero..

Dorme Theo, Almirante estrelado
O amanhã te reserva imensa Glória
O teu mar, verde-amar,  iluminado
porque tu já és parte da História

Singra os mares desta vida com justeza
Sem tormentas e procelas, teu Destino
Será grande, forte, belo...só certeza
de Vitória, Força e Luz, meu pequenino !

Por mais que a gente pense que está acostumado a certas emoções e que elas não nos afetarão tanto, até por conta de outras já vividas, a Vida, a manifestação dela, da forma mais primitiva e bela, o Nascimento de um Ser, nos pega de surpresa e desencadeia mais uma torrente de sentimentos.  Aconteceu comigo, novamente, ontem à noite.  O milagre de um novo Ser, o filho de minha filha, mais um neto querido e esperado, me fez encher os olhos d'água e o coração de alegria incontida.

Paisagem marinha, pintada por Tio Enrico, um
presente especial para Theo
Novo marujo à bordo da Nau da Vida, esse pequenino já nasceu imenso: Almirante de Esquadra !

Eu sei, há um posto acima, ainda ( e uma estrela a mais), a ser galgado por Theo. Mas esse, ele o alcançará por si mesmo, pelo seu esforço, inteligência e caráter, que já foram delineados pelo pai e mãe dedicados e amorosos, de cujo amor nasceu.
A vida apenas começou, para Theo. Os sete mares que se cuidem ! Nenhuma gota d'água, nenhum raio de sol, nenhum sussurrar de brisa será segredo para esse marinheirinho valente que hoje pôs nos ombros as suas dragonas de Viajante dos Mares do Tempo !

Bem vindo Theo.. e que os mares dos dias sejam sempre de bonança e lhe levem sempre a portos seguros e de bom calado. Levante âncoras, meu neto, e que toda a Felicidade, Paz e Saúde lhe acompanhem nessa viagem tão bacana que você tem pela frente !


Ouçam aqui o "Cisne Branco" de A.M Espírito Santo, para homenagear o novo Almirante !




segunda-feira, 28 de maio de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO - 6 - ROMERO AMORIM (parte 2)

Capa do CD "Esses Blocos", criação de Val Amorim
O disco de Romero Amorim, "Esses Blocos", foi um dos que tive grande prazer em gravar, porque reuniu o melhor dos Blocos do Recife. 
Com Sevy Nascimento e Arimatéia
A partir da sua capa (criação da filha Valéria (Val) Amorim), ficou expressada a vontade de Romero de fazer um tributo aos blocos por ele amados. Reuniu fotos dos flabelos (para quem não sabe, são os cartazes que indicam o nome dos blocos e antecedem o desfile das pastorinhas e orquestras) dos Blocos para os quais compôs músicas hoje imortalizadas.
Não sei por que (e continuo a criticar e insistir sobre isso) as nossas emissoras de rádio (exceção feita à Rádio Universitária, com os programas de Hugo Martins e Miriam Leite) não divulgam nossas músicas tão belas e que tanto agradam a todos que as conhecem. 
Sendo assim, dificilmente teremos entre as "paradas de sucesso" obras premiadas, como foi o caso de "Saudade Azul", uma perfeição de poema e canção, que ficou esquecida nas prateleiras das discotecas, delas somente saindo quando algum fã dos Blocos a solicita expressamente.

Vejam o que perde a coletividade, por mero desconhecimento e pela falta de divulgação das emissoras comerciais.   A música ficou a cargo da Orquestra de Ademir Araújo, com arranjo do próprio Ademir, acompanhando as vozes de Ângela Luz, Valdênia Melo e Vanda Lu que estão na foto abaixo abraçadas a Romero. 
Valdenia, Romero, Vânia e Ângela






SAUDADE AZUL (Romero Amorim - letra e música)

Que bloco é esse de azul singelo
que faz mais belo esse azul da tarde
e à tarde vem anoitecer flabelo
no desmantelo azul desta cidade?

Que luz é essa, azul que invade
e traz no azul esse azul etéreo
como se fosse uma saudade azul
a derramar-se em seu próprio espelho

Que lira é essa de azul tonal
que tange notas de azuis festejos
e bebe a taça de azuis desejos
no desmantelo azul do carnaval?

É a saudade azul, azul poema
lembrança azul, azul de Carlos Pena !

Ainda voltarei ao tema "Romero Amorim", nessas Memórias do F Studio.  O Poeta da Aurora merece!

domingo, 27 de maio de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO - 5 - ROMERO AMORIM

Romero Amorim declama "Esses Blocos", no F Studio, 2002

Ele já era nome consagrado nas letras e na música de Pernambuco.  Campeão de Festivais de âmbito estadual ou nacional, quando o conheci, nos idos de 1994/95, quando participei, pela primeira vez do VI Recifrevo, com a primeira música que compus, um frevo-de-bloco chamado "Saudade de Olinda".  Romero participava com "Saudade Azul", em homenagem ao poeta Carlos Pena Filho.  Um frevo-de-bloco lindo, que anos depois tive a honra de gravar, no F Studio.

Romero tinha iniciado fazia pouco tempo, o Encontro de Blocos da Rua da Aurora, no Movimento por ele fundado "Aurora dos Carnavais", do qual -desde a primeira versão- o nosso Bloco Flor da Vitória-Régia participou, até 2006, quando desfilamos pela última vez.

Quando fundamos o Bloco, Romero fez questão de participar, como compositor, escrevendo um lindíssimo poema que foi musicado por Getúlio Cavalcanti, "Voltando ao Jardim".
Nele, o Poeta da Aurora relembra os tempos vividos em Casa Forte, com uma ternura que somente quem vive ou viveu por ali pode entender.

A noite é de festa 
e o riso é de graça
no banco da Praça
defronte à Matriz
A Vitória-Régia
no olhar do poeta
escuta a promessa 
de amor que eu já fiz

Voltando aos encantos
de um tempo tão belo
meu sonho é castelo
que a ânsia criou
Um cheiro de mato
vagueia rasteiro
e um banjo festeiro
meu riso escutou:

Vitória-Régia,
redonda barcaça
Sereia da Praça
beleza floral !
És o poema, 
o tema e a lira
a flor que inspira
nosso Carnaval !

Pois foi no F Studio, entre outubro e dezembro de 2002, que esta pérola musical e mais outras 15 jóias foram gravadas, para minha alegria e orgulho.  Romero acompanhou tudo com o carinho e desvelo de um pai, convidando uma legião de amigos e de blocos para cantar suas composições, dirigidas aos seus queridos Blocos de Pau e Corda do Recife.

No Encontro de Blocos da Rua da Aurora
Somente quem acompanhou de perto o trabalho diuturno de Romero para realizar com todo o brilho esse evento hoje eternizado no bronze de Abelardo da Hora, no trecho final da Rua da Aurora e que se tornou um marco no nosso Carnaval, pode avaliar a emoção que lhe tomava por inteiro quando, ano a ano, vencendo dificuldades e saltando obstáculos, conseguia realizá-lo com todo o sucesso e participação da comunidade dos blocos do Recife. "Esses Blocos", o nome do poema por ele também musicado, dá título ao CD. São 16 faixas de ternura, lirismo e amor aos Blocos do Recife.

Quando terminamos as gravações, eu perguntei, certa manhã ao Romero se ele não gostaria de participar dessa faixa cantando acompanhado pelo Coral Feminino.  Ele recusou, de imediato, e de imediato eu insisti em que pelo menos ele declamasse o poema, a fim de perpetuar sua voz no disco.  Depois de muita resistência, o Poeta aceitou e o declamou, com a emoção à flor da pele, que sempre o fazia chorar (e Romero, nesse particular, era um emotivo incorrigível: chorava mesmo, como todos sabem!).

Pois aí vão, nos arquivos abaixo, a voz do imortal Poeta da Aurora e a sua música para o nosso Vitória-Régia e o seu querido bairro de Casa Forte.








Pouco antes de ter início o calvário que levou o nosso amigo Romero para uma nova dimensão, tive um último recado dele, quando anunciei pelo Facebook o fim do FStudio e que aqui reproduzo:

"sábado às 10:17 · Curtir (desfazer) · https://s-static.ak.facebook.com/rsrc.php/v1/yw/r/drP8vlvSl_8.gif 2
Romero Amorim Fred, já tô com saudade, irmão."

Eu também, Poeta.  Principalmente daqueles papos que batíamos todos os dias, praticamente, na "Sertanense"  ou no "Beco da Fome" da Rua Bulhões Marques, junto com Hamilton Florentino, Vila Nova, Américo do Bombardino e tanta gente boa que passava por ali na hora do almoço.

Fique em Paz, Poeta ! e continue inspirando com o seu lirismo os Blocos do Recife, "Esses Blocos" que você tanto amou !

domingo, 20 de maio de 2012

O RECIFE AINDA É VERDE

Da Índia para o Poço da Panela - azeitonas ou jamelões

Verde e calmo. Dentro do possível, claro.
Ao lado da minha nova varanda, há uma azeitoneira povoada de pássaros de toda espécie.

Para quem não sabe, a azeitoneira a que me refiro é um pé de Jamelão, ou jambolão.
Aqui no Nordeste é conhecido como azeitona preta, esse fruto delicioso que já me lambuzou as roupas, para desespero de minha mãe, quando eu era menino, e pintou de roxo minha língua de moleque do Poço da Panela e de Casa Forte.

Pois durante 31 anos morando no Poço da Panela (entre 1955 e 1973, (com meus pais) e entre 1977 e 1991, (na minha primeira casa, um pequeno duplex que comprei pouco depois de casar), alimentava sempre o desejo de voltar ao Poço.

E voltei. Como diria Roberto Carlos, voltei para ficar, pois aqui, aqui  é o meu lugar...

Sabiá, um canto e tanto !

Por outro lado passei exatos 21 anos morando em Casa Forte, bem junto à Praça e atrás da Matriz (um endereço bem comum em vilazinhas do interior.  Toda cidadezinha pelo Brasil afora tem uma praça e uma igreja, não é mesmo?.

Socorro-me da Wikipedia, para resumir o Poço da Panela:

Eu te vi  (e te ouvi, também !)

“O Poço da Panela surgiu por volta do séc.XVIII, pertencia as terras do Engenho Casa Forte. No início era um simples povoado em meio às grandes plantações de cana-de-açúcar, porém a partir de 1746 este perfil começou a ser modificado. Naquele tempo uma grande epidemia possivelmente de cólera) tomou conta do Recife e alguns médicos divulgaram que os banhos, durante o verão, no trecho do Rio Capibaribe que banhava a povoado, eram um milagroso remédio no combate à doença. A notícia se espalhou muito rápido e fez com que essa região começasse a ser frequentada pelos ricos do Recife, que logo construíram ali casarões de veraneio. O povoado cresceu e em 1772 ganhou uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Saúde.”

Hora do lanche do frei-vicente (Tangara cayana)
Mas, o que me interessa hoje, em meio à paz desta manhã de domingo, é mostrar para vocês essas fotos dos meus vizinhos de moradia.

Na paz verde do Poço

Eles na azeitoneira, eu na varanda, câmera na mão, atento à folhagem, coisa de um mês atrás, bisbilhotando suas vidas simples e felizes.

Então, flagrei-os na hora da refeição ou dos ensaios de canto: freis-vicentes, bentevis, sabiás,  estão aqui presentes.  Mas eu já presenciei ariscos sanhaços, sibitos, bicos-de-lacre, um gaviãozinho amarelo, um bando de maritacas (essas somente voando por perto, no seu alarido característico) e um carcará que toda tarde aparece no teto do bloco vizinho.

(Agradeço ao Professor Galileu Coelho, Ornitólogo, pelos ensinamentos preciosos sobre os pássaros de Pernambuco)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

BUSCANDO AS RAÍZES – BEZERROS É CULTURA

Um dia desses tomei o rumo de Bezerros, aqui pertinho do Recife, para beber um pouco das nossas raízes culturais. Em Bezerros, a tradição e o artesanato comandam as atividades o ano inteiro. Do Mestre J.Borges e sua operosa família, surgem trabalhos belíssimos de xilogravura e cordel.

A tradição dos Papangus, no Carnaval, dita o ritmo da cidade, atraindo milhares de turistas do Brasil e do Exterior. O Centro de Artesanato é um capítulo à parte, muito bem cuidado, apresentando sempre exposições de muito bom gosto e variedade. A Serra Negra, além da beleza natural, também guarda sempre surpresas culturais inesquecíveis, principalmente em Junho, tempo de muito forró, coco e xaxado, em meio a uma natureza exuberante e um clima com temperaturas mais baixas nas suas montanhas.

Um passeio que vale sempre a pena ser feito, no mínimo para matar a saudade das coisas da terra nordestina. Quem é de fora não perderá tempo e além de apreciar e comprar peças dessa rica cultura popular, terá oportunidade de conversar com os artesãos, sempre muito solícitos com quem lhes procure. Sendo ou estando de passagem pelo Recife, não deixe de visitar Bezerros, cidade cultural por excelência.

Abaixo uns fragmentos em vídeo do meu último passeio por lá. No final, ainda testei uma rabeca bem artesanal. Música de fundo de um artista do pífano, o Gilson do Pife, de Bonito-PE.

Divirtam-se !



quarta-feira, 2 de maio de 2012

CORREDORES E "CORREDORES"

No camping, à véspera da Maratona da Paraíba
Existe um blog direcionado a corredores de rua, mantido pela revista Veja e escrito por um jovem professor de educação física. Deve ter uma boa aceitação, vez que é vinculado a uma das maiores e mais conceituadas revistas brasileiras, da qual, aliás, sou assinante.
Decepcionado pela falta de resposta a um comentário meu (sinal de que o jovem mestre não é lá muito de aceitar críticas, mesmo fundamentadas, reproduzo-o aqui no meu blog.
Muitos dos meus leitores por certo discordarão de mim. Não sei se o professor sequer vai tomar conhecimento deste post agora publicado, mas com certeza, como todo blogueiro, leu e (como alguns avessos ao princípio da livre opinião dos seus leitores) deve ter meditado sobre ele. E achado por bem jogá-lo na lixeira virtual.  Julguem vocês mesmos se tenho ou não razão em rebater semelhante afirmativa (ao que tudo indica, feita com certa revolta – vide o ponto de exclamação na manchete.  A propósito, o título do tal artigo era “PRATICAR CORRIDA: ISSO JÁ FOI MAIS BARATO ! “ 

Com minhas desculpas antecipadas ao jovem colunista, este foi o artigo mais ridículo e sem fundamento que li na minha vida de corredor de rua.

Chegando na I Maratona do Recife

Referir-se à corrida como esporte caro é no mínimo um contrasenso. Creio que o post visa a despertar polêmica mesmo, senão vejamos: a corrida é o ÚNICO esporte que você pode praticar sozinho, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar, de qualquer cidade ou região do mundo. Desde que você esteja vestindo (pra não ser preso por nudismo) um mero calção, até mesmo descalço você pode correr sem malefícios maiores para a saúde. Desde que esteja bem alimentado (o que não significa entupir-se de “produtos para corredores” e líquidos miraculosos que não chegam aos pés da boa e velha água potável, você pode correr a vida toda e gerar saúde para si mesmo e estimular seus semelhantes a fazerem a mesma coisa. O que ocorre, meu caro, é que querem tornar a corrida um esporte comercial, que rende lucros inimagináveis para fábricas, produtores de qualquer coisa vendável a uma multidão de “corredores da moda”, gente que quer correr porque hoje correr é chique, dá status e aumenta a sensação de prestígio na sociedade. Estou falando, agora, dessa corrida fashion, com academias promovendo seus "personal trainers" e outros berloques completamente desnecessários à atividade. Quem quiser correr, a qualquer hora pode simplesmente levantar-se da cadeira, colocar um pé à frente do outro e iniciar o movimento mais antigo que o homem realiza desde que se pôs sobre duas pernas e ergueu a coluna. Sou corredor há exatos 29 anos e um mês. Ajudei a fundar um clube de corredores aqui no Recife, o CORRE, defendo a corrida como atividade básica e não como esse “esporte” de que o nobre colunista fala, com medalhinhas, chips, tênis que valem fortunas, “maratonas” de 5 quilômetros e que ainda admitem “revezamento”.. Tenham dó ! Acho que a “popularidade” da corrida não interessa à atividade física mais básica, mais barata, mais popular, mais simples, tanto que era praticada pelos pré-históricos, quando saiam das suas cavernas para correr atrás da caça ou entravam nelas pra fugir dos predadores. Se o enfoque de corrida que tem a sua coluna é esse, perdão: entrei na caverna errada ! Grande abraço e boas corridas… de verdade...não corridinhas sociais !

segunda-feira, 30 de abril de 2012

PERNAMBUCALAGOAR

Saudades das Alagoas
Coqueiros de Pratagi
Onde só vou passear
E quando chego por lá
Eu viro outra pessoa
Fico preguiçoso à toa
Deitado na beira-mar
Ouvindo a onda cantar
E olhando o céu de anil
Nesse canto do Brasil
Belezas iguais não há

Pajuçara e Avenida
São Bento e Maragogi
Ponte Verde e Pratagi
São de ouro uma jazida
Eu fico feliz da vida
Nas praias do meu rincão
No Pontal do Boqueirão
No Mirante da Sereia
Em noite de lua cheia
Delira o meu coração

Praia do Carro Quebrado
Das mais lindas que Deus fez
E na Praia do Francês
Descansar extasiado
Depois de ter mergulhado
Na Barra de São Miguel
No Gunga, queijo com mel
Em Japaratinga,  manga
Um refresco de pitanga
E a praia toda é um vergel

Paripueira e Patacho
Mirante da Sereia, em Pratagi
Cada qual mais encantada
De conchinhas enfeitada
Não sei qual mais bela eu acho
Molhando os pés num riacho
Por maceió conhecido
Um riozinho contido
Correndo em busca do mar
Na certeza de encontrar
O Coruripe querido

Eu louvo uma terra amada
Onde nasci e morei
Pouco tempo aproveitei
Três meses são quase nada
(Foi meu tempo de morada)
Mudei-me de vez pra cá
Pernambuco é o meu lar
Recifense também sou
E assim vivendo eu vou
PERNAMBUCALAGOAR



Ciranda do Mar da Vida - Fred Monteiro

sábado, 21 de abril de 2012

CORDEL E CRÍTICA

Repentistas (Google Imagens)
Na minha coluna “Mascate das Lembranças”, do Jornal da Besta Fubana (bestafubana.com), tenho escrito sempre uns versos de cordel em décimas, sextilhas ou setilhas, pois tem muita gente boa por lá nesse tipo de literatura. Além de exercitar meus neurônios, nessa divertida e tradicional modalidade literária, exerço também meu direito à crítica política, porque no Brasil de hoje em dia é praticamente uma obrigação nossa denunciar todos esses erros e escândalos e não deixar que se tornem rotina. A falta de vergonha e a impunidade estão a exigir uma tomada de posição e, nesse ponto, juntando humor, ironia e engajamento, o JBF tem contribuído, e muito, assim como as demais redes sociais, para essa tomada de posição. Leiam abaixo três estrofes que construí a partir do mote de Cícero Cavalcanti, goiano de Cuiabá:


“O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas”



Eu passei toda a vida trabalhando
Dei um duro danado e aqui estou
Feito um mero esqueleto de eleitor
Que cansou das batalhas, se esgotando
E o meu velho tí’tlo vou guardando
Pois cansei de votar nesses petralhas
Que fizeram da pátria umas borralhas
E levaram do povo o seu dinheiro
“O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas”


Se cheguei pouco tarde me desculpo
Eu estava ocupado em meu trabalho
Pois a vida só tem um cabeçalho
De valor tenho aquilo que eu esculpo
Nessa luta diária eu não me culpo
Pelo tanto suado e pelas falhas
se por tudo ganhei minhas migalhas
procurei ser um homem verdadeiro
"O que dói no meu peito o tempo inteiro
é o Brasil governado por canalhas"


Entra ano sai ano e a coisa fica
Cada vez complicada de se ver
É um tal de roubar e de esconder
O dinheiro do povo na barrica
A vergonha tá ficando nanica
Nesta terra que adora essa gentalha
que na lama da corrução se espalha
E ninguém dá por falta do dinheiro
"O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas"

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A VOZ DO FREVO - CLAUDIONOR GERMANO

Hoje, Claudionor Germano, a Voz do Frevo, completa 80 redondos anos. Nascido em 19 de Abril de 1932, tornou-se conhecido em todo o Brasil pelas antológicas gravações das músicas de Capiba e Nelson Ferreira.
Conheço Claudionor, primeiro como fã, desde que me entendo por gente e comecei a gostar de frevo.  Sua voz, interpretando sucessos de Capiba e Nelson Ferreira, em pot-pourris que entraram para a História da Música Pernambucana, varava noites e madrugadas pelos altofalantes das ruas do Recife, nos dias de Carnaval, animando os palanques de frevo das ruas Nova e Imperatriz e se destacando nos clubes sociais em que se apresentava com as maiores Orquestras da cidade.
O Mestre Claudionor Germano canta no F Studio
Depois, já inserido no mundo artístico dos anos 60, conheci Claudionor pessoalmente, quando por vezes coincidiam apresentações no Rádio e TV Jornal do Commércio.
Agora, algumas décadas depois, tive –por três vezes- a alegria e o orgulho de ser incluido no repertório do Mestre Claudionor: em três ocasiões distintas ele deixou registradas melodias e palavras dos meus frevos-canção “Sol na Moleira”, “Pimenta no Pé” e, no disco em que ele comemorou o Centenário do Frevo, “Coração Recifense”.
“Pimenta no Pé” e “Sol na Moleira” ganharam arranjos do Maestro Edson Rodrigues e acompanhamento da sua Orquestra. “Coração Recifense”, arranjo do Maestro Spok e acompanhamento da Orquestra Spok Frevo.
Nesta última, principalmente, Claudionor deixa passar uma emoção juvenil, quando exclama com todo o entusiasmo num trecho da letra:  “Batuca Nação Pernambuco e mostra a esse povo porque se resiste “
Claudionor é isso: a resistência do Frevo e da Raça, que ele propagou e assumiu durante quase 70 anos de carreira e 80 de idade.
Trago aqui para o Blog minha homenagem a esse grande Cantor, relembrando e apresentando para os que não as conhecem, duas dessas músicas. Ouçam, clicando nos players.


Coração Recifense



Pimenta no Pé

terça-feira, 17 de abril de 2012

A GUITARRA GIANINNI

Pesada demais... Toda em pau-ferro, devia ter uns 10 quilos ou mais, sei lá. Vermelha, meio para vinho, devido à pintura degradée, com a guarda frontal em fórmica branca, escala de mogno e dois captadores.
Foi um dos primeiros modelos da fábrica de violões Gianinni.  Só consegui comprá-la por obra e graça de um negócio que fiz com Paizinho: daqueles negócios de pai pra filho, mesmo.
Paizinho tinha me dado de presente a câmera Flex-a-Ret dele, fantástica.  Eu aproveitei bastante a câmera e durante mais de um ano fiz ótimas fotos com ela.
Flex-a-Ret, a câmera que virou guitarra
Mas acontece que eu queria uma guitarra e estava sem dinheiro. Então, como bom comerciante, propus a Paizinho uma pechincha: eu lhe dava a câmera de volta e ele comprava uma guitarra pra mim.
Dito e feito: Paizinho me arrumou o dinheiro e ainda fiquei com a câmera, na qualidade de fiel depositário.
Eu tinha visto a guitarra na vitrine da Casa Publicadora Batista, na Rua do Hospício, perto da firma da gente. Com o dinheiro na mão, corri até lá, como se não tivesse a certeza de que ia encontrá-la ainda à venda.
Voltei com aquele troféu para o escritório, mal acreditando que ela me pertencia, a partir daquele momento.
Essa guitarra foi minha companheira de música durante um bom tempo, até que um dia um médico observou um desvio na coluna e uma inclinação para baixo na clavícula esquerda.
Não deu outra: recomendou-me trocar a guitarra por outra mais leve.
Foi com a Gianinni que eu entrei para valer no mundo da música. Era o tempo dos conjuntos de ie-ie-ie e o pessoal começava a formar grupos para embalar festinhas caseiras, assustados, como se chamava, pelos bairros do Recife.
Enquanto não aparecia alguém procurando um guitarrista, recebi um convite pra tocar num grupo dos Jesuítas, do Colégio Nóbrega.
Aceitei de imediato.. o objetivo do Diretor do conjunto, o Padre Barbosa, era levar música e alegria para asilos e hospitais.
A apresentação que mais me marcou foi num hospital psiquiátrico em Monjope, município de Abreu e Lima.

A Gianinni com Otamar, eu com uma pá e a prima com meu violão
Foto: cortesia do Dr Otamar Carvalho
Chegando lá, liguei na tomada o meu amplificador, que nada mais era que um rádio antigo, de válvulas, que Paizinho me deu e o técnico em eletrônica da SORMA adaptou para servir de amplificador (nesse tempo a gente representava também uma fábrica de intercomunicadores, e tinha uma seção de manutenção desses aparelhos ("Telespeaker “ ).
Botei logo um apelido na minha "máquina": Bode Rouco. Por que ? Ora, vocês precisavam ouvir o som dos graves desse "possante"... não tinha que ver um bode velho gritando.
Mas bem que quebrou o galho; era só não abusar do volume, que o Bode Rouco ficava manso e afinado.
Pois bem... Conjunto pronto, atacamos o repertório, com muitos baiões e sambas e as "pacientes" dançaram pra valer. No término de cada música, aplaudiam bastante e gritavam pedindo mais.
Até que, no final da tarde, quando paramos a função, aproximou-se uma delas, morena, um pouco velha e desdentada, cabelos bem desalhinhados, com um bolo na mão, falando: - Fiz para vocês comerem ...
A gente agradeceu e fez que comia o tal bolo, com muito cuidado, para não provocar a ira da maluquinha. É que o bolo era de terra, e sua vela uma folha de mangueira.

(do livro de crônicas "Caçador de Lagartixas")

domingo, 8 de abril de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 4 - IRAH CALDEIRA


Nesses 18 anos de F Studio fiz de tudo um pouco.  Inclusive vídeos.  Criação, montagem e edição de vídeo sempre foram uma paixão de um sujeito metido a memorialista, feito eu.  Registrando viagens pelo Brasil e um pouco pelo Exterior, consigo congelar momentos agradáveis da vida particular e profissional.  Como este aqui.  Um certo dia, minha amiga Irah Caldeira procurou-me no Estúdio, lá pelos idos de 2006, quando ela lançava seu CD "Entre o Calango e o Baião".  Fiquei desde logo lisonjeado pelo subtítulo, porque foi extraído de uma música que escrevi especialmente para ela, "Aperta o Nó" (entre o calango e o baião).  O texto que pontua a edição deste vídeo-promocional foi escrito por um poeta palmarense, que à época eu, -por culpa da falta de tempo para acompanhar o movimento literário de Pernambuco e do Brasil- agarrado ao trabalho 10 horas por dia, ainda não conhecia.  Tempos depois, ou seja, em setembro de 2011, vim (pela mão de Leonardo Dantas- conhecer essa grande figura humana, escritor premiado, de méritos incontestáveis, autor de vários livros importantes para a nossa literatura:  Luiz Berto escreveu um texto para a capa do CD de Irah que diz tudo dessa mineirinha/pernambucana que desde então marcou em definitivo seu lugar na nossa Música.  Irah é uma estrela de grande magnitude e brilho e muito me honrou a oportunidade de escrever,em melodia e poesia, a sua trajetória das Gerais ao Sertão pernambucano.  Irah participou comigo da edição e montagem desse pequeno vídeo, e nele estão o texto de Luiz Berto interpretado por meu sobrinho, o excelente locutor Pedro Augusto Monteiro, pontuando uma trilha sonora rica de regionalidade.


Falar de Irah Caldeira e sua bondade, sua simpatia e carisma é muito fácil.   Sua carreira, feita com garra e tenacidade, é o coroamento de uma vida de luta, estudo e dedicação à sua arte.  Seu canto é puro como as cachoeiras de Minas Gerais e cativante como as serras, as cidades, as tradições, o povo, e tudo quanto diz respeito àquele Estado tão querido por todos os brasileiros.  Irah é a síntese da mineirice que o Brasil aplaude. Deixemos que Irah cante a sua saga, trinando como um rouxinol a sua música, transformando em dança e rítmo toda a sua alegria e continue nos apaixonando com o seu jeito puro de ser e de viver.  Obrigado Irah, por um dia ter entrado pela porteira do F Studio, você que é, hoje e sempre, um patrimônio da terra pernambucana.