sábado, 21 de abril de 2012

CORDEL E CRÍTICA

Repentistas (Google Imagens)
Na minha coluna “Mascate das Lembranças”, do Jornal da Besta Fubana (bestafubana.com), tenho escrito sempre uns versos de cordel em décimas, sextilhas ou setilhas, pois tem muita gente boa por lá nesse tipo de literatura. Além de exercitar meus neurônios, nessa divertida e tradicional modalidade literária, exerço também meu direito à crítica política, porque no Brasil de hoje em dia é praticamente uma obrigação nossa denunciar todos esses erros e escândalos e não deixar que se tornem rotina. A falta de vergonha e a impunidade estão a exigir uma tomada de posição e, nesse ponto, juntando humor, ironia e engajamento, o JBF tem contribuído, e muito, assim como as demais redes sociais, para essa tomada de posição. Leiam abaixo três estrofes que construí a partir do mote de Cícero Cavalcanti, goiano de Cuiabá:


“O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas”



Eu passei toda a vida trabalhando
Dei um duro danado e aqui estou
Feito um mero esqueleto de eleitor
Que cansou das batalhas, se esgotando
E o meu velho tí’tlo vou guardando
Pois cansei de votar nesses petralhas
Que fizeram da pátria umas borralhas
E levaram do povo o seu dinheiro
“O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas”


Se cheguei pouco tarde me desculpo
Eu estava ocupado em meu trabalho
Pois a vida só tem um cabeçalho
De valor tenho aquilo que eu esculpo
Nessa luta diária eu não me culpo
Pelo tanto suado e pelas falhas
se por tudo ganhei minhas migalhas
procurei ser um homem verdadeiro
"O que dói no meu peito o tempo inteiro
é o Brasil governado por canalhas"


Entra ano sai ano e a coisa fica
Cada vez complicada de se ver
É um tal de roubar e de esconder
O dinheiro do povo na barrica
A vergonha tá ficando nanica
Nesta terra que adora essa gentalha
que na lama da corrução se espalha
E ninguém dá por falta do dinheiro
"O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas"

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A VOZ DO FREVO - CLAUDIONOR GERMANO

Hoje, Claudionor Germano, a Voz do Frevo, completa 80 redondos anos. Nascido em 19 de Abril de 1932, tornou-se conhecido em todo o Brasil pelas antológicas gravações das músicas de Capiba e Nelson Ferreira.
Conheço Claudionor, primeiro como fã, desde que me entendo por gente e comecei a gostar de frevo.  Sua voz, interpretando sucessos de Capiba e Nelson Ferreira, em pot-pourris que entraram para a História da Música Pernambucana, varava noites e madrugadas pelos altofalantes das ruas do Recife, nos dias de Carnaval, animando os palanques de frevo das ruas Nova e Imperatriz e se destacando nos clubes sociais em que se apresentava com as maiores Orquestras da cidade.
O Mestre Claudionor Germano canta no F Studio
Depois, já inserido no mundo artístico dos anos 60, conheci Claudionor pessoalmente, quando por vezes coincidiam apresentações no Rádio e TV Jornal do Commércio.
Agora, algumas décadas depois, tive –por três vezes- a alegria e o orgulho de ser incluido no repertório do Mestre Claudionor: em três ocasiões distintas ele deixou registradas melodias e palavras dos meus frevos-canção “Sol na Moleira”, “Pimenta no Pé” e, no disco em que ele comemorou o Centenário do Frevo, “Coração Recifense”.
“Pimenta no Pé” e “Sol na Moleira” ganharam arranjos do Maestro Edson Rodrigues e acompanhamento da sua Orquestra. “Coração Recifense”, arranjo do Maestro Spok e acompanhamento da Orquestra Spok Frevo.
Nesta última, principalmente, Claudionor deixa passar uma emoção juvenil, quando exclama com todo o entusiasmo num trecho da letra:  “Batuca Nação Pernambuco e mostra a esse povo porque se resiste “
Claudionor é isso: a resistência do Frevo e da Raça, que ele propagou e assumiu durante quase 70 anos de carreira e 80 de idade.
Trago aqui para o Blog minha homenagem a esse grande Cantor, relembrando e apresentando para os que não as conhecem, duas dessas músicas. Ouçam, clicando nos players.


Coração Recifense



Pimenta no Pé

terça-feira, 17 de abril de 2012

A GUITARRA GIANINNI

Pesada demais... Toda em pau-ferro, devia ter uns 10 quilos ou mais, sei lá. Vermelha, meio para vinho, devido à pintura degradée, com a guarda frontal em fórmica branca, escala de mogno e dois captadores.
Foi um dos primeiros modelos da fábrica de violões Gianinni.  Só consegui comprá-la por obra e graça de um negócio que fiz com Paizinho: daqueles negócios de pai pra filho, mesmo.
Paizinho tinha me dado de presente a câmera Flex-a-Ret dele, fantástica.  Eu aproveitei bastante a câmera e durante mais de um ano fiz ótimas fotos com ela.
Flex-a-Ret, a câmera que virou guitarra
Mas acontece que eu queria uma guitarra e estava sem dinheiro. Então, como bom comerciante, propus a Paizinho uma pechincha: eu lhe dava a câmera de volta e ele comprava uma guitarra pra mim.
Dito e feito: Paizinho me arrumou o dinheiro e ainda fiquei com a câmera, na qualidade de fiel depositário.
Eu tinha visto a guitarra na vitrine da Casa Publicadora Batista, na Rua do Hospício, perto da firma da gente. Com o dinheiro na mão, corri até lá, como se não tivesse a certeza de que ia encontrá-la ainda à venda.
Voltei com aquele troféu para o escritório, mal acreditando que ela me pertencia, a partir daquele momento.
Essa guitarra foi minha companheira de música durante um bom tempo, até que um dia um médico observou um desvio na coluna e uma inclinação para baixo na clavícula esquerda.
Não deu outra: recomendou-me trocar a guitarra por outra mais leve.
Foi com a Gianinni que eu entrei para valer no mundo da música. Era o tempo dos conjuntos de ie-ie-ie e o pessoal começava a formar grupos para embalar festinhas caseiras, assustados, como se chamava, pelos bairros do Recife.
Enquanto não aparecia alguém procurando um guitarrista, recebi um convite pra tocar num grupo dos Jesuítas, do Colégio Nóbrega.
Aceitei de imediato.. o objetivo do Diretor do conjunto, o Padre Barbosa, era levar música e alegria para asilos e hospitais.
A apresentação que mais me marcou foi num hospital psiquiátrico em Monjope, município de Abreu e Lima.

A Gianinni com Otamar, eu com uma pá e a prima com meu violão
Foto: cortesia do Dr Otamar Carvalho
Chegando lá, liguei na tomada o meu amplificador, que nada mais era que um rádio antigo, de válvulas, que Paizinho me deu e o técnico em eletrônica da SORMA adaptou para servir de amplificador (nesse tempo a gente representava também uma fábrica de intercomunicadores, e tinha uma seção de manutenção desses aparelhos ("Telespeaker “ ).
Botei logo um apelido na minha "máquina": Bode Rouco. Por que ? Ora, vocês precisavam ouvir o som dos graves desse "possante"... não tinha que ver um bode velho gritando.
Mas bem que quebrou o galho; era só não abusar do volume, que o Bode Rouco ficava manso e afinado.
Pois bem... Conjunto pronto, atacamos o repertório, com muitos baiões e sambas e as "pacientes" dançaram pra valer. No término de cada música, aplaudiam bastante e gritavam pedindo mais.
Até que, no final da tarde, quando paramos a função, aproximou-se uma delas, morena, um pouco velha e desdentada, cabelos bem desalhinhados, com um bolo na mão, falando: - Fiz para vocês comerem ...
A gente agradeceu e fez que comia o tal bolo, com muito cuidado, para não provocar a ira da maluquinha. É que o bolo era de terra, e sua vela uma folha de mangueira.

(do livro de crônicas "Caçador de Lagartixas")

domingo, 8 de abril de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 4 - IRAH CALDEIRA


Nesses 18 anos de F Studio fiz de tudo um pouco.  Inclusive vídeos.  Criação, montagem e edição de vídeo sempre foram uma paixão de um sujeito metido a memorialista, feito eu.  Registrando viagens pelo Brasil e um pouco pelo Exterior, consigo congelar momentos agradáveis da vida particular e profissional.  Como este aqui.  Um certo dia, minha amiga Irah Caldeira procurou-me no Estúdio, lá pelos idos de 2006, quando ela lançava seu CD "Entre o Calango e o Baião".  Fiquei desde logo lisonjeado pelo subtítulo, porque foi extraído de uma música que escrevi especialmente para ela, "Aperta o Nó" (entre o calango e o baião).  O texto que pontua a edição deste vídeo-promocional foi escrito por um poeta palmarense, que à época eu, -por culpa da falta de tempo para acompanhar o movimento literário de Pernambuco e do Brasil- agarrado ao trabalho 10 horas por dia, ainda não conhecia.  Tempos depois, ou seja, em setembro de 2011, vim (pela mão de Leonardo Dantas- conhecer essa grande figura humana, escritor premiado, de méritos incontestáveis, autor de vários livros importantes para a nossa literatura:  Luiz Berto escreveu um texto para a capa do CD de Irah que diz tudo dessa mineirinha/pernambucana que desde então marcou em definitivo seu lugar na nossa Música.  Irah é uma estrela de grande magnitude e brilho e muito me honrou a oportunidade de escrever,em melodia e poesia, a sua trajetória das Gerais ao Sertão pernambucano.  Irah participou comigo da edição e montagem desse pequeno vídeo, e nele estão o texto de Luiz Berto interpretado por meu sobrinho, o excelente locutor Pedro Augusto Monteiro, pontuando uma trilha sonora rica de regionalidade.


Falar de Irah Caldeira e sua bondade, sua simpatia e carisma é muito fácil.   Sua carreira, feita com garra e tenacidade, é o coroamento de uma vida de luta, estudo e dedicação à sua arte.  Seu canto é puro como as cachoeiras de Minas Gerais e cativante como as serras, as cidades, as tradições, o povo, e tudo quanto diz respeito àquele Estado tão querido por todos os brasileiros.  Irah é a síntese da mineirice que o Brasil aplaude. Deixemos que Irah cante a sua saga, trinando como um rouxinol a sua música, transformando em dança e rítmo toda a sua alegria e continue nos apaixonando com o seu jeito puro de ser e de viver.  Obrigado Irah, por um dia ter entrado pela porteira do F Studio, você que é, hoje e sempre, um patrimônio da terra pernambucana.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 3 - HELENO RAMALHO

Conforme havia prometido aqui no blog, começo hoje um série de postagens sobre meus amigos músicos e compositores que gravaram comigo no F Studio.
E começo com uma pessoa especial, muito querida por todos os pernambucanos que gostam de boa música, em especial do frevo-de-bloco e do forró pé-de-serra.
Heleno Ramalho, poeta, jornalista e compositor, nasceu em Tabira e transferiu-se para o Recife há décadas, para realizar sua vida profissional e ao mesmo tempo dar maior amplitude aos seus horizontes artísticos.
Heleno, todo de branco e chapéu panamá,
com a nossa turma do Bloco Vitória-Régia
Poeta sensível, ligado às raízes, até hoje discorre saudoso sobre o Sítio em que nasceu, cresceu e viveu, na sua Tabira querida.  Cada conversa com Heleno, sustentada com muito humor e verve, é uma lição de amor à terra natal, que ele nos dá com seu sotaque pesado de sertanejo consciente dos seus valores mais puros.
A obra de Heleno Ramalho, hoje conhecida por todos os foliões, ultrapassa fronteiras e sua música “Flabelo de Ilusões” é cantada com fervor, como se fosse um dos hinos do carnaval lírico do nosso Estado.
É bonito ver a multidão de nativos e turistas, pelo Recife Antigo, a entoar quase religiosamente cada palavra da bela poesia de Heleno.
Para quem priva da sua amizade, ouvir os “causos” que Heleno conta com muito humor, com seu sotaque arrastado, é momento de raro prazer.  Mas hoje, eu conto um “causo” em que ele é personagem, sucedido num dos muitos dias de gravação do seu disco “Flabelo”.
Estávamos no Estúdio, assistidos atentamente por Heleno, gravando os vocais do frevo “Louvores”, uma pequena obra prima, que teve as bases executadas pela Orquestra Levino Ferreira, regida pelo Maestro Lúcio Sócrates, com o apoio de vários instrumentistas da Orquestra Sinfônica do Recife, com fagote, oboé, violinos, violoncello, numa mistura linda do clássico com o popular. 
Num dado momento, Heleno pede para parar a gravação e diz, de sopetão:  - Não estou gostando nada dessa frase.. Minha avó já morreu faz muito tempo.. E ela não vai se levantar de jeito nenhum !!
Todos estranhamos a interferência e perguntamos a Heleno o que estava havendo.  Ele explicou:  - As “meninas” (as vocalistas do Coral)  estão dizendo “.. e quando canta se levanta minha vó”.. Minha vó já morreu faz tempo ! Vamos gravar de novo !
E repetimos a frase muitas e muitas vezes mas Heleno não se conformava. Até mesmo Suely, sua esposa também presente, assegurava:  - Mas, Heleno.. eu estou ouvindo tudo certinho ! As meninas estão dizendo “E quando canta se levanta minha VOZ!”
No F Studio, Fred, Lúcio Sócrates e Heleno

Foi difícil convencer o Mestre, mas depois ouvir  algumas vezes mais o trecho ele finalmente se convenceu de que o ouvido o traía e sorriu em paz.
O trecho todo diz assim:  “Vem, Carnaval, abre tuas asas sobre nós.. Saudade canta, e quando canta se levanta a minha voz !”
Confiram a beleza dessa música e sua poesia, no player abaixo.  E a seguir, ouçam também uma comovente toada em que Heleno, acompanhado de Canhoto da Paraíba e pelo sanfoneiro Caxiado canta o seu amor por Tabira e pelo Sertão, numa magistral melodia que fotografa o momento marcante da volta do matuto ao seu sítio.  A música chama-se “Canção Rural” e faz parte de um LP do mesmo título.





domingo, 1 de abril de 2012

GENERAL LIMA VERDE, UM AMIGO CORREDOR.

Gen. Lima Verde
O Brasil de hoje nos guarda umas surpresas que gostaríamos de não ter.
Com tanta corrupção estampada nas notícias de jornais e noticiários de rádio e tv, afora, principalmente o que vemos todos os dias, on-line, pela Internet, chegamos a nos decepcionar com a qualidade dos homens públicos que temos aqui na nossa Pátria Mãe Gentil.
Algumas reservas morais, no entanto, permanecem intactas.
Entre estas há homens e mulheres de todas as latitudes e longitudes, de todas as profissões, de todas as cores políticas e religiosas imagináveis.
Tenho bons amigos em todas elas e os distingo com o meu respeito.
Pena que em praticamente todos os casos, estas pessoas de tão dedicadas aos seus misteres profissionais e afazeres familiares, não queiram e não possam ter uma vida pública dedicada a fazer a direção política dos destinos da Nação.  E assim, vamos ficando entregues ao destino de ser dirigidos por maus governantes e  maus brasileiros.

Fiz essa introdução para dizer da minha admiração por um amigo, que conheci como corredor de rua.  Um corredor anônimo que passou a frequentar nosso Clube dos Corredores do Recife-CORRE, fundado em 1983 por um grupo de amigos que necessitavam do esporte para sair do estresse da vida moderna.
Depois de alguns dias de convivência, vim a saber que o mesmo era Oficial do Exército, dedicadíssimo ao esporte e aos estudos militares.  Na época, ocupava o posto de Tenente-Coronel.  Seu nome: Júlio Lima Verde Campos de Oliveira.
Eu tinha inventado um jornalzinho para animar as programações esportivas do Clube e o amigo Lima Verde (assim o chamo, normalmente) passou desde o início a colaborar com o jornal, arranjando inclusive patrocínio de uma centena de cópias xerox do mesmo, todo mês.  A amizade permanece forte até hoje, mesmo que o Lima Verde, nacionalmente conhecido por muitas missões militares de relevante importância, tenha galgado, na sua vitoriosa carreira militar, o posto de General de Divisão do Exército Brasileiro.
Muito me orgulha essa amizade de quase 30 anos.  Tanto que lhe dediquei um "dobrado" que denominei “General Lima Verde” o qual hoje trago à apreciação dos amigos leitores do Blog.
Na sua discrição de homem de bem, inteiramente dedicado à família e à profissão que abraçou, o amigo Júlio Lima Verde continua militante e praticante da Corrida de Rua, misturado anônima e alegremente à massa de corredores da sua querida Fortaleza, animando o movimento pela Saúde, ao mesmo tempo em que preside o CORCE-Corredores de Rua do Ceará, mantendo sempre atualizado o Blog do Clube e distribuindo a sua amizade e solidariedade aos que lhe cercam. Ouçam aqui a minha homenagem ao distinto General.

http://www.4shared.com/mp3/fr4zQXlO/general_lima_verde.html

quarta-feira, 28 de março de 2012

MORTE EM ITAMARACÁ

Certo dia, naqueles idos de 1951, sábado pela manhã, chega lá em casa um tio meu, irmão de Paizinho, que exercia cargo de Direção na Penitenciária de Itamaracá. 
Tio José, ou Zé Monteiro, como o chamávamos precisava do Land Rover, para atender uma urgência de família. 
Naquela ocasião, ele estava no Recife e a família dele, de férias, na Ilha de Itamaracá. 
Paizinho, de imediato, emprestou o jeep e eu, sempre afoito, pedi a Tio Zé Monteiro que me levasse consigo, curioso para conhecer a Ilha. 
Ele, claro, concordou.. e saímos rumo a Itamaracá. 

(foto Google)
Quando atravessamos a longa ponte sobre o canal de São Gonçalo, que divide a Ilha do continente, na cidade de Itapissuma, pegamos uma estradinha de areia margeada por coqueiros e plantações. 
A maioria era de hortas cultivadas pelos presidiários, já que aquela era uma Penitenciária Agrícola. 
A estrada era cheia de curvas, porque não tinha traçado prévio ou, se tinha, não o obedecia, ficando tudo por conta dos buracos e bancos de areia.

 Às vezes se estreitava tanto, que dava a impressão de que o jeep não conseguiria avançar sem roçar nos troncos dos coqueiros. 
Como raramente passava um carro por ali, o Land Rover seguia imponente e dócil à experiente direção do meu tio. E eu, curtia a paisagem e ouvia o cantar do vento nas folhas dos coqueiros.

Numa destas inúmeras curvas, mais adiante, a infausta surpresa: a estradinha estava tomada por uma pequena multidão de pessoas de todas as idades. 
Sitiantes e transeuntes se aglomeravam num círculo em torno de algo ou alguém estendido no chão de areia. 
Meu tio, como a pressentir a desgraça, pediu para que eu me abaixasse.
 Desobedeci e continuei alerta, olhando para a aglomeração e tentando desvendar o mistério.
 Bem próximo já do aglomerado, tio Zé Monteiro colocou a mão na minha cabeça e forçou-me a abaixar, rente ao banco do jeep, para tirar-me a possibilidade de enxergar aquilo tudo. 
Em vão... eu me desvencilhei da sua mão e encarei de frente a cena. A essa altura, parte do grupo oferecia passagem ao veículo, o que tio José agradeceu passando ao largo e desviando o olhar. 
Vila Velha de Itamaracá (foto Google)
A cena era, realmente, dantesca... uma pobre mulher havia sido atropelada, não fazia muito tempo. 

Um caminhão velho jazia abandonado poucos metros adiante, no meio dos coqueiros, em conseqüência do esforço final do seu condutor para livrar a vítima do atropelamento. 
O sangue empapava a areia branca.. 
Anos mais tarde, toda essa tragédia me vinha à mente sempre que eu ouvia, na radiola de casa, um disco de Vicente Celestino com uma canção que eu achava linda, embora trágica: Sangue e Areia.. ("Manolo quando entrou na arena, na tarde serena...") 
Foi o meu segundo contato com a morte, num curto espaço de tempo e me marcou muito. 
Mas, a partir daí e até hoje, procuro evitar essa coisa tão disseminada entre o nosso povo: olhar com uma ânsia incontrolada para a morte... de frente, como a desafiá-la. 
É que eu a considero uma espécie de mensageira soberana da Última Verdade. 
Jamais duvidei do seu poder e por isso a respeito, respeitando a Vida... a minha e a alheia.

(do livro de crônicas "Caçador de Lagartixas, Recife, 2008, Ed. Livro Rápido)

quinta-feira, 22 de março de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 2 - ORIANO DE ALMEIDA, PIANISTA

Não é todo dia que a gente tem a oportunidade de conhecer ou até conviver com um Gênio.
Eu tenho muita sorte na vida. Conheci e tive a oportunidade, em alguns casos, de conviver com alguns.
Um deles, o maior intérprete brasileiro da obra de Chopin: Oriano de Almeida.

Paraense de nascimento (1921) tornou-se natalense em virtude da mudança dos seus pais para Natal ainda bebê. Iniciou seus estudos musicais com seu tio, o Maestro Waldemar de Almeida, tendo estudado com a grande pianista Magdalena Tagliaferro.

Oriano tornou-se mundialmente conhecido por conhecer e executar com perfeição a obra de Frederic Chopin, a tal ponto de atingir o estrelato respondendo no famoso programa de TV “O Céu é o Limite”, sobre a obra do compositor, ganhando notoriedade internacional em inúmeros concertos por vários países do mundo.

Após um trágico atropelamento, nos anos 80, perdeu os movimentos do braço direito, interrompendo assim sua brilhante trajetória de virtuose do piano.

Oriano de Almeida
(cortesia do Blog do Braga)
Conheci Oriano de Almeida e com ele convivi por quase dois meses, quando, apresentado ao Mestre pela também virtuose Elyanna Caldas, então diretora do Conservatório Pernambucano de Música, fui convidado a remasterizar para o áudio digital a sua obra gravada.  Isso porque fazia  poucos meses que eu havia remasterizado uma fita gravada por Elyanna em homenagem ao centenário de nascimento do compositor paulista Aurélio Gregori.  Sobre Elyanna Caldas voltarei um dia em outro post. 

Ao todo, compilei em 4 CDs dezenas de peças que Oriano guardava gravadas em fitas cassetes bastante antigas.  As gravações originais em fita magnética foram feitas no Estúdio da Rádio MEC.   Exigente, o Mestre sempre discutia e observava o trabalho de filtragem de ruídos e chiados das fitas o timbre do instrumento, etc.  Os originais, já bastante usados, apresentavam aquele chiado de fundo característico e me consumiram dezenas de horas de trabalho no estúdio, até chegar ao resultado final que ele considerou o ideal.

Capa de um dos cds.

Oriano, então já com a saúde debilitada, em virtude de problemas cardíacos, estava hospedado num Hotel  em Casa Forte, próximo ao meu estúdio, e assim nos vimos e por muitas vezes conversamos sobre o andamento do trabalho.

Em 2004, fiquei bastante triste com a notícia da sua morte, por câncer.   Um fim melancólico da carreira artística de um dos maiores músicos brasileiros de todas as épocas. Reproduzo aqui Aquele Realejo de Pigalle, de sua autoria.

sábado, 17 de março de 2012

MEMÓRIAS DO FSTUDIO

Semana passada publiquei no meu Facebook um aviso de despedida da minha atividade de produtor musical e músico profissional. Amigos e amigas da Música ou dela simpatizantes acorreram virtualmente para comentar a nota, o que me deixou muito sensibilizado.

Na ocasião, prometi que postaria algumas matérias sobre meus 18 anos de atividade nessa área da Música e vou começar hoje a faze-lo.

Sempre que puder, trarei aqui para o Blog, memórias dos bons momentos de um trabalho prazeroso demais. Como qualquer trabalho, um estúdio de gravação também tem seus momentos difíceis, de rotina, de repetição, literalmente de muito suor para se conseguir o melhor resultado.

Começo, portanto, trazendo uma curiosidade, que hoje é comum em vários lugares, incluindo painéis de programas de TV, livrarias, lojas de disco, etc. Mas eu conto como a idéia nasceu, em primeiro lugar.


Em 1997, numa apresentação aberta ao público nos jardins do Parque da Jaqueira, a Orquestra Sinfônica de Berlim, trazida pelo Programa Cultural Concertos de Vinólia, nos ofereceu um espetáculo fantástico, único para quase 100% das pessoas que acorreram em massa ao Parque.  Sentado no gramado com minha família, apreciamos todos, nota por nota de cada peça apresentada e passamos muito tempo rememorando aquele evento maravilhoso.

Havia, pela cidade, vários cartazes anunciando o espetáculo, ocorrido no dia 24 de março de 1997.  E um ou dois dias depois, já pensando como subiria num poste da Praça de Casa Forte, enquanto por ali corria, e onde havia um desses cartazes pendurados, bem no alto, deparei-me com funcionários da Prefeitura que os recolhiam. Parei minha corrida e pedi aos funcionários que me cedessem um deles.  Eles até estranharam, já que havia muitos no carro em que estavam.  Prontamente atenderam meu pedido e eu, cartaz enrolado debaixo do braço, parei com o exercício e voltei para casa como um menino que ganhou um sorvete de presente.

É que eu já havia planejado montá-lo numa moldura e afixá-lo no meu iniciante estúdio. Fazia poucos meses que eu alugara uma sala comercial, para estabelecer uma atividade de cunho mais profissional, vez que durante um ano e meio realizava meus projetos e gravações num dos quartos do apartamento.

Dito e feito, outra ideia me ocorreu: quando os artistas da terra viessem gravar comigo, eu pediria seus autógrafos naquele cartaz.  E assim, a partir dali, dezenas e dezenas de amigos passaram a assinar meu enorme poster. De tão cheio, já numa outra sala, no centro da cidade, que comprei para dar mais facilidade de acesso à clientela, os autógrafos passaram a ser dados na própria parede do estúdio.  Uma parede inteira foi escrita com mensagens e assinaturas dos amigos e amigas.

Como não podia carregá-la, filmei e fotografei tudo, para não perder a energia de tanto carinho dispensado. Assim, mostrarei aos poucos, e por partes, esse cartaz e minha parede autografada, a partir de maio de 1997, até quando mudei-me para uma terceira sala, em 2002. Aguardem, vocês que assinaram e escreveram coisas que ficaram no meu coração e na minha memória.  Foram o que de melhor aconteceu nesses 18 anos de luta musical...Aos poucos vamos revê-las! 

sexta-feira, 16 de março de 2012

CARANGUEJOS POLARES E GOSTOSOS

Os patolões na seção de frutos do mar do Pike Place Market, em Seattle
Este mundo é pequeno demais..  e de vez em quando a gente se surpreende com certas coisas.
Por exemplo: quebrar caranguejos, deve ser uma atividade das antigas, da idade das cavernas, do tempo do ronca.

Só assim se explica você chegar num restaurante especializado em frutos do mar, lá no outro lado do mundo, perto da fronteira do Canadá, mais precisamente em Bellevue, região de Seattle e de repente pensar que entrou em alguma barraca na Praia do Futuro, em Fortaleza, ou em Porto de Galinhas, Pernambuco, ou na Lagoa do Mundaú, Alagoas, por aí.

Fui experimentar o “caranguejão” do Alaska, aquele que se transformou  até em seriado de TV (Pesca Mortal). O chamado “King Crab”,”jumbo crab” ou algo que o valha. O Restaurante foi  “The Crab Pot” e o serviço de lá justifica minha surpresa.

Fachada do The Crab Pot, Bellevue, WA

Detalhe do avental de comedor de caranguejo
A gente se acomoda na mesa e pede o prato mais solicitado: um mix de 3 ou quatro tipos de caranguejos do Alaska, incluindo as patas do gandalhão (enormes, coisa de quase meio metro de pata e patola do “garoto”). 

Até aí, tudo bem.. O garçon traz, então um avental de papel plastificado e ... um batedor com sua respectiva tábua, para quebrar os caranguejos.  Pra auxiliar quem não tem a prática dos papa-guaiamum do Nordeste brasileiro, vem também um “quebra-nozes”, que pra nós foi de uma inutilidade total.

Pra imitar nossa bagunça, e até ultrapassá-la, os bichos vêm dentro de uma bacia de aço inox de bom tamanho, cheia até em cima.  Só que a dita bacia vai servir para acondicionar os restos das patas já devidamente quebradas e prazerosamente degustadas.  Porque em cima da forração da mesa que é feita com uma longa toalha de papel, o garçon derrama, ao longo dela, toda aquela caranguejada cheirosa e pra lá de gostosa.

Família reunida 

Diogo e seu martelão de caranguejo
Aí é só partir pro abraço e lembrar-se de agradecer à turma da pescaria, que vai lá pros gelados mares polares buscar essa delícia, fechar os olhos e na medida do possível pensar que está numa praia pernambucana ou alagoana, debaixo de uma barraca forrada de palha de coqueiro, ou mesmo na beira de um manguezal à margem de um rio, no tempo dos Flinstones, com um olho no caranguejo e o outro no tigre de bengala que pode chegar a qualquer momento pra te jantar !

terça-feira, 13 de março de 2012

LAND ROVER 1951

Foto: Google Images

Meu primeiro sonho de consumo que continua a ser o mesmo até hoje: um jipe Land Rover modelo Defender, verde-oliva e creme.
Carroceria de alumínio, toda rebitada, tração nas quatro rodas e a disposição de um camelo no deserto...
Por força da profissão de vendedor-viajante, meu pai possuiu bons automóveis cuja compra era financiada pelo Laboratório Raul Leite, onde trabalhou durante muitos anos.
Em 1951, morávamos em Olinda, à beira-mar, numa casa alugada, que pouco tempo depois começou a ser coberta pelas águas verdes do mar, numa nada poética ressaca de agosto.

A beira-mar de Olinda, naquele tempo, era de uma beleza inesquecível.
Arrecifes que se fundiam com a areia branca e solta, por onde nadavam, nas marés baixas, peixes de todos os tamanhos, loucos para serem fisgados pela legião de pescadores de fim de tarde.
Em certas épocas, golfinhos, que -pernambucanamente- chamávamos ainda de bôtos, mostravam suas barbatanas dorsais e respiradouros, nadando aos pares para lá da linha dos arrecifes, alegrando nossos entardeceres olindenses.
Corria a lenda de que esses animais salvaram muitas e muitas vidas, trazendo às praias do Carmo e dos Milagres os quase-afogados banhistas que se atreviam a nadar para mais distante da costa. Eram para mim heróis-animais encantados e encantadores.

Foto: Google Images
Um dia, Paizinho chegou mais cedo para o almoço, anunciando que à tarde iria ao Cais do Porto do Recife, buscar o seu carro, que acabava de chegar de navio, vindo de Liverpool, Inglaterra.
Fiquei ansioso pela novidade e logo pedi pra que ele me levasse junto... e assim aconteceu.
Quando chegamos de volta, eu estava pra lá de orgulhoso, sentado no banco de couro verde do jipe.
A única coisa que não me agradou foi o fato de o carro ter vindo com uma meia-capota de aço creme e o restante em lona verde escura.
Por engano o carro foi assim despachado na fábrica inglesa, mas isso foi depois resolvido, pelo revendedor Renê de Pontes, com a colocação de uma capota de aço inteiriça.
Foto: Google Images
Daquele dia em diante, durante alguns anos em que o jipe ficou conosco, ele foi o modelo predileto nos meus desenhos de criança.
Sou capaz de desenhá-lo ainda hoje, se tanto me for pedido... decorei mentalmente cada detalhe dos seus traços austeros, um carro de trabalho, sem muito luxo e rebuscamento de linhas, mas de uma funcionalidade que até hoje é reconhecida por todos que gostam de carros e de viagens.

sábado, 10 de março de 2012

COITADOS DOS JUMENTOS

Notícia recente dá conta de um fato um pouco mais antigo. Nos dois casos, coitado do jumento "nosso irmão", como diria a letra da música popularizada por Luiz Gonzaga, este ano centenário. É que os orientais, agora os chineses, estão tratando de importar, do Brasil 300 mil jumentos por ano, para alimentação e fabricação de sabão.  Um animal cuja existência no Nordeste sempre esteve ligada ao trabalho e ao homem do campo, servindo-lhe de transporte, de tração para os arados e carroças vai ser, dentro de pouco tempo, a julgar pela voracidade dos números chineses, extinto de vez.  Ameaças de extinção, em outras épocas, de "charqueadas" com carne de jumento e cavalo, aqui mesmo pelo Nordeste, já houve. Então, abatido pela notícia e com uma comiseração justa pelo pobre animal, escrevi essas estrofes em décimas, para louvá-lo, como tantos já fizeram.


Uma coisa me faz contrariado
Nessa terra que não dá mais valor
Aos valores que merecem penhor
Animais deste chão nordestinado
Numa seca que deixa o chão crestado
Com barrocas de terra quente e dura
O castigo maior da mãe Natura
Não consegue parar essa alimária
O trator de um sertanejo pária
Salvação dessa pobre agricultura

Veja que um jumento na cangalha
Come pouco, não se faz de rogado
Dá as horas zurrando seu recado
Passa o dia suando e só trabalha
Ara a terra, e também carrega a tralha
Do seu dono pra onde ele quiser
Inda puxa a carroça da mulher
Pras crianças serve de montaria
Sem jamais reclamar dessa agonia
Labutando sem férias seu mister

Mas agora me chega uma notícia
Que atormenta a cabeça de um cristão
Lá pras bandas da China ou do Japão
Mais parece um caso de polícia
Ou de gente que age com malícia
Querem exportar nossos animais
Os jumentos que são tradicionais
Nesta lida diária do sertão
Vão virar bife, couro e até sabão
Só para enriquecer orientais

*****

domingo, 4 de março de 2012

BONITO, O PARAÍSO ENCONTRADO

O tempo voa.  Frase manjada demais, mas verdadeira como nunca. De setembro de 2010 para cá,  fiz outras inúmeras viagens.  Mas na hora de recordar nossos passeios mais queridos, vamos no congelador de imagens que é a fotografia e os temos de volta quantas vezes quisermos.  E certos lugares, digo melhor, praticamente todos os lugares em que já estive, são mesmo inesquecíveis.  Feito Bonito, Mato Grosso do Sul.  Cachoeiras, rios cristalinos, grutas belíssimas, Bonito é mesmo digno do nome. E nada melhor que fotografias (que valem mais que mil palavras) para admirar esse lugar maravilhoso, muito pra lá de bonito...Voltarei depois com outras fotos de paisagens, flores e bichos de lá.

de bote, no rio formoso
corredeiras

mergulho de proa

registrando até debaixo d'água - rio sucuri

corimba - rio sucuri

dourado - rio sucuri

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

DE GAIVOTAS E BARCOS


Neste post de hoje vou falar muito pouco.
Só quero mostrar umas fotos .


De uma cidade que tem tudo a ver com o mar, com os barcos e com as gaivotas.
Florianópolis, Santa Catarina, maio de 2007.

Uma câmera simples, mas eficiente na mão.
Uma paisagem deslumbrante à frente dos olhos.
Um céu azul intenso e limpo sobre minha cabeça.  (Se bem que houve dias nublados.)


Acima de tudo a felicidade que envolveu e saturou minha mente por uns dias.
Floripa, uma paixão. Jamais esquecerei. E ainda volto lá. 



Pra ver suas praias, suas lagoas e suas gaivotas.


Pra estar com seu povo alegre e que tão bem me recebeu.


 




Dedico este post à amiga Cléa Braganholo, ao Rafael Hilbrecht e ao Paolo Piermarini.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

22 DE FEVEREIRO, O DIA DO MEU PAI


Hoje, Você estaria completando 95 anos.
E eu queria mais uma vez homenageá-lo.
Frederico, Paizinho, você foi tudo o que eu queria ser.
E que jamais serei.
Meu exemplo de vida, meu Herói.
Obrigado, eternamente obrigado.
PARABÉNS, MEU PAI !



dobrado Monteiro da Cruz

domingo, 19 de fevereiro de 2012

CORISCO E UM PERNAMBUCANO SAUDOSO

Uma prova do quanto tinha razão Antonio Maria, jornalista recifense radicado no Rio de Janeiro, autor de uma série de frevos sobre o Recife, está escrita em sua belíssima música, hoje um clássico da MPB, consagrado na voz de Maria Bethania (Frevo n. 2 do Recife):

“Quando eu me lembro
O Recife tá longe
A saudade é tão grande
Eu até me embaraço
Parece que eu vejo
O Haroldo Matias no passo
Valfrido e Cebola, Colaço
Recife tá perto de mim
Saudade que eu tenho
São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes no ar..”


              Hoje de madrugada, recebi do meu filho Fred, um email em que anexava um vídeo feito às pressas, improvisado mesmo, em que ele -tocando cada um dos cinco instrumentos de um regional de cordas (violão, bandolim, cavaquinho, pandeiro e triângulo) e mixando-os num único vídeo, executa o frevo CORISCO, do saudoso compositor e amigo Lourival Oliveira, um paraibano/pernambucano do coração mais recifense e frevista que eu conheci.


Transparece desde logo a saudade do Recife, da família e das coisas da terra, nesse vídeo.
Exilado por força da profissão (Fred é Engenheiro de Software da Microsoft) e morando em Duvall, no Estado de Washington-USA, tem ele uma paixão imensa pela terra natal.  E a demonstra aqui, de forma bem significativa.  Ainda ontem, numa mensagem no facebook, dizia que: tudo o que eu queria era estar agora com meu banjo, acompanhado um bloco de pau e cordas no Recife.

Fred e meu neto Diogo, longe, muito longe do Recife
Sei que ele gostaria de refazer o vídeo mil vezes até ficar perfeito, como tudo o que faz.  Aliás, em dois dos cinco quadros do vídeo, há "interferências curiosas" de Diogo, como vocês poderão ver.  Mas, publico assim mesmo, esse grito de emoção e amor pela sua terra, esquecendo aspectos técnicos e musicais, externando, assim, a nossa paixão pelo Recife e seu verdadeiro Carnaval.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

CARNAVAL E EXPLORAÇÃO POLÍTICA



Algumas poucas pessoas preocupadas com o rumo que está tomando a nossa maior festa popular,  já falaram tanto que não têm mais o que dizer.
  
Por outro lado, há que se lembrar: afora os culpados por toda essa história, que vem se repetindo desde que a Prefeitura dos últimos 12 anos "inventou" o tal Carnaval Multicultural, para espalhar fartas verbas para roqueiros aposentados, funkeiros, disk-jockeys, cantores e dançarinos de axé-music, bregueiros, de todas as latitudes e longitudes do Brasil, existe algo mais.  

Sabem o que é?  É a terrível vontade, a imensa vaidade, a compulsão pela exibição que têm os nossos artistas e grupos carnavalescos. Tem gente que faz qualquer coisa para aparecer, mesmo naqueles vinte minutinhos de aparição numa chamada de TV, numa rua ou palco. 

Se não houvesse passarelas, palcos,  "organização" de shows, "homenagens" a figuras de destaque nos carnavais, essas baboseiras todas inventadas para botar na mídia os "queridinhos" dos poderosos do dia, haveria o que? 

Simples... Haveria a espontaneidade que sempre existiu e poderia voltar a existir, no nosso carnaval de rua. A Prefeitura e o Estado teriam apenas que fazer a sua parte: dar fluidez ao trânsito, atendimento de saúde e segurança à população.  E pronto. E só. 

Deixasse o povo brincar. Iríamos até, quem sabe, voltar a ver aqueles "Blocos do Eu Sozinho" em que gente como “O Lorde de Olinda” voltaria a desfilar seus sonhos carnavalescos, na maior Paz. Sugiro aqui pra vocês e garanto vai dar certo. 

Se os detentores da verdadeira Cultura Popular, essa gente que, sem nenhum tostão da Prefeitura, sem nenhuma ajuda do Estado ou das Estatais federais, cheias de políticos corruptos, se recusar a esse “programa de índio” em que está se transformando o Carnaval do Recife, que só locupleta os sabidões de sempre, repito, se essa gente que realmente faz Cultura Popular se recusar a aceitar essas humilhações a troco de nada, nosso Carnaval vai voltar a ser uma festa do povo. 

De minha parte já fiz o que achei que devia fazer. Mostrei, com o Bloco “Flor da Vitória-Régia”, com o Bloco “Cinema Mudo”e com o “Urso Maluvido”, que a gente pode fazer carnaval sem precisar esmolar junto a esses políticos inconsequentes, uma verbinha de nada ou uns minutinhos de palco, que vão acabar destruindo uma das poucas coisas que o povo sabe fazer todo ano: um Carnaval verdadeiramente popular. 

E se isso não ocorrer, como tudo indica que vai acontecer, essas “autoridades culturais” vão acabar fazendo uma insípida canja com a nossa “galinha dos ovos de ouro”.  

Porque, fosse eu sulista, ou nortista, gaúcho ou pantaneiro, não viria ao Recife, tão longínquo, para assistir shows de rock, de funk, de brega, de axé ou de qualquer coisa que rolasse no meu quintal.  

Vem aqui quem quer conhecer o nosso frevo, maracatu, caboclinho, blocos tradicionais, mascarados, laursas, bois, enfim, toda essa rica variedade de ritmos, de cores e de sons que só existem aqui. 

Minha voz está rouca de tanto protesto, meu coração está ficando insensível, depois de tanta luta inglória. Venceram os que acham que sabem o que o povo gosta. Bom proveito a todos.  Curtam bem a sua “canja”. 

Um dia, muitos ou quase todos deixarão de procurar os iluminados palcos e passarelas, por inúteis. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

OUVIR ESTRELAS

“Ora (direis) ouvir estrelas! certo 
perdeste o senso!” E eu vos direi,no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”. 

(Olavo Bilac)

Este lindíssimo e conhecido soneto de Olavo Bilac, o nosso poeta maior, que inúmeras vezes li, reli e declamei para mim mesmo, sempre teve uma importância fundamental na minha vida, em suas múltiplas etapas. 

Sou um apaixonado pela Música e pelas Estrelas. Há no Universo um ritmo, uma música, que contagia todos os seres humanos, desde as cavernas até os imensos edifícios de hoje, nossas cavernas tecnológicas. 

Quantas e quantas vezes me surpreendi, enquanto ouvia Mozart, ou Saint-Säens, Beethoven ou Bach, Lizt ou Schumann, enfim qualquer grande compositor da Música eterna e universal ! 
Não foi somente uma surpresa daquelas que a gente sente quando encontra o novo. 

A Música nunca é a mesma. Até mesmo aquele estudo que enfrentamos, no aprendizado, de olho na estante, traduzindo cada nota e sua expressão, cada pausa e seu significado na execução, nos surpreende a toda hora. 

E paro, e penso. O que está por trás da criação musical ? Que mistério se esconde atrás dessa divina manifestação ? Que força nos impulsiona para a criação, quando passamos a compor ? E eu mesmo tento responder: o Homem não é um ser comum, como qualquer criatura viva do planeta. Tendo o dom da criação ele reflete, na sua obra, a Grande Obra Daquele Ser Incriado e Misterioso que buscamos. 

Sim. Todo Músico, desde o mais humilde aprendiz, ao mais iluminado Maestro, Arranjador, Compositor ou Exímio Executante, deve ser um mandatário do Poder da Criação. E eu sinto que assim é mais fácil seguir nossa missão de Músico. Uma missão muito nobre, diferenciada, às vezes mal entendida. 

Missão que causa uma pontinha de inveja sadia em quem não recebeu esse dom musical. Claro, não somos os únicos. Outros privilegiados têm outros dons, outras Artes. Mas a nossa, sem falsa modéstia, passa por todas as outras. A nossa Arte só pode ser amada por quem aprendeu a ouvir e a entender as Estrelas!

(Publicado no Informativo Banda Dabanda  Ano I - Nº 10 AMPARO (SP), FEVEREIRO DE 2012)