quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

CARNAVAL E EXPLORAÇÃO POLÍTICA



Algumas poucas pessoas preocupadas com o rumo que está tomando a nossa maior festa popular,  já falaram tanto que não têm mais o que dizer.
  
Por outro lado, há que se lembrar: afora os culpados por toda essa história, que vem se repetindo desde que a Prefeitura dos últimos 12 anos "inventou" o tal Carnaval Multicultural, para espalhar fartas verbas para roqueiros aposentados, funkeiros, disk-jockeys, cantores e dançarinos de axé-music, bregueiros, de todas as latitudes e longitudes do Brasil, existe algo mais.  

Sabem o que é?  É a terrível vontade, a imensa vaidade, a compulsão pela exibição que têm os nossos artistas e grupos carnavalescos. Tem gente que faz qualquer coisa para aparecer, mesmo naqueles vinte minutinhos de aparição numa chamada de TV, numa rua ou palco. 

Se não houvesse passarelas, palcos,  "organização" de shows, "homenagens" a figuras de destaque nos carnavais, essas baboseiras todas inventadas para botar na mídia os "queridinhos" dos poderosos do dia, haveria o que? 

Simples... Haveria a espontaneidade que sempre existiu e poderia voltar a existir, no nosso carnaval de rua. A Prefeitura e o Estado teriam apenas que fazer a sua parte: dar fluidez ao trânsito, atendimento de saúde e segurança à população.  E pronto. E só. 

Deixasse o povo brincar. Iríamos até, quem sabe, voltar a ver aqueles "Blocos do Eu Sozinho" em que gente como “O Lorde de Olinda” voltaria a desfilar seus sonhos carnavalescos, na maior Paz. Sugiro aqui pra vocês e garanto vai dar certo. 

Se os detentores da verdadeira Cultura Popular, essa gente que, sem nenhum tostão da Prefeitura, sem nenhuma ajuda do Estado ou das Estatais federais, cheias de políticos corruptos, se recusar a esse “programa de índio” em que está se transformando o Carnaval do Recife, que só locupleta os sabidões de sempre, repito, se essa gente que realmente faz Cultura Popular se recusar a aceitar essas humilhações a troco de nada, nosso Carnaval vai voltar a ser uma festa do povo. 

De minha parte já fiz o que achei que devia fazer. Mostrei, com o Bloco “Flor da Vitória-Régia”, com o Bloco “Cinema Mudo”e com o “Urso Maluvido”, que a gente pode fazer carnaval sem precisar esmolar junto a esses políticos inconsequentes, uma verbinha de nada ou uns minutinhos de palco, que vão acabar destruindo uma das poucas coisas que o povo sabe fazer todo ano: um Carnaval verdadeiramente popular. 

E se isso não ocorrer, como tudo indica que vai acontecer, essas “autoridades culturais” vão acabar fazendo uma insípida canja com a nossa “galinha dos ovos de ouro”.  

Porque, fosse eu sulista, ou nortista, gaúcho ou pantaneiro, não viria ao Recife, tão longínquo, para assistir shows de rock, de funk, de brega, de axé ou de qualquer coisa que rolasse no meu quintal.  

Vem aqui quem quer conhecer o nosso frevo, maracatu, caboclinho, blocos tradicionais, mascarados, laursas, bois, enfim, toda essa rica variedade de ritmos, de cores e de sons que só existem aqui. 

Minha voz está rouca de tanto protesto, meu coração está ficando insensível, depois de tanta luta inglória. Venceram os que acham que sabem o que o povo gosta. Bom proveito a todos.  Curtam bem a sua “canja”. 

Um dia, muitos ou quase todos deixarão de procurar os iluminados palcos e passarelas, por inúteis. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

OUVIR ESTRELAS

“Ora (direis) ouvir estrelas! certo 
perdeste o senso!” E eu vos direi,no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”. 

(Olavo Bilac)

Este lindíssimo e conhecido soneto de Olavo Bilac, o nosso poeta maior, que inúmeras vezes li, reli e declamei para mim mesmo, sempre teve uma importância fundamental na minha vida, em suas múltiplas etapas. 

Sou um apaixonado pela Música e pelas Estrelas. Há no Universo um ritmo, uma música, que contagia todos os seres humanos, desde as cavernas até os imensos edifícios de hoje, nossas cavernas tecnológicas. 

Quantas e quantas vezes me surpreendi, enquanto ouvia Mozart, ou Saint-Säens, Beethoven ou Bach, Lizt ou Schumann, enfim qualquer grande compositor da Música eterna e universal ! 
Não foi somente uma surpresa daquelas que a gente sente quando encontra o novo. 

A Música nunca é a mesma. Até mesmo aquele estudo que enfrentamos, no aprendizado, de olho na estante, traduzindo cada nota e sua expressão, cada pausa e seu significado na execução, nos surpreende a toda hora. 

E paro, e penso. O que está por trás da criação musical ? Que mistério se esconde atrás dessa divina manifestação ? Que força nos impulsiona para a criação, quando passamos a compor ? E eu mesmo tento responder: o Homem não é um ser comum, como qualquer criatura viva do planeta. Tendo o dom da criação ele reflete, na sua obra, a Grande Obra Daquele Ser Incriado e Misterioso que buscamos. 

Sim. Todo Músico, desde o mais humilde aprendiz, ao mais iluminado Maestro, Arranjador, Compositor ou Exímio Executante, deve ser um mandatário do Poder da Criação. E eu sinto que assim é mais fácil seguir nossa missão de Músico. Uma missão muito nobre, diferenciada, às vezes mal entendida. 

Missão que causa uma pontinha de inveja sadia em quem não recebeu esse dom musical. Claro, não somos os únicos. Outros privilegiados têm outros dons, outras Artes. Mas a nossa, sem falsa modéstia, passa por todas as outras. A nossa Arte só pode ser amada por quem aprendeu a ouvir e a entender as Estrelas!

(Publicado no Informativo Banda Dabanda  Ano I - Nº 10 AMPARO (SP), FEVEREIRO DE 2012)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

DESENHISTA POR ACASO

- Ied, desenha aqui uma capa bem bonita para o meu trabalho de História do Brasil. É sobre o Duque de Caxias (ou Tiradentes, ou Dom Pedro I)... 
- Eu não agüento mais desenhar essas capas pra vocês ! Será possível que vocês não aprendem nunca a desenhar uma capa de trabalho? Ora pitomba !! 
-Mas, Ied, é só desta vez... eu juro que não peço mais... desenha, vai... 
- Tá certo, tá certo.. vai ser a última capa de trabalho que eu desenho na minha vida ! Me dá isso aí, me dá....

Era mais ou menos esse o diálogo entre eu e minhas irmãs, toda vez que as professoras do Sagrada Família ou das Damas pediam um trabalho de História, ou de Ciências, ou de Religião. 
E haja inspiração pra desenhar rostos de heróis, de santos, células e plantas que eu nunca vi. 
Mas, o agradecimento vinha depois, quando elas, muito caprichosas nos seus estudos, mas pouco habilidosas nos desenhos das capas de trabalhos, me mostravam, suas notas: 

- Tá vendo, Ied? a gente tirou um 9 (ou um 9,5, ou um 10) ! Seu desenho ajudou, e muito! 
E eu, resmungando: 
- Não foi por causa do desenho, não... você tá é me enrolando.. desenho não vale pra nota !..."

Mas sempre ganhava o abraço e o carinho das manas, e por dentro ficava até meio orgulhoso dos meus desenhos. 
No mês seguinte, lá vinham elas de novo: 
-Ied, desenha aqui...etc..
E eu, brabo que só uma capota choca:
-Mas, de novo? Vige Maria, não agüento mais essa ladainha ! Me dá isso aí, me dá.. mas não dá pra fazer mais hoje não..só amanhã..

Tudo brabeza falsa.. de noite mesmo, quando chegava da escola, pegava os lápis e lá vem Dom Pedro, Tiradentes, Nossa Senhora, raiz de planta, ameba e tanta coisa mais. 
De manhãzinha, antes de pegar no batente, passava na sala de jantar e deixava a capa do trabalho bem à vista, em cima do buffet de sucupira, enorme e bem entalhado.
E nessa cumplicidade eu, desenhista por acaso, e as manas queridas íamos levando a vida pra frente.  

(do livro de crônicas "Caçador de Lagartixas, Ed. Livro Rápido, 2008, Recife)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

30.002 ACESSOS


30.002 acessos. Foi o que eu encontrei estampado agora nas estatísticas, às 20:48 hs de hoje. Número de que muito me  orgulho. E volto a comemorar com vocês.  Sou assim, meio bobo, mesmo. Por que?  Sei lá... Mas dou o maior valor a essas pequenas coisas.  Tem Blogs na Rede que são 30.000 vezes acessados no curto espaço de dias e até de horas..  Porém, o nosso é um blog diferente.  Um ponto de bate-papo, um lugar para matar saudades.  E, mesmo assim, meio bobo, fico admirado e continuo orgulhoso porque desde os leitores do Brasil, a grande maioria, até gente que mora nos Estados Unidos, Portugal, França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Rússia, Espanha, Ucrânia, Coréia do Sul, Mongólia, Canadá, Japão, Peru, Argentina, Índia, Emirados Árabes e Marrocos, leram o que a gente escreve (sim, porque os comentários de vocês também contam, e muito!).  Mais uma vez, obrigado.  De coração... E continuemos juntos por mais 30.000 acessos !

domingo, 5 de fevereiro de 2012

SPIKE JONES, UM GÊNIO ESQUECIDO



Mistura de humorista e músico talentoso, Spike Jones esteve, durante muitos anos entre as grandes atrações do “showbiz”  americano, nas décadas de 40 a 60, juntamente com outros conhecidos músicos de jazz da época.

Baterista genial, juntou-se a esses amigos do cenário do “dixieland jazz”, formando o “City Slickers”, um grupo de músicos/comediantes que satirizava no palco músicas consagradas, de gêneros diversos, clássicos ou populares.

Seus programas de TV tinham audiência espetacular e as apresentações dessa banda, aparentemente maluca, eram admiradas em todo o mundo, algumas delas ficando no rol de antológicas interpretações.

Aqui no Brasil, os números de Spike Jones serviram de degrau para comediantes que depois se tornaram famosos, como o “Zé Bonitinho”, que os dublava em programas de humor de TV, a exemplo de “Cocktail for two”.´

Mais sobre este grande artista sempre venerado pelos fãs, neste link:

Vale a pena conhecer um pouco mais da obra deste grande músico e comediante, hoje esquecido, e dos seus companheiros do City Slickers, que alegraram tantas gerações com a sua engraçada genialidade.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

GAMÃO NA MADRUGADA



Eu e meu irmão Jaime gostávamos muito de jogar pif-paf, pôquer, dominó e gamão. Principalmente gamão. A gente passava tardes inteiras disputando uma partida atrás da outra.
Diziam que gamão é jogo de velho, mas a gente não tinha preconceito. 
E haja botar os dados dentro dos copinhos e ploc-ploc-ploc, o dia inteiro;  era o barulho dos copos de dados sendo batidos no tabuleiro de madeira, que a gente punha em cima dos joelhos, se estivesse sentado, ou no chão mesmo, que era o mais comum.

Esta dupla aprontou demais
Muitas vezes entrávamos pela noite, em intermináveis partidas, em que apostávamos "gibis" velhos, coleções de rótulos de cigarros, livros de histórias de detetive; o que estivesse à mão, enfim.

Numa noite de sábado, a gente sem ter mesmo o que fazer, começou uma partida, disputada ardorosamente, dado a dado, jogada a jogada.

A noite avançava, entrando na madrugada e nada da gente terminar. Ploc, ploc, ploc, cantavam os dados... E o relógio marcando duas, três horas da manhã.  E a gente nem pensando em entregar os pontos.

De repente, a voz forte de Paizinho avisa: -Parem com esse jogo imediatamente, ou eu desligo a luz da casa !

Obedecemos, por uns minutos, para dar tempo de Paizinho dormir novamente e, sorrateiramente, continuamos, jogando os dados com as mãos, em cima dos mosaicos do terraço.  Mas, no entusiasmo, os dados cantavam mais alto.

Paizinho, que não havia voltado a dormir, não disse mais nada. 

Desligou o interruptor geral de energia da casa e a gente ficou no escuro total.

Mas só por algum tempo; da rua, vinha um resto de luz do poste, em frente à casa.

Não tivemos dúvida: pé ante pé saímos, abrindo o grande portão de ferro, com muito cuidado, e ganhamos a rua.

Debaixo do poste, o jogo de gamão continuou até o sol raiar e nos mandar de volta pra cama.

Não dou certeza, mas nessa manhã acho que dormi e sonhei com um monte de copinhos de dados batendo nos meus ouvidos: -ploc, ploc, ploc, ploc...


(do livro "Caçador de Lagartixas" - Ed Livro Rápido, Recife, 2008)

sábado, 28 de janeiro de 2012

100 ANOS DE PAPANGU

Pernambuco com sua cultura multifacetada, surpreende até os nativos.

Bezerros, cidade pernambucana fincada no Agreste, com clima quente e seco, é palco no Carnaval para uma das festas mais concorridas do Estado.
Em 2005, essa festa completou seu centenário.
É a Folia do Papangu.  E eu estava lá, no meio das Orquestras de Frevo, dos batuques de Maracatu e Bumba-meu-boi, pela primeira vez.
Confesso que, folião da Capital e de Olinda, não esperava uma festa tão bonita.
Uma animação contagiante, com a população inteira da cidade participando, dezenas de milhares de turistas de todo o Brasil e sobretudo frevo, muito frevo.


Se a gente fechar os olhos,  se deixar levar de roldão pela “onda” e abri-los de repente, vai pensar que está em Olinda, em plena efervescência momesca.

O casario antigo ajuda, por certo.  Mas a profusão de cores, de sons e de gente é estimulante, mesmo.
Não foi dada muita repercussão, tanto em âmbito estadual, como nacional, a esse Centenário. E ele bem que merecia.   Salvo engano, algumas reportagens curtas em duas emissoras sediadas no Recife e Olinda, mas sempre em cadeia nacional, porque aqui não se gera mais quase nada da nossa programação e ficamos à mercê do que nos impõem lá de baixo.

Uma pena.  Porque, em matéria de diversidade cultural, o Leão do Norte (sem bairrismo porque sou alagoano de nascimento) manda nesta Terra Brasilis.  Veja o vídeo clicando no link abaixo e caia na folia dos papangus.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

FLORES, SORRISOS DE DEUS 7 - UMA FLOR ENTRE OS ESPINHOS

Dona Marlene, uma flor especial






Foz do Iguaçu, como tantos lugares conhecidos do Brasil abriga atrações que não estão propriamente incorporadas aos guias turísticos mais badalados.
Como um Jardim de Cactos, por exemplo.
Uma idéia fantástica de uma mulher fantástica.
Dona Marlene Parzewski dedica-se de corpo e alma (e que alma brilhante!) a cultivar essas plantas que a tantos afasta, pelos espinhos que possui, e a tantos atrai pela beleza incontestável das suas flores e frutos.
Mais de 1.500 espécies já passaram pelas suas mãos generosas.  E um dia realizou seu sonho de construir um Recanto só para suas amigas cactáceas.



Cactos de todo o mundo



Uma beleza selvagem
Conhecer Dona Marlene e suas bem cuidadas plantas é um raro prazer.
Compartilhar suas idéias nobres, ouvir suas histórias sobre cada cacto daqueles, sobre as dificuldades com que lutou para realizar seus sonhos, também.
A simpatia personalizada, um sorriso aflorando a cada segundo, a alegria de viver fazem dela "aquele tipo inesquecível", de que falava a revista "Seleções do Reader's Digest" ...






É assim Dona Marlene. Uma flor entre os espinhos.  Lugar comum, essa frase ?..  Mas não há outra que a defina tão bem, em meio às suas queridas plantas e flores.   Ela, também, uma flor !
Exotismo frágil

domingo, 22 de janeiro de 2012

MEMÓRIA MUSICAL

Um dia desses eu resolvi enfeixar num só disco toda a minha obra de compositor. 
Chamei-o de “Memória Musical”.  Fiz uma primeira versão em 2010 com umas 60 músicas, o que havia gravado até então. 
Distribui o CD pela familia e amigos e a pequena tiragem que havia feito, uns 100 discos, logo se esgotou. 
Agora, tendo completado 71 músicas gravadas (não inclui as cerca de 20 regravações) reimprimi o Cd e fiz nova tiragem de 150 discos, que também já estão acabando.  Por isso, resolvi que era mais fácil distribui-lo pela Internet e é isso o que estou fazendo agora. 
Esse link vai abrir uma pasta chamada “Memória Musical” que contém outras pastas nomeadas pelos diversos gêneros musicais que compus. 
O programa é muito amigável e basta que vocês mandem fazer o “download” para em poucos minutos terem em seu computador as 71 músicas separadas em  pastas (Forró, Frevo canção, Frevo de rua, Maracatu e Ciranda, Marcha de Bloco e Vários Ritmos).
Sete pastas, ao todo.  Qualquer semelhança com o nome do blog terá sido mera coincidência. 
Transcrevo aqui o texto da contracapa: 
“Neste CD de arquivos MP3 gravei para vocês toda a minha obra musical.
Não é lá grande coisa.  São 71 músicas de ritmos tão diversos quanto frevos e valsas, baiões e xotes, maracatus e cirandas, bolero e maxixe, marchinhas e berceuse, dobrados, chorinho e até uma serenata para Quarteto de Cordas, a primeira de uma série a que pretendo me dedicar a partir de agora.
Muitas dessas músicas vêm sendo divulgadas em discos e pelas emissoras de rádio-cultura, já que as rádios comerciais não se interessam muito por um trabalho autoral levado a sério e preferem ganhar dinheiro com grupos e cantores descomprometidos com a nossa rica fonte cultural e apenas interessados numa carreira rápida e lucrativa. 
A intenção maior desse disco é entregar a vocês o meu acervo e esperar que alguma dessas músicas consiga lhes cativar. Se isso for conseguido, já terei dado por cumprida a minha missão de compositor, devolvendo ao povo que me fez gostar da sua música, uma imagem –sem bem que pálida- da alegria de ser agraciado com esse dom tão sublime.
Muito obrigado a todos os que me incentivaram a continuar na trilha”

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O ÚLTIMO BONDE

Bonde da Tramways - foto de Allan Morrinson



Em 1956, ainda com 10 anos de idade, entrei num impasse.
Tinha terminado o curso primário na Escola Padre Donino, com as professoras Ceminha e Dalu e estava pronto para enfrentar o ginasial.
Mas, havia uma idade mínima para iniciá-lo: 11 anos.
Ocorre que eu só completaria 11 anos no final do ano, em 20 de dezembro... o que fazer, então ?
Tinha muita gente nessa situação e a solução era "encher lingüiça" durante um ano letivo inteiro com uma revisão geral de matérias do curso primário chamada "curso de admissão ao ginásio".
Fui matriculado no então Ginásio, hoje Colégio São Luiz, dos Maristas, na Avenida Rui Barbosa, Graças.
Quando não ia com Paizinho, no “jeep”, pegava o bonde de Apipucos/Dois Irmãos e rumava para o São Luiz.
Como todo garoto metido a gente, gostava mesmo era de ir em pé, no estribo, que vinha a ser -pra quem nunca andou de bonde- uma grande tábua de madeira bem grossa e forte, presa no suporte lateral da carroceria de aço.
Era uma viagem muito divertida, pois os muitos meninos que tomavam esse bonde gostavam de brincar de "gato e rato" com o trocador (o bilheteiro) e toda vez que ele se aproximava para cobrar a passagem, o bilhete, a gente se afastava, ora aproveitando uma parada, ora mudando de lugar, andando mesmo, equilibrado no estribo e segurando na balaustrada do veículo.
Não era tão perigoso quanto pode parecer, porque o bonde se deslocava muito lentamente.
O motorneiro, soprava um apito de metal, feito esses de guarda de trânsito, nos pontos de parada, para avisar que terminara a pausa de espera pelos passageiros retardatários e um novo trecho se iniciava.
Tenho pra mim que, na linha de Casa Forte, a roda que o motorneiro girava para aumentar a velocidade do veículo, nunca chegou aos 9 pontos, marca máxima de velocidade daqueles trenzinhos urbanos tão simpáticos e que deixaram tanta saudade.
Esses famosos “9 pontos”, creio eu, equivaleriam, hoje, a uns 20 ou 25 km por hora, média aliás, superior à de um automóvel super-moderno, mas também super-parado, nesses enormes engarrafamentos que atravancam uma cidade inteira.
A gente fazia isso por farra mesmo, porque todo mundo da turma andava com um bloquinho de bilhetes no bolso (custava Cr$ 0,50 -cinqüenta centavos de cruzeiro cada) que nosso pai comprava por antecipação na Pernambuco Tramways & Power Co., a companhia inglesa que vinha desde o início do século XX explorando esse serviço.
Não tenho bem certeza se em 1955 a Tramways já havia sido vendida a algum grupo nacional, mas o nome da empresa pintado nos bondes amarelos com faixas marrons era ainda esse.
Penso que o bonde de Apipucos/Dois Irmãos foi o último a rodar no Recife e eu ainda fui testemunha/usuário da transição entre esse veículo elétrico, ecológico, confortável, ventilado e seguro e os fumacentos ônibus da Autoviária e da São Jerônimo, cuja estrela era o famoso "papa-fila".

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

OBRIGADO, DONA TECNOLOGIA !

Internet é uma coisa boa demais, pra tudo nesse mundo. Ou melhor, pra quase tudo.  Tem muita besteira por aqui.  Mas, a gente sabendo o que fazer, pode dar bom uso.
Pra mim Internet significa entre outras coisas, ter  filho, nora e neto juntinhos  da gente, sempre que dá tempo.  Feito ontem à tarde.  Eles lá, em Duvall, neve caindo, frio lá fora de 3 graus negativos e a gente cá, num calor, lá fora, de 32 positivos.
35 graus centígrados nos separariam; quinze horas de vôo contínuo dentro de um jato, ou quase um dia inteiro, se contarmos o tempo gasto em aeroportos e imigração, também nos deixariam saudosos.
Mas, o milagre acontece na hora em que o telefone toca e a gente liga os computadores. Eles de lá, nós de cá.  E a vida em família renasce, nem que seja para uma família separada por um monitor de LCD e umas caixas de som.
É o prazer que nos permitimos, nós e Dona Tecnologia.
Papo vai, papo vem, Diogo resolve ir buscar seu violino.  Quer me mostrar a última música que aprendeu na Escola Suzuki, onde estuda o instrumento, em Redmond.
Eu e meu neto começamos praticamente na mesma época: ele, no violino, eu no violoncello.
Ele novinho, aquecendo os neurônios; eu, madurão não deixando os meus esfriarem e juntando mais um instrumento à minha coleção de instrumentos de cordas.
Ele toca, de lá, a cançoneta folclórica Song of the Wind (Canção do vento).  Nós, do lado de cá da tela, o aplaudimos: eu, minha mulher e a minha sogra, que estava de visita para ver neto e bisneto.
Corro até o quarto e apanho meu violoncello.  Toco para ele a mesma canção.  Diogo, bem atento,  violino embaixo do braço, ouve o avô tocar seu violinão, como ele chama. Me aplaude também. Com entusiasmo. Com a devoção dos netos.
Momentos de puro êxtase, estes.  Pra nós e pra eles.  Um pouco de saudade a menos, em seis anos de tanta distância. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

QUANDO CRESCER EU QUERO SER LIMEIRA

Cego cantador de feira

Eu sou fã declarado de Zé Limeira/Orlando Tejo e atualmente, depois de umas conversas com o Papa Berto, Primeiro e Único, da Santa Igreja Fubânica, tenho minhas dúvidas da existência física, real, do “Poeta do Absurdo”.

O que tenho achado (apesar do próprio Orlando Tejo, desde a primeira edição do seu livro jurar de pés juntos que o violeiro dava asas à sua louca poesia nos sertões da Paraíba), é que Zé Limeira deve ter tido origem, mesmo, na fertilíssima imaginação e na veia poética do Tejo.

Numa proporção, julgo eu, de 95% de criação para 5% de realidade, os mitos nordestinos surgem assim mesmo, como Limeira surgiu.  Assim como surgiram a “perna cabeluda”, a  “loura do portão do cemitério”, o “pavão misterioso” e a “besta fubana”, por exemplo.

Mas, esse surrealismo limeiriano é mesmo muito atraente para quem escreve poesia e, nesse meu “achismo”, eu vou é aproveitar a onda (que ainda não morreu e não morrerá jamais, pois a figura de Limeira é, hoje, antológica), e passar para vocês essas mal-traçadas rimas, que fazem parte do meu atual treinamento “cordelístico”.

Triste sina de retirante
RIMANDO À TOA

Nunca vi papagaio falar fino
Nem comer munguzá de milho grosso
Ou salada de couve com tremoço
Como fosse um quitute feminino
O rabicho da cobra bate o sino
Patuá fica bem lá na Bahia
Quando ele pensou que eu vinha, eu ia
Eu pegava água doce e dava um nó
Nas quebradas do velho quiprocó 
Arpejando os cabelos de Maria

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

SERENATAS EM CASA FORTE


Violão debaixo do braço, falta do que fazer nas noites de sexta-feira e sábado, vontade de impressionar as meninas, tudo isso somado às noites de lua cheia e ao romantismo bucólico de Casa Forte, terminaram por fazer de mim um seresteiro inveterado.
A gente se encontrava na Praça; não era nada muito premeditado, não. Chegava um, sentava num banco, no canteiro central, onde cresciam, soberanas, as vitórias-régias; afinava o violão e ficava por ali, dedilhando uns acordes, como quem não quer, querendo.
Daqui a pouco, outro aparecia e pouco depois já estávamos reunidos, uns quatro ou cinco, ensaiando canções novas e antigas; valsas e guarânias, baladas e ie-ie-iês de letras romanticamente adolescentes, como nós mesmos, nos idos daqueles anos 60.
As primeiras canções do Roberto... e também as antigas, de Nelson Gonçalves, de Orlando Dias, Francisco Alves. Um bolerão de Bienvenido, um tango de Gardel ou uma balada italiana, em versão cantada por Moacir Franco ?
Quem ditava o repertório eram as meninas do bairro. De acordo com os seus pedidos, construíamos a nossa cantoria de fim de semana.
Eu gostava mais das serestas nas noites de inverno, quando Casa Forte quase garoava.
Naquele tempo, fazia até mesmo um friozinho que exigia um agasalho, nada de muito quente, claro. Um blusão "James Dean", por cima da camisa, uma calça "Topeka", um topete bem penteado, devidamente firmado com brilhantina "Glostora" ou com a novidade do momento: o fixador de cabelos "Gumex", que não deixava cair a "trunfa" da rapaziada. Tudo isso conseguido com bastante trabalho pelo pente "Flamengo", comprido, de plástico inquebrável, sempre a postos no bolso de trás da calça.
Já tinha passado o tempo das alpargatas "Roda", de lona grossa e solado de corda, como também da calça "Far-West", substituída pela Topeka ou pela "Calhambeque", da grife "Jovem Guarda".

Mas, mesmo pra fazer serenata, e principalmente pra enfrentar o frio da madrugada, havia uma garrafinha de rum "Bacardi", carta-oro, sempre a postos, no outro bolso de trás da calça; era meio curva, já pra isso, e tinha o tamanho certo.
Um gole de rum, pra temperar a garganta, assustar o frio e afastar a timidez e pronto: começava a seresta, por volta das dez da noite, ali mesmo na praça. Depois, lá pras onze ou meia-noite, a gente ia fazendo uma caminhada lenta, entrando nas ruas onde moravam as meninas mais chegadas à nossa música e parando em frente à janela das suas casas, pra desaguar nossas melodias.
Tudo sempre corria às mil maravilhas e as meninas adoravam seus menestréis; mas, aí é que morava o perigo: de vez em quando, pra confirmar o que dizia Nelson Rodrigues (toda donzela tem um pai que é uma fera...) um pai afobado e ciumento estragava nossa festa.
Lembro bem do caso mais evidente dessas manifestações hostis de pais enciumados: um famoso promotor público do Recife, pai de três moças, primas de um dos seresteiros inveterados, interrompeu nosso cantar com um tiro de revólver, em plena madrugada.

O cenário: a gente caprichando nos "pinhos" e soltando a voz, cantando uma balada do repertório de Moacir Franco, "Doce Amargura" ; a garota pendurada na grade da janela do seu quarto, se deliciando com a canção; o apaixonado, que por mero acaso também se chamava Moacir, gesticulando de olhos semicerrados e mãos pro céu, porque era desafinado até pra dar bom-dia.

A ação: pelas sombras das paredes do terraço do casarão, o pai ciumento, de pijama listrado e trabuco na mão, avança como um tigre em plena caçada.

O desfecho: de repente, no seu vozeirão de acusador forense, grita pra gente... - Bando de malandros, desocupados, vou pegar vocês !... e atira pra cima, com o trabucão ...
Aquele revólver, no meio da noite e da nossa serenata, pareceu pra nós todos um dos "Canhões de Navarrone", tamanha foi a zoada do tiro: em dez segundos eu devo ter corrido uns cem metros, com o violão pendurado nas costas e o coração querendo sair pela boca.
Difícil foi juntar a turma toda depois dessa: tem gente correndo até hoje !

domingo, 8 de janeiro de 2012

UM ANO DE BLOG. QUEM DIRIA..

É isso mesmo. Quem diria.. eu que pensava que só seria lido pelos familiares e amigos muito próximos, fiz durante todo esse ano que o Blog completa hoje, uma porção generosa de novos amigos, que se tornaram leitores fiéis.
Não tenho como agradecer tanta paciência de vocês por prestarem atenção a estas coisas que publico por aqui. Textos, músicas, fotografias e vídeos; histórias rais ou fantasiosas, tudo isso venho dividindo com vocês quase como uma terapia. Pra mim, lógico. Na medida em que ponho pra fora minhas lembranças e experiências, ou algo que pareça com arte ou atividade de algum interesse geral, fico feliz.
Não é figura de retórica, não... É felicidade, mesmo !
Alegro-me como um menino se alegra ao receber um elogio na escola, ao finalmente entender porque dois mais dois são quatro, ao descobrir sabores, cores, sentimentos.
É disso que se faz a Vida. São essas descobertas e essas relembranças a razão de nossa existência.
Pois, meus caros amigos e amigas, sintam-se -cada um de vocês- abraçados com todo o meu entusiasmo e gratidão. E hoje, com muita alegria, vou cantar para vocês, que me trouxeram até aqui, 27.138 vezes "parabéns", porque vocês não são meus convidados. Vocês, na verdade, fazem, este Blog. Muito obrigado a todos pelo incentivo e pela compreensão. Perdoem os maus momentos (que devem ter sido muitos) e vamos em frente, tentando sempre melhorar. (Este bolo de aiversário, tomei emprestado a um dos meus inspiradores, meu neto Diogo. Desculpem o improviso.)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A NOITE DOS MARACATUS

No intuito de mostrar as diferenças rítmicas e coreográficas de duas das mais importantes manifestações culturais do rico folclore pernambucano, fiz esse pequeno vídeo, gravado em pleno Encontro de Maracatus no Carnaval de 2004, no bairro do Recife Antigo.
Não representa algo didático, longe de mim essa pretensão.  Apenas e tão somente uma forma de mostrar a turistas e amantes do nosso Carnaval, essas duas vertentes do Maracatu, às vezes tão confundido nas suas diferentes origens: o Maracatu-Nação, ou de baque virado, vindo da tradição africana, representando o cortejo alegre e vibrante das Coroações dos Reis do Congo e o Maracatu-Rural, ou de baque solto, contendo elementos formadores da raça brasileira: os africanos representados pelo casal real, damas do paço, princesas e calungas; os indígenas, pelos caboclos de pena e de lança; os europeus, pelas figuras do bumba-meu-boi, originado nas tradições lúdico/carnavalescas da Ilha da Madeira e relembrando o auto de Mateus e Catirina da partilha do boi.  Tudo isso ponteado e dramatizado pelos nossos trabalhadores da lavoura canavieira da Zona da Mata Norte, em especial, com cantos (loas) tirados de improviso pelos mestres das "sambadas" de maracatu e repetidos, dolentemente, por toda a "corte".
Espetáculo bonito de se ver e de se dançar, nas noites do período carnavalesco no Recife ou nos "encontros" em Nazaré da Mata, onde dezenas de agremiações anualmente se apresentam, o Maracatu Nação, urbano, concentrou-se em bairros populares do Recife e Olinda, com sede nos terreiros de Candomblé onde permanece a mística dos seus rituais e a tradição das suas Nações originais.  O Maracatu da Nação Elefante,  o da Nação do Leão Coroado, o da Estrela Brilhante, são exemplos disso e remontam a mais de dois séculos.   Grupos estilizados de origem recente, como A Nação Pernambuco e Cabra Alada vêm mantendo, principalmente entre o público jovem, danças e cânticos das antigas Nações Africanas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O DIA EM QUE ELE BEIJOU MARILYN MONROE

Marilyn, a musa

Dia desses li por aí um comentário descendo a ripa nos sujeitos autobiográficos.
Fiquei com medo de ser um desses.  Por que?  Porque eu talvez não tenha ainda conseguido sair de um mundo pequeno, esse meu mundo que eu conheço um pouco melhor do que o “lado de fora”.  Então raramente me arrisco a botar a cabeça na porta (ou levantar as persianas, abrir os postigos, diriam os mais antigos).
Tropic Cinema, na Eaton Str, em Key West-FL
E  fico circulando fatos e pensamentos mais ou menos meus, sem muitas pretensões de analisar a alma de outrem ou tentar explicar o que não entendo ou, ainda, fotografar o que eu não vi.  E torno a remoer lembranças do que realmente me envolveu, das coisas que vivo ou vivi e que me marcaram de forma mais ou menos intensa.
Pois hoje escolhi não falar de mim, mas de uma pessoa muito próxima e que se parece comigo em muitos aspectos. Meu alterego, um menino sonhador, que gosta muito de cinema e já sonhou um dia que beijava Marilyn Monroe.  Os homens preferem as morenas ? Bom.. sei não...eu, pelo menos casei com uma loura.  Mas, voltando a Marilyn, com aquela pintinha simpática no rosto, dançando, cantando e representando, tudo de modo convencional, claro, sem nunca ter sido uma diva, bem que ela povoou os sonhos daquele menino. E aí, numa bela tarde de verão, passeando por uma ilha distante, ele teve uma visão que lhe atraiu de imediato.  Nada menos que Marilyn Monroe do outro lado da rua, na calçada de um cinema, o Tropic, olhava e sorria para si.

A musa repete a pose para o fã
Puxou a namorada pelo braço, entregou-lhe a câmera e suplicou:  - Desculpe, amor, mas você vai me fazer esse obséquio.  Eu quero beijar Marilyn ! 
Ela sorriu, empunhou a câmera e fez não somente uma, mas várias fotos.
O garoto beijou Marilyn, enfim, mas com todo o respeito, na face, mesmo. 
Sonho de menino, enfim realizado 
Um beijinho de fã adolescente, coisa sem muita importância.  E o melhor :  ela não revidou seu atrevimento com aqueles tapinhas que sempre acompanhavam os beijos, mesmo inocentes, naqueles filmes em branco e preto, dos anos 50. 
Troféu conquistado, sonho realizado, desceu a rua e entrou na primeira Sorveteria, duas quadras adiante.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

MISSÃO CUMPRIDA.. QUE VENHA 2012 !

Caminhar é preciso... Lembrar dos caminhos é necessário, para  que voltemos às origens
Último dia do ano.. Tempo de reflexão e agradecimentos.

Comecei este Blog em janeiro deste ano, pensando nele como uma forma de conversar com meus familiares e amigos, contar minhas histórias, compartilhar experiências, fatos, fotos, vídeos, músicas, retalhos de vida...No fim de tudo, coisas que parecem pessoais, mas na essência pertencem a todos nós.

É bom saber que temos tanto em comum, senão não estaríamos aqui, nos olhando nesse espelho cristalino que é a Vida, refletida em todos nós pela luz do Tempo.

Uma memória qualquer, que parecida tão íntima, tão pessoal, pode e deve ser compartilhada, porque às vezes basta uma pequena faísca de algo vivido por outrem, para que se acendam em nós sensações e sentimentos de um trecho de vida que também foi nosso.

Comecei fazendo isso no "Caçador de Lagartixas", cujas crônicas tenho publicado aqui, por partes. Jaime, meu irmão que o prefaciou, já me cobrava uma continuação.  Talvez, por generoso que é, achando que eu realmente tinha dons de escriba. 

Dizia ele, naquele texto tão lindo que abre o meu livro:

"Fred, de forma despretenciosa, faz uma narrativa de vários episódios que ora desnudam a alma do menino de então e ora nos reporta aos valores que estão sendo esquecidos nos tempos atuais.... Espero que o mano, em outra ocasião, se sinta estimulado a dar continuidade a este desafio, relatando as suas peripécias, nos outros estágios de sua vida."  

E é exatamente isso o que eu estou fazendo, querido irmão, queridos irmãos, queridos leitores, que vêm aqui me prestigiar e dar atenção a este sonhador.  Nunca tive pretensões literárias. Aliás, textualmente, falei na contracapa do livrinho: 

Em Diogo, revivo meus sonhos de menino
"Na verdade, o que eu queria era apenas registrar umas lembranças de infância, umas saudades que teimavam em se apresentar, sem hora certa e sem motivo aparente, verrumando aqui e ali meus pensamentos, pedindo para vir à tona, sem mais aquela."

Se tenho conseguido esse objetivo, compete a vocês dizer.  Pelo que tenho visto e pela participação valorosa e gentil de vocês, estimulando, comentando, aplaudindo e me fazendo ficar emocionado a cada resposta que me dão, acho que venho sim, atingindo meu objetivo, que é o nosso objetivo, afinal: fazer vivas nossas lembranças, congelando o tempo naqueles minutos em que nos deparamos com nós mesmos, conduzidos por um texto de um blogueiro ao nosso baú comum de memórias.

Agradecer, finalmente, de coração a todos vocês que vieram comigo nesta caminhada por todo este 2011.  Agradecer pelo carinho e pela participação, é o que me resta fazer.   E abraçá-los.  Com todo carinho, também.  Como um irmão que acabou de chegar de longe.  Do longe dos tempos, do longe das memórias e também por que não, do longe das distâncias.  Mas, sempre voltando para contar como foi, maravilhado com as descobertas, entusiasmado porque vocês estão me ouvindo.  Muito obrigado a todos. Feliz 2012 !

A SOPA DE RIO DOCE

Não era uma sopa qualquer, de legumes ou canja de galinha. Nada disso.

Falo de outra "sopa".. um ônibus antigo que fazia a linha Recife - Rio Doce e cuja última viagem, no finalzinho da tarde, por volta das cinco horas, deu margem a esse apelido original.

Chegando no destino ao escurecer, na hora da ceia noturna, isto é, da sopa, era natural que o povo, na sua criatividade, assim a nomeasse.

Nesse pequeno ônibus a gente ia para a praia, nas férias de verão.

Sempre tinha algum tio que alugava casa para a temporada, ou mesmo para um mês (janeiro ou fevereiro) e a gente era convidado pra passar uma ou duas semanas por lá.

As casas de veraneio naquele tempo eram pouco mais do que cabanas de pescador e nisso estava a beleza delas: na sua simplicidade.

De madeira ou de taipa, com cobertura quase sempre de palha de coqueiro, às vezes de telhas sem forro, não tinham água encanada e a gente tinha que bombear água de poço, que ficava invariavelmente nos fundos ou no oitão da casa.

O quintal e a varanda?.. de areia da praia mesmo. Era muito gostoso botar, à noitinha, uma cadeira na frente da casa e ficar com os pés enterrados na areia olhando a lua nascer e ouvindo o marulho das pequenas ondas de uma maré baixa nos acalentando para mais uma noite de sono reparador.

De manhã, a gente ganhava o mundo e passava boa parte do dia dentro d'água, ora pescando, ora mergulhando nas piscinas formadas nos arrecifes para olhar os peixes coloridos e ariscos, como saberés, mariquitas e budiões, cuidando sempre de não pisar nos ouriços que enchiam trechos das "pedras", junto aos escorregadios "beiços de boi", corais lisos e traiçoeiros.

As "pedras", como chamávamos os arrecifes de coral, eram o nosso mundo e de tanto andar sobre elas, quase nunca nos acidentávamos.

Saíamos procurando um bom pesqueiro, ora num pequeno poço, ora numa piscina maior e quase nunca voltávamos pra casa de mãos vazias.. ao menos uns siris e mariscos carregávamos de volta nessas pescarias infantis.

De tarde a ocupação era outra: “pelada”, voleibol ou "pega". Perto das seis da tarde, ainda arranjávamos tempo pra ir comprar o pão do jantar e algum outro complemento, como uma bolacha d'água redonda chamada "bolacha praieira". A da Padaria de Rio Doce era excepcionalmente gostosa.

Depois de uma canja ou um peixe frito, um "bate-papo" na frente de casa onde muitas histórias de assombração faziam tremer os menores, até que o sono chegava e todo mundo se recolhia.

E assim se passavam nossas férias de verão, naquele tempo em que o relógio era mais preguiçoso, os dias eram mais claros, a lua mais prateada e a areia da praia mais fina e branca.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

RETALHOS DE AGRESTE




Nos anos 70, meu pai, menino nascido e criado no Engenho Barra do Dia, Palmares, Mata Sul de Pernambuco, aposentou-se e alugou uma fazendola em Sairé, para voltar a sentir o cheiro da terra, criar galinhas, alguns animais e curtir seu merecido descanso.  Por esse tempo eu tinha comprado uma camera Super 8 mm e entrado na onda do famoso "Ciclo do Super 8" do Recife (e do Brasil).  Então, nos fins de semana que passava em Sairé, Gravatá e Bezerros, passei a fazer alguns "takes" enfocando a vida do sertanejo/agrestino.  Assim nesta, como em outras oportunidades, cometi alguns "documentários" que apresentei em vários Festivais de Cinema Amador (Sergipe, Bahia, Petrolina, Recife). Em um deles, obtive duas indicações o que me valeu um pequeno troféu e um orgulho muito grande de ter dado o meu recado no telão.  Em outra oportunidade, participei como jurado no Festival do Recife, indicado por um dos órgãos participantes, a Sudene. Trago aqui em vídeo, essa cópia de um curta bem artesanal (o possível, para essa época de tecnologia rudimentar e preços de primeiro mundo, num país de terceiro).  Posteriormente, sonorizei o texto que me inspirou o roteiro desse "curta" com pretensões de documento.  Curtam.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

40 ANOS DE CASA GRANDE E SENZALA - RECIFE 1974

OS 40 ANOS DE CASA GRANDE E SENZALA

                Em 1974, O Instituto Joaquim Nabuco de Pequisas Sociais hoje FUNDAJ, na presença do seu fundador , Sociólogo Gilberto Freyre, comemorava os 40 anos da primeira edição de “Casa GrandeeSenzala”, o livro que marcou a vida daquele genial Escritor.

Entre inúmeros expoentes da cultura pernambucana ali representada, destacam-se os compositores Nelson Ferreira e Capiba, os Escritores Mauro Mota e Mário Souto Maior, os Sociólogos Renato Carneiro Campos e Valdemar Valente.

Convidado pela Direção daquele Órgão, produzi este documentário focalizando a solenidade e Exposição comemorativa ao evento.

O filme foi realizado com uma câmera Super-8mm e dele só resta esta cópia, uma vez que as enchentes de 1975, no Recife, destruíram a película original.


Assim, numa homenagem sempre atual ao Mestre Gilberto, evoco essas imagens que tive imenso gosto em fazer e que, embora mudas, porque a tecnologia do cinema-amador da época não nos brindava ainda com as facilidades das câmeras digitais de hoje, falam muito da cultura pernambucana, por seus grandes expoentes.

Tornando-as públicas, ponho à disposição de quem as quiser copiar, no endereço do Youtube.  Quem não souber como baixá-las mas quiser o vídeo para seu arquivo, pode me contactar pelo email fredcrux@gmail.com.

Coisas assim, penso eu, têm que ser publicadas para serem melhor aproveitadas e terem melhor uso, do que ficarem adormecidas no fundo de uma gaveta.

domingo, 25 de dezembro de 2011

SERRA GAÚCHA 2003 - UM FRIOZINHO GOSTOSO E UMA XING-LING PRIMITIVA

Quarto do Poeta Mário Quintana-Hotel Majestic
(Casa da Cultura Mário Quintana, Porto Alegre)
Em julho de 2003, mês frio de Inverno na Serra Gaúcha, chegamos em Gramado depois de uma parada em Porto Alegre.  Passamos ao todo uns 15 dias entre a Serra e a capital gaúcha.  O espaço seria pequeno para descrever essa maravilha de viagem. Por curiosidade, para quem gosta do tema e também de fotografia, lembro aqui, rapidamente, alguns momentos passados entre Canela, Gramado e Nova Petrópolis. Voltarei depois com mais fotos de Cambará do Sul, São Francisco de Paula, Bento Gonçalves, Caxias, Porto Alegre, Três Coroas, etc.




Pinheiro gigante, em Nova Petrópolis
Para o  post de hoje escolhi essas fotos por terem sido feitas com a primeira câmera digital que possui.  
Comprada em início de 2003, era uma quase buginganga:  pequena, carcaça de plástico azul, com uma ridícula memória de 1 Mb, em que mal caberia uma foto qualquer feita por um bom celular, hoje em dia.  Mas, pelo tamanho reduzido, em comparação com minha grotesca, enorme e pesada Zenith russa, que também poderia servir como arma de defesa num eventual assalto, ou quem sabe para partir um côco, ou bater uma estaca, até que esta maquininha quebrou o galho em alguns passeios.

A Serra Gaúcha é um lugar maravilhoso, natureza plena e pura, frio gostoso no Inverno, que nos proporcionou, inclusive, temperaturas negativas em alguns dias.  Não tivemos a sorte de ver neve, mas geava, quase toda noite lá para as bandas de Cambará do Sul e São Francisco. Fizemos passeios maravilhosos por diversas regiões da Serra.  Eu tinha alugado um carro em Gramado e o entreguei antes de voltar (como cheguei) num ônibus confortável, no percurso Porto Alegre/Gramado, somente para evitar dirigir nessa subida/descida de Serra muito movimentada e perigosa.  

Foto em Canela, caracterizados como imigrantes alemães
Divirtam-se, então com as “fotinhas” da minha mini-mini câmera digital (e agora, como era mesmo o nome dela ? )... Sei não, essas  “xing-ling” às vezes nem nome têm.. Mas foi com ela que experimentei a rapidez das fotos digitais e aderi à moda, quando voltei, comprando em setembro daquele ano, uma “Sony Cybershot P-72” que usei por algum tempo com excelentes resultados. 
Lago Bier - Gramado

Cascata do Caracol-Canela