terça-feira, 15 de novembro de 2011

COISAS DE IRMÃOS – A MESINHA DE CANTO & OUTRAS ..

Meu mano mais velho, Jaime, é um figuraço.
Puxou ao Tio Mauro, tremendo gozador, que gostava de fazer umas brincadeiras bem humoradas e com uma boa dose de ironia.
Jaime nunca perde a oportunidade para uma boa brincadeira. 
Quando minhas irmãs começavam um namoro, na primeira ocasião para se manifestar, lá estava Jaime com uma presepada.
Como no dia em que botou uma toalha de mesa na cabeça, segurou um vaso de flores por cima e ficou acocorado perto das cadeiras onde sabia que minha irmã Ana Maria e o cunhado Paulino iriam sentar para conversar.  Quando chegaram e viram aquela figura mal-disfarçada no canto do terraço, Ana logo reclamou: 
- Que palhaçada é essa ?  Quem está aí?
E  Jaime, com uma voz de falsete: 
- Eu sou uma mesinha... Eu sou uma mesinha... podem namorar à vontade...Risos gerais, claro !
  
***
Já casado, minha cunhada Elena tinha acabado de tirar carta de motorista, e ia feliz dirigindo pela BR-101, à altura de Igarassu.  Percebendo de longe uma blitz da Polícia Rodoviária, Jaime pede para Elena lhe entregar a direção. Dá rapidamente a volta pela frente do carro e assume o volante.  Logo adiante, naturalmente, são parados pelo guarda que tudo viu.
O guarda pede a documentação de Elena.   Ela atende prontamente, com a carteira nova, agora inaugurada.
O guarda desapontado pede a documentação de Jaime. Ele apresenta, sorridente. 
O guarda sem ter mais o que perguntar, ataca: 
- O senhor tem alguma arma  no carro?
E Jaime, rápido na resposta:
 - Tenho dois 38..  Quentes !
E aponta para o par de sapatos nos pés.
O guarda disfarçou o riso e saiu de perto, com medo, na certa, de outra gozação.

*****
 
Mais uma de Jaime.
Eu estava cortando a grama no jardim da minha casa em Aldeia e ele, que mora numa granja lá perto, vai me visitar, acompanhado do seu caseiro Edmilson.
Quando me vê suado, empurrando o cortador manual, pesadão, pergunta:
- Mano, você deve estar com um monte de calos nas mãos,  né?
Eu, orgulhoso, mostro as mãos, realmente calejadas.
E Jaime, sério, me diz:
- Eu também trabalhei um bocado ontem na Granja. Também estou cheio de calos ...
E, mais sério ainda, dirigindo-se ao Edmilson:
- Edmilson, mostre aí pra Fred como minhas mãos estão calejadas ! 
Edmilson, aprendiz de gozador, meio sem jeito, estica as mãos abertas e espalmadas num riso amarelo.  E Jaime vai ao delírio !  Eu, tossindo de tanto rir...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A LÓGICA DOS VELHINHOS

O Maestro Lafayette, decano da música olindense, co-autor do Hino de Fernando de Noronha, tinha umas tiradas muito bem humoradas.

Segundo relato de sua neta Junita, odontóloga e também musicista ele, já bem velhinho, passado dos 90, costumava ficar assistindo às novelas com sua esposa Donzinha.

Sempre muito apegados, dividiam suas lembranças, nas horas fartas da velhice, conversando sobre amenidades e revivendo o passado.

Uma certa noite, passando pelos dois, a neta Junita ouviu o seguinte diálogo:
-Donzinha, você pode me trazer um copo d’água?
 -Vou buscar, meu velho.. e vou trazer um para mim também...
E saiu em busca da água.  Voltou, entregou  o copo ao Maestro e sentou  ao lado dele.

 E o Maestro, puxando um envelope de comprimidos do bolso do pijama:
- Donzinha, eu vou tomar uma Cibalena **.  Você quer uma também?
- Quero meu velho. Me dê uma dessas..

Vai Junita até a sua avó e diz:
-Vovó, você não deve tomar remédio assim não. Pode lhe fazer mal.

Responde Donzinha:
- Mas minha filha, ele me deu com tanto carinho que  eu já tomei. E outro dia,  tomei também  um Beserol** e um Vagostesil**.

> > > > > > > >
                                              
Isso me fez lembrar uma história de Capiba, que ele gravou em depoimento do Museu da Imagem e do Som.

Tinha deixado de fumar e um belo dia, passando por um “fiteiro” (para os que não conhecem o termo, bem pernambucano, fiteiro é uma barraca para vender cigarros, balas, canetas, miudezas em geral).   

Parou e pediu ao comerciante um maço de cigarros.  Atendido, abre o maço e sai pitando o seu cigarrinho.  Logo encontra um conhecido que lhe pergunta:
- O que é isso, Capiba?  Voltou a fumar?

Responde o Mestre:
- Eu passo todo dia por aquele fiteiro e o dono está sempre arrumando uma fileira de maços de cigarros com tanto cuidado.   Tudo tão arrumadinho, tão colorido. Fiquei com pena dele e comprei um maço...e já que comprei, vou fumar !

Vá entender a lógica dos velhinhos !

**  Para os mais moços: Cibalena, Beserol e Vagostesil eram remédios muito populares para dor de cabeça, estômago e calmante, respectivamente.

sábado, 12 de novembro de 2011

CUBA LIBRE

A igrejinha do Poço

Moro em Casa Forte há quase 60 anos.  Cheguei aqui com sete.   Pois lhes asseguro: não há, no Recife, lugar tão aconchegante, onde a gente se sinta tão à vontade com a vida, como Casa Forte.  Mesmo depois de tanto progresso, debaixo de tantos problemas de crescimento, o bairro ainda conserva e transmite uma paz colonial, como um afago de mãe-preta, nas noites frias de julho.
E  desse clima “Os Tártaros” aprenderam a gostar, quando aqui estiveram várias vezes, em 1966, trazidos por mim e pela turma do Bairro.
Na época, éramos muito organizados.  Digo éramos, referindo-me à turma do Bairro: participei, com outros amigos e vizinhos, da fundação e das primeiras diretorias do Clube Ícaro de Casa Forte.
O Ícaro desenvolveu muitas atividades na área da cultura e do lazer, direcionadas à juventude daqui, a exemplo de teatro, cinema, shows e bailes (os chamados “assustados”.)
Fazíamos montagens de pequenas peças, no palco da sede do Rotary Clube, onde também projetávamos filmes de arte, em geral conseguidos gratuitamente nos Consulados e Embaixadas sediados no Recife.  Promovemos, também, um excelente show musical no Colégio da Sagrada Família cuja atração principal foi, logicamente... Os Tártaros.
O primeiro dos dois bailes que o conjunto fez em Casa Forte foi na casa do Sítio dos Donino, no Chacon, já próximo ao Rio Capibaribe.
Era também, diga-se de passagem, um dos primeiros bailes que os Tártaros tocavam, profissionalmente.   A responsabilidade do momento chegava a ofuscar parte do orgulho dos cinco (principalmente o meu) de estarem se apresentando em “casa alheia”, alvo das atenções de todos.
Show no Sagrada Família
Para quebrar o gelo, antes do início da festa, os organizadores nos ofereceram uma bebidas, à moda da época: cuba libre, ou seja, rum com coca-cola.  Não deu muito certo, não... A turma, que era abstêmia, desacostumada com o calor do rum, foi ficando de mão pesada e dentro de umas duas horas não havia instrumento em condições de ser tocado.  As guitarras de cordas quebradas, a bateria com as peles rasgadas, os amplificadores chiando e roncando, um desastre...
O resto do baile foi, então, à base da chamada “radiola”, com Renato e Seus Blue Caps, Roberto Carlos, Wanderléa e The Pops, embalando a madrugada.
Dia seguinte, na casa do Zé Araújo, meio ressacados, prometemos solenemente nunca mais beber em serviço.  Promessa cumprida.  Realmente, as poucas cervejas  que tomamos juntos, daí por diante, foram servidas nas refeições que sempre fazíamos ao final de cada festa.
Casario no Poço da Panela


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O CARNAVAL DOS TEIMOSOS




Pouca gente se lembra deles, na hora da Folia.  
Talvez porque o luxo ali não exista, permanecendo apenas a alegria de botar na rua a sua “brincadeira”. 
Pode ser um bumba-meu-boi, com suas catirinas, emas, burras-calus, morto-carregando-o-vivo, mateus e bastiões, cavalos-marinhos, caiporas, la ursa, caçador e até o dr. Pinico Branco. 
As fantasias são muito simples.  Chita, papelão, penas da galinha que um dia serviu de almoço. 
Crianças, adultos e idosos não se distinguem na rua.  
A música é rudimentar, monocórdia. 
Mas o que lhes importa é esquecer as agruras da vida monótona e sofrida. 
E brincar, beber, dançar, cantar.  Só isso.  
Tão pouco para eles, tanto para a manutenção da nossa cultura rica e diversa.  
Que eles nunca deixem de nos transportar aos seu Reino Mágico da Alegria e da Simplicidade.  
Olhemos por nossos Brincantes...Oremos...

domingo, 6 de novembro de 2011

PROGRAMA PERNAMBUCO MUSICAL

Ozi dos Palmares

    Durante alguns meses produzi e apresentei numa Rádio FM Comunitária, a FM 106.1 dois Programas que tinham por objetivo divulgar a Música Pernambucana e a Música Pop internacional.  
    Pernambuco Musical, o primeiro, era dedicado à música regional, em todas as suas vertentes, seus artistas e suas histórias; assim também POP 60, que relembrava os artistas pernambucanos em especial e os brasileiros em geral que fizeram sucesso no Rádio e TV, na época da chamada Jovem Guarda, movimento musical que veio na esteira do Pop Internacional representado pelos Beatles e Rolling Stones e uma miríade de grupos espalhados pelos cinco continentes, uma revolução musical e de costumes sem precedentes. 
    A partir de hoje e de vez em quando, vou trazer aqui para este espaço o áudio de partes desses programas,  que tinham a duração de uma hora inteira de música e entrevistas, sem intervalos comerciais. 
    Começo com um programa “Pernambuco Musical” em que entrevistei o compositor-cantor palmarense OZI dos Palmares.  Como todo palmarense, um inovador, um malassombrado.   Cardeal da ICAS, a Igreja Católica Apostólica Sertaneja, uma criação do também palmarense, escritor Berto Filho, Ozi é radicado em São Paulo e de lá sempre está nos mantendo informados do seu trabalho grandioso em prol da nossa música.

Ouçam e se deliciem com a apresentação da “Saga de Lampião”, música e letra de Ozi dos Palmares, cujo “demo”  tive o prazer de gravar pela primeira vez no FSTUDIO.  Ozi faz toda a percussão, voz e efeitos vocais, além de se acompanhar ao violão.  Vale a pena !

sábado, 5 de novembro de 2011

MINIBIOGRAFIAS DOS TÁRTAROS (ZÉ ARAÚJO)


"Bandleader".  Até mesmo pelas circunstâncias.  Ensaiávamos na sua casa, fornecia os amplificadores, carro para transportar a turma, sua paciência e sua amizade.  Cara legal, o Zé.  Até hoje, o mesmo.  Pacato feito o pai, o bom Sr. Antônio, calmo e tranquilo, um Lorde inglês em pleno bairro do Espinheiro.  A educação personificada.


Dona Mariinha, a mãe do Zé, era a nossa Madrinha.  Sempre providenciando alguma coisa para a gente lanchar.  Vovó Calú, a caseira e amiga da família, trazia a bandeja, passos lentos, diria quase estudados, uma ternura só.  Riso sedoso, voz macia:

- Olha a hora do lanche.  Saco vazio não se pôe em pé.

A turma parava o rock ou a bossa nova e haja brincadeira, confraternização em torno do suco de laranja e dos sanduíches da Vovó Calú.


Na hora do sério, Zé virava empresário.  Formal, engrossava mais um pouco a voz, já bastante grave, mais parecendo o contrabaixo que tocava:


- Turma, agora a coisa é pra valer.
- Vamos ser mais profissionais, por favor !
- Ninguém se atrase, pelo amor de Deus..
- Assumimos um compromisso, empenhei minha palavra.
- Existe um contrato assinado !
- Brincadeira tem hora, Djilson..
- WALTER, SEU DISPLICENTE !!

Aí a coisa engrossava e o pau não quebrava por pouco.

(A continuação desse diálogo está aqui: http://www.seteinstrumentos.com/2011/10/minibiografias-dos-tartaros-walter.html )

Extraído do livro "Tártaros: os seis do Recife"

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

PANTANAL SUL - AQUIDAUANA


Quando estivemos no Mato Grosso do Sul, em setembro do ano passado, além de curtir Bonito, e arredores, fizemos questão de visitar o Pantanal Sul.  Já conhecíamos o Pantanal do Mato Grosso, na região de Poconé e Transpantaneira, quando visitamos Cuiabá e Chapada dos Guimarães.

O Pantanal Sul é bem diferente.  



A região, mais explorada, tem fazendas imensas, com criação extensiva de gado e outras que hoje se dedicam também ao turismo rural e ecológico.
O Pantanal Norte, mais selvagem e preservado, caracteriza-se - a meu ver - pela sua fauna mais diversificada, em especial quanto às aves. 
De Bonito, você pode atingir a região pantaneira por várias entradas.  Uma delas é Aquidauana.  Nesse município há vários Hotéis-Fazenda, em plena atividade, mas reservando também espaço para receber turistas interessados em viver o dia a dia dos pantaneiros.



Ficamos numa dessas fazendas, a Santa Inês, onde fomos muito bem recebidos e igualmente bem tratados.
Atividade por lá não faltou.  Focagem noturna de animais, safaris fotográficos, cavalgadas e caminhadas à vontade.  Tudo regado a muito tereré, mate bem gelado, tomado de bomba e guampa, um chifre especialmente preparado para servir de "caneca" para essa bebida tão gostosa e estimulante.






Boas fotos e vídeos, foram o resultado dessa experiência fantástica de conhecer mais um pedaço desse Brasil maravilhoso, que a cada dia ainda nos surpreende.



terça-feira, 1 de novembro de 2011

SAUDADE DA FAZENDA PEREIROS

Um jeep Willys, do tempo da Guerra, buzinava na frente de casa.. Dentro já estavam Tio Moacir e tia Maria, mais uns três primos e primas, mas sempre cabia mais gente. E bicho também...
Aí subíamos, Paizinho, Mãezinha, eu e mais um ou dois irmãos, afora nossa cadela setter, perdigueira, chamada Cherry, que ia fazer companhia a Doroty, a setter de meu tio, ambas exímias caçadoras de codornizes.
E no meio dessa balbúdia, seguíamos em direção a Lajedo, numa época em que só havia estrada pavimentada até Caruaru. Depois daí, até a fazenda Pereiros, eram só estradas de terra, de piçarra, cheias de pedras e buracos, delimitadas pelas cercas de aveloz das propriedades à margem.
Pereiros fez parte dos meus melhores dias de criança.
Era uma Fazenda bem grande, no agreste pernambucano, e pertencia em comum ao esposo da minha tia Neda, Paulo Otaviano e seu irmão José.
Tio Paulo, grandalhão e bem humorado, apesar de calado e aparentemente sisudo, tinha sempre o maior prazer em receber a família em Pereiros e nos dava toda a atenção.
Nas férias de julho, quando o inverno pintava de verde a região e enchia os açudes da Fazenda, o friozinho agradável convidava a gente a soltar a imaginação e viver, ali, nossos sonhos infantis, alimentados pelos muitos filmes de faroeste que assistíamos no Cine Luan.
Poder cavalgar, como a gente fazia, era simplesmente fantástico e tudo o que queríamos, mal chegávamos em Pereiros, era pegar um pedaço de corda e sair pelo campo atrás dos cavalos que -daí por diante- iriam ter muito trabalho.
Eu tinha uma preferência especial por Asa Branca, um rudado baixinho e amigável, que se transformava num raio quando era solicitado; principalmente quando uma rês escapava da boiada. Reflexo condicionado da lida com os vaqueiros no meio da caatinga, por ocasião da "junta do gado" ou das tarefas de "apartação", que sempre ocorriam nos diversos "cercados" do pasto bem cuidado da propriedade.

Quando visitei Pereiros pela primeira vez, eu ainda pequeno, lembro-me de haver montado os dois carneiros da raça merino que lá havia: Jasmim e Guarani, donos de uma lã macia, bem fortes e altos.    Se ficavam meio parados, a gente tinha um truque para fazê-los correr na hora: um puxão na sua cauda curta. Os carneiros disparavam, e muitas vezes nos deixavam largados no chão, sob as vaias dos primos que aguardavam sua vez de montá-los.

Em Pereiros, sempre acompanhavámos os nossos pais e tios nas caçadas.  Havia muita codorniz e nhambu, ou lambu, por lá.  Quando eu estava mais taludo, junto com outros primos, fizemos algumas caçadas com espingardas soca-soca. As vítimas eras as rolinhas caldo-de-feijão, que chegavam em bandos, à beira dos açudes.  A gente se escondia, ficando nas "esperas" do mato, e quando as bichinhas pousavam, era uma chacina... sempre matávamos umas dez ou quinze mas, depois da caçada, nós mesmos as depenávamos e -bem assadas- comiamos com prazer e farofa.
Claro que hoje eu jamais repetiria isso, mas na época era muito natural e não ficávamos com o menor traço de remorso dessas caçadas.    Luiz Gonzaga cantou magistralmente essa situação, num baião muito conhecido: "Teve pena da rolinha que o menino matou.. mas depois de assar a bichinha e comer com farinha, gostou..  Por conta disso tudo, um dia desses resolvi versejar sobre essas lembranças do interior, e saíram essas quadras :

Jumento zurrando
A besta no cio
E a onça esturrando
Na beira do rio

Lagoa coalhada
De jia e caçote
A cobra no bote
já desenrolada

a lua brincando
c’ a nuvem  vadia
na boca do dia
os "passo" piando

É essa a lembrança
Qu’ eu guardo , cansado
De um tempo passado
Na velha fazenda
Cigano sem tenda
Sem muita esperança
Um velho-criança
Um pobre coitado.



O texto inicial faz parte do livro "Caçador de Lagartixas", Recife, 2008-Ed.LivroRápido.  As quadras estão publicadas no Jornal da Besta Fubana -www.bestafubana.com)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

TRAVESSEIRO DE MACELA




Vou começar este texto de hoje dando uma de botânico.
Assim, transcrevo a definição científica dessa planta cujas flores ilustram o post:
A Achyrocline Satureioides, da família asteracea, vulgarmente conhecida como macela ou marcela e por eloyatei-caá em Tupi-guarani.
As flores da macela costumam ser usadas pela população como estofo de travesseiros para os bebês, por se acreditar que tenha efeitos calmantes.
De fato, lembro bem de quando era pequeno de observar que minha mãe fazia uso, para acalmar o sono dos meus irmãos ainda bebês, de um travesseirinho pequeno e muito cheiroso.
Como fui asmático até os dez anos, ou um pouco mais, acho que usei bastante esse artifício, porque as recordações me acompanharam por muitos anos.
Então, uns anos atrás, bateu uma saudade inexplicada das férias que eu passava no interior, observando a vida simples do povo do campo e tentando ser e pensar como um nativo.
Remoendo essas lembranças, achei por bem perpetuá-las num xote que chamei de “Travesseiro de Macela”. Aqui vai a letra dele:

Já faz tempo que eu não vou lá na terrinha
Pra comer mel com farinha, rapadura e munguzá
Assar um milho bem na brasa da fogueira
Dançar xote a noite inteira, ouvir o galo cantar

À tardinha, montar no meu burro velho
Prosear com “seu” Orélio, encostado na porteira
Ah que saudade eu sinto da minha terra
Ver o rio descendo a serra, tomar banho de cachoeira

Quando eu chego lá em casa é o latido
Do cachorro preferido e um cheirinho de canela
De madrugada o travesseiro de macela
Vai saber que eu estou chorando, morto de saudade dela

Saudade dela, ai, ai, saudade dela ai, ai
Eu estou roendo é morto de saudade dela...

Gravei a música, que consta do repertório do cd “Eu sou assim”, juntando composições que fiz para os meus familiares: pai, mãe, avó, madrinha, esposa, filhos.
Aos poucos vou trazendo essas lembranças aqui para o nosso espaço.

Aqui o link para a música


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

FLORES, SORRISOS DE DEUS 6

Duvall-WA

Mais flores, daqui e dali.
A beleza delas está em toda parte, para ser sentida pelos olhos e pelo coração.
Selvagens ou cultivadas, elas com suas cores e perfumes nos cativam da mesma forma.
Não canso de admirá-las e sou capaz de parar o que estou fazendo, por mais importante que seja,
para fotografá-las, sempre que possível.

Aldeia-PE



Duvall-WA



Por mais insensível que uma pessoa possa parecer e por mais que ela tente ignorá-las, as flores estão alí. Sempre à disposição do nosso sentimento. 

Seja para nos acalmar, seja para nos fazer pensar no Criador.

Naquele Jardineiro do Universo, que as plantou nos mais distantes rincões do Globo, nos mais distantes espaços entre as estrelas.


Duvall-WA






Sim... eu creio que em qualquer lugar perdido do Universo, hão de estar presentes essas jóias vivas.


Key West-FL

E, para acompanhar essas imagens simples, um belo poema musical (da Suíte Quebra Nozes) de Tchaikovsky: A Valsa das Flores.




quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O DISCO QUEBRADO


A quantas vai a inocência de uma criança...

Meu pai sempre gostou muito de música.
Então, na nossa casa em Olinda, parte da sala de estar era ocupada por uma vitrola RCA (A voz do dono), cuja marca nunca me saiu da cabeça: um cachorrinho sentado ouvindo um "gramophone."
Tempos depois viria a saber que o nome vitrola, ou victrola, se reportava justamente a essa fábrica de discos e produtos correlatos e do seu nome, RCA Victor, partiu a marca victrola, ou vitrola, em bom português brasileiro.
Paizinho ouvia muito os cantores Carlos Gardel, Gregorio Barrios e Bienvenido Granda.
Mais: Orlando Silva, Francisco Alves, Augusto Calheiros e Ataulfo Alves. Havia também, uma dança da moda que veio a tornar-se nosso símbolo de nordestinidade: o baião, recém-lançado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
Mas Paizinho gostava, ainda, de ouvir música erudita e foi na nossa discoteca que me encantei com os primeiros trechos de belas peças clássicas, como a Marcha Triunfal da Aída, de Verdi, peças de Beethoven, Chopin, Strauss, Bach e Tchaikovsky.
Pois bem: eu estava sempre por perto da vitrola e aprendi a mexer nela bem precocemente, mais ou menos como meus filhos, que aprenderam desde cedinho a usar os vídeo-games e o computador.
Gostava muito de um disco de Luiz Gonzaga que continha a música Baião ("eu vou mostrar a vocês, como se dança o baião e quem quiser aprender é favor prestar atenção..").
Numa dessas vezes que fui botá-lo para tocar, o disco escorregou e espatifou-se no chão da sala.
Esses discos de 78 rpm eram pesados e muito frágeis, não resistindo, em absoluto, a uma queda de certa altura.
Fiquei desesperado.. Mãezinha e Dedé, sempre na lida doméstica, talvez nem tenham percebido o desastre e eu, na minha angústia para consertar a situação, saí pela porta da frente da casa e ganhei a praia.
Com as duas bandas do disco nas mãos, chorava feito um bezerro desmamado, parando cada banhista que se atravessava em meu caminho: - Meu senhor, cole esse disco do meu pai que eu quebrei agora...
Devo ter parado uns cinco ou seis, até que um senhor muito educado, que estava fazendo a sua caminhada matinal (naquele tempo ainda não se chamava "cooper”..) me falou com muita paciência: - Oh, meu filho, volte pra casa e não fique aperriado. Depois seu pai compra outro igual. Disco quando quebra não pode ser mais colado não. Vá pra casa, vá...
Desconsolado e sem jeito, voltei e contei pra minha mãe o sucedido...
Ainda bem que minha fuga foi breve e não causou mais uma contrariedade afora a de, mais tarde, levar um "carão" bem humorado de Paizinho e prometer que não ia mais me aventurar nas gavetas do armário da discoteca, nem mexer nas agulhas da vitrola.

(Crônica extraída do meu livro "Caçador de Lagartixas", Ed.LivroRápido/Elógica, Recife, 2008)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

COISAS DE IRMÃOS – A MINI-SAIA

Minha família é bastante grande.  13 filhos, todo o patrimônio dos nossos Pais.    Treze filhos e uma casa de tamanho proporcional, para abrigá-los.   Oito mulheres e cinco homens.   Todos, graças a Deus e aos nossos Pais, muito unidos e solidários.

Muitas histórias engraçadas ocorrem nessas famílias que só existiam há tempos atrás.  Muito difícil que, nos dias de hoje, um casal goste tanto de crianças, que chegue a fazer esse sacrifício de gerar, criar, educar, alimentar, formar, uma ninhada tão extensa.

Mas as recompensas também foram grandes.   Apesar da luta constante, meus pais tiveram alegrias constantes, também.  Vou dividir por aqui com vocês uma historinha-quase-anedota.

Meu pai, que cuidava da prole com muita atenção e carinho, redobrava esse zelo quando se tratava do lado feminino da ninhada.  Oito moças bonitas despertam a atenção de pretendentes e o meu Velho não dormia em serviço.

Na sala de jantar da casa, um relógio de pêndulo batia as horas e meias-horas.  Religiosamente. Era o vigia dos horários da família e meu Pai o tratava muito bem, sempre o alimentado de corda, no mecanismo.

Quando as festinhas ou o cinema do fim de semana se prolongavam um pouco mais das dez da noite e os namorados ou noivos vinham trazer as moças em casa, o Velho estava lá, vigilante e atento.  Mas ficava calado, no seu quarto..

No dia seguinte, vinha a observação: 
- A sessão do cinema atrasou?,  ou  
- Perderam o horário do ônibus?..

Mas, havia também o lado engraçado dessa vigilância toda.

Certa noite, Ruth e o noivo,  hoje seu marido, iam para uma festinha, um “assustado”, na casa de uma amiga.  O noivo e meu pai conversavam no terraço, enquanto ela se aprontava.

Quando passa pelos dois, ela de mini-saia, a moda da época, recebe o olhar de desaprovação do Velho e uma pergunta à queima-roupa (literalmente):     

- Posso saber para onde vai a pastora?

Sem perder a pose, mas também rápida no gatilho, responde Ruth: 

- Direto para o quarto, para trocar de roupa... 

Risos gerais, inclusive do noivo e do Patriarca.

(Muito obrigado à mana Dulce que, num papo gostoso, ontem à noite, enquanto tomávamos  uma canja deliciosa, relembrou essa historieta)

sábado, 22 de outubro de 2011

VELHAS FOTOS, BOAS LEMBRANÇAS E UM TRIO DIFERENTE

Não sei ao certo a idade destas fotos.  Só sei que foi um dos melhores presentes que recebi do meu amigo José Otamar de Carvalho, Engenheiro Agrônomo residente em Brasília-DF, apaixonado pelo Nordeste e pelas Artes em geral.   Otamar é contraparente, por ser casado com minha prima Ana Maria.  Elas representam muito para mim, porque são a única lembrança que tenho de um instrumento muito querido: meu primeiro instrumento musical, uma das pioneiras guitarras de corpo maciço, chegadas ao Recife. Comprei-a no ano de 1964, na Casa Publicadora Batista.  


Já falei sobre ela numa crônica neste Blog. Aqui: http://www.seteinstrumentos.com/2011/01/violoncello.html

Otamar e Ana estavam nos visitando na casa do meu pai, em Casa Forte.  Ele, que gosta muito de música, fez questão de posar com a guitarra.  Outra prima, a Margarida, estava com meu violão e eu, na falta de outro instrumento, apareço tocando ...  uma pá !
Além de antigas, a fotos me remetem aos tempos de solteiro, quando eu ainda sonhava em formar um conjunto musical e dar trabalho àquela guitarra, que também por pesada demais que era, me causou uns problemas de coluna.
Tive várias e excelentes guitarras, antes de trocar de instrumento, deixando-as pelo órgão elétrico, esse que hoje chamam genericamente de “teclado”.  Uma pena, pois eu gostava demais das minhas magrelas: essa Gianinni; mais outra da mesma marca, modelo Sonic; uma outra que era réplica da Gibson LesPaul semiacústica e por fim, uma muito linda e sonora, a Phelpa Apache.

Por outro lado, as fotos também me fazem lembrar a velha casa em que passei boa parte da minha vida, com meus pais e irmãos, num bairro que era quase uma cidadezinha de interior.  Infelizmente, a falta de espaço urbano foi nos tirando a beleza suburbana de Casa Forte e do Poço da Panela, à medida em que cresciam o Recife,  sua população e seus problemas. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

UM ALAGOANO EM OLINDA

O carnaval sempre me fascinou. Aquela alegria incontida, aquele colorido que toma conta de tudo, música, barulho, movimento, em Olinda tudo isso se multiplica. Olinda é a síntese do carnaval. Não é à toa que -ainda hoje- se pensa assim. A cidade convida ao prazer da folia. Então, como morador, eu tinha aquilo tudo aos meus pés, durante uma semana inteira.
Blocos de mascarados, com seus macacões folgados e máscaras de papel-marchê, com cabeleiras de agave colorido, saiam quase todos os dias, levando de roldão os foliões, percutindo suas castanholas de madeira.
Isso tudo, somado ao som forte dos trombones e trompetes das orquestras e ao ritmo infernal de um frevo de rua, contagiava até a mais fria das pessoas.
Dedé, minha madrinha e segunda mãe, tinha também uma certa paixão pelo carnaval.
Bisneta de africanos, corria-lhe nas veias o calor dos tambores do maracatu e das orquestras.
- Avia, Fedim, me dizia Dedé, com sua voz doce, quando os primeiros acordes do hino do Guaiamum na Vara feriam o calor morno de Olinda nas tardes de Carnaval, ou quando já noitinha, soavam ao longe os primeiros toques das alfaias e repinicavam os gonguês e agogôs do Maracatu Elefante.
Eu não me fazia de rogado e segurava com gosto na mão de Dedé, pra cair na folia.

Tinha um certo medo infantil dos mascarados, mas estranhamente nunca me amedrontei com a presença solene do Maracatu. Aqueles bombos enormes, batidos com toda garra, dezenas deles, pulsavam no mesmo ritmo do meu coração quase pernambucano.
Quando eu nasci, meus pais moravam em Maceió, Alagoas, terra dos Marechais. Paizinho havia sido transferido para a gerência do Laboratório Raul Leite de lá e foi na Avenida Thomaz Espíndola, no bairro do Farol, que eu vim pro mundo.
Três meses depois, a asma me consumindo, numa passagem por Palmares, Engenho Barra do Dia, terra dos meus avós, fui batizado "pra não morrer pagão", conforme diziam ... escapei e vim bater no Recife, esta cidade cativante, que adotei e que me adotou, desde então.
Por conta da minha asma, Paizinho estava sempre se mudando, buscando novos ares, pra que eu respirasse melhor. Moramos no Hipódromo, num sítio em Beberibe, em Olinda, na Torre e finalmente em Casa Forte, até hoje. Os médicos, na época, o aconselharam a me fazer caminhar pela praia no comecinho da manhã e iniciar-me na natação, no mar mesmo. E era assim, quase todos os dias. Saía com ele e Jaime, um ano mais velho que eu, fazíamos uma caminhada pela areia e em seguida ele me botava pra bater braços e pernas nas águas outrora transparentes do mar olindense. Será que veio daí o meu gosto pelos esportes? Mas, isso é assunto pra outra conversa. Olinda, o frevo e o maracatu, me marcaram para sempre.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

UM BOMBARDINO MAXIXANDO



Um amigo músico da Banda Sinfônica estava saindo para o exercício da sua justificada aposentadoria compulsória, ao completar ano passado os seus 70 janeiros.
Meio atarantado com a idéia de partir “na marra” para o “otium cum dignitatis” de que fala o grande Cícero, expressão rebuscada mas às vezes odiada, o Américo (este é o seu nome) ficou  ressabiado, como costuma acontecer nessas horas.
Chateado, aparecia lá pelo Estúdio de vez em quando e me falava da sua preocupação no seu novo "status quo".
Américo, Bombardino de Ouro, como eu costumo chamá-lo é um cara simples, de poucas palavras, humilde mesmo.  Mas o som que tira do seu bombardino, tocando um frevo-de-bloco, um dobrado, um maxixe, é algo para se aplaudir.
Aquele som que, no meu tempo de menino, ouvindo as Bandas pelos Coretos do Recife e Olinda, eu aplaudia com fervor.
O Bombardino, para mim, está na Banda de Música como o Violoncello está na Orquestra Sinfônica.  Um instrumento que fala como os humanos. O seu nome oficial, nos meios musicais é EUFONIUM  ou EUFÔNIO. De origem grega, significa O SOM IDEAL, PERFEITO.   Uma voz sonora que aconselha a Banda ou a Orquestra, naquele timbre que nos lembra um Pai cuidadoso. Um timbre que soa entre o tenor e o barítono, entre a energia de uma repreensão e o conselho de um amigo.
Assim, para expressar o meu respeito pelo músico e pelo bombardino, compus, em homenagem a ambos, um Maxixe, a que dei o nome de  “Americando”.
Gravei  esta música, arranjada por Edson Cunha, com os amigos da “Bandinha do Fred” (é assim que o Hugo Martins denomina a Banda que formei lá no F Studio) e além da percussão, fiz questão de tocar o Banjo-tenor, com aquele “sacolejo” que somente o banjo sabe transmitir.  Então, para relembrar os Anos 20, 30, do século passado, vai aqui minha homenagem ao “Bombardino de Ouro”.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

LITTLE HAVANA


Bairro dos imigrantes cubanos que se estabeleceram em Miami, Little Havana é um pedaço de Cuba no Estado da Florida muito querido pelos cubanos e americanos e seus descendentes. Ruas com casas  típicas, calmas e sempre animadas pelo estilo de vida bem latino dos habitantes. É comum ver pelas ruas e parques idosos jogando dominó, um dos jogos mais populares daquela ilha.  


Fábricas e manufatura dos famosos charutos cubanos também são encontradas nos bairros, sempre lotadas de turistas e apreciadores.  A mais conhecida e famosa rua do bairro, porém, é a Calle Ocho.  Cafés tipicamente cubanos, restaurantes e a conhecida calçada dos artistas latinos atraem turistas do mundo inteiro para fotografá-los.  


Respira-se nesse bairro a nostalgia de um exílio forçado e o cultivo das tradições gastronômicas e musicais da ilha.  Como sou fã incondicional das músicas do mestre Ernesto Lecuona (grande pianista cubano, autor de Siboney e Maria La O, por exemplo), fiz questão de fotografar a sua estrela na calçada.


Como também de provar o excelente peixe Mahi mahi, servido com arroz, feijão preto e banana frita. Uma delícia.  Mas Edla achou interessante o típico índio da charutaria (deve ser o índio mais fotografado de Little Havana).  Enfim, um passeio que vale a pena ser feito e bem curtido.

sábado, 15 de outubro de 2011

OBRIGADO PELA PACIÊNCIA .. 20.000 VEZES, OBRIGADO !

A Sagrada Família, de Manoel Santeiro-Ibimirim-PE
Nova marca inesperada, mais um agradecimento a vocês que pacientemente me aturam, lendo essas coisas que escrevo por aqui.  A compulsão de dividir minhas alegrias, surpresas, encantamentos, descobertas ainda que tardias, emoções, tristezas, decepções, amores e desamores, enfim, tudo quanto permeia a vida e os pensamentos de um ser humano em contínuo processo de aprendizado terreno, é tão grande que ultrapassa meu desejo de deixar vocês em paz.  Mas, como vocês continuam visitando meu modesto Blog só me resta, como forma de agradecimento, tentar melhorar esse espaço que é nosso.  Muito obrigado mesmo, de coração, por me aturarem e se interessarem por esses lampejos de vida que eu tento colocar por aqui.  Na foto, uma das belas razões para minha vida ser cheia de Luz.  A Família Maior dos Cristãos, no Amor da qual procuro me espelhar para seguir com a minha família, que está para ser acrescida de mais um/uma netinho/a.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

MINIBIOGRAFIAS DOS TÁRTAROS (WALTER)

- Walter, seu displicente!
- Displicente, não ! Tudo menos isso, Zé.. isso aí eu não sou.  E se disser de novo eu saio!

Mas era, e como.. Ah, gordinho relaxado pra tocar bem uma guitarra.  Solava de tudo: de chorinho a clássicos, de Baden Powell a Luiz Gonzaga; dos Beatles a improvisos jazzísticos, que hoje são sua especialidade e deleite, junto com meu sobrinho Fred Andrade, um músico do tamanho do mundo.

Sempre nos demos muito bem, talvez por sermos tão opostos em gênio e físico. Éramos “o Gordo e o Magro” (e somos, ainda. Assim nos tratamos até hoje).

Brincalhão, o Walter era um grande contador de “causos” do Interior, principalmente da sua Pesqueira querida.  Herdou isso do seu pai, Luiz Neves, ex-prefeito de lá, jornalista de um humor inesquecível.

Facilitou com o Gordo, era gozação na certa. Sem maldade, claro.

Tinha umas manias pra lá de malucas.  Uma delas era o método para concentrar-se e aprender o solo de alguma música nova.  Trancava-se no banheiro com um violão, sentava-se na privada e passava umas duas horas lá dentro. Do lado de fora, a gente só ouvia os bordões e o rasqueado da palheta de plástico nas cordas.

Quando saía, parecia um iogue que atingiu a iluminação: sereno, tranqüilo e feliz.

- Bicho, não tem lugar melhor pra se aprender a tocar. É a melhor acústica do mundo. Dá de dez num estúdio de gravação. Eita banheirinho bom!

(extraído do livro "Tártaros, os Seis do Recife")

sábado, 8 de outubro de 2011

MEUS AMIGOS ANIMAIS - 5




Nas três vezes que fui visitar meu filho, estive em três casas diferentes. 
Ele morou primeiro em Redmond, próximo da sede da  Microsoft; depois num outro apartamento, um pouco mais afastado e tranquilo e em seguida comprou uma casa numa cidadezinha linda, em ambiente quase rural.  
Feito Aldeia, aqui próximo do Recife.
Em todos esses lugares, a presença da Natureza, em toda sua pujança, é impressionante.
Washington, no Noroeste dos EEUU é um lugar muito verde, expressão que em inglês, é o codinome do Estado:  Evergreen State. 
Uma referência aos pinheirais que cercam pequenas cidades e enchem condados inteiros de um verde escuro muito bonito, que nem as nevascas do inverno conseguem acabar.
Os Parques são uma constante em toda cidade de lá. De todos os tamanhos e para todos os gostos. 
Muito bem equipados, com brinquedos e quadras de esporte sempre novos e limpos.
E em praticamente todos, a presença permanente de animais livres: pássaros, pequenos veados, coelhos do mato, esquilos de todos os tamanhos e espécies, etc.
Aparecem do nada, num gramado, pelos arbustos,no meio do parque, das ruas.


Sem medo, calmos, quase como animais domésticos.  

Por que?  Porque são respeitados. 
Ninguém ousa espantá-los, atirar-lhes pedras, caçá-los.

E também ninguém lhe atira migalhas ou outro tipo de alimento. Permitem que procurem por eles mesmo o que lhes interessa. Assim deveria ser por aqui também. É sinal de civilidade, de respeito aos bichos e à natureza. Mas por lá também há leis severas a serem cumpridas. Há polícia, para lembrar a lei aos cidadãos menos escrupulosos. Mas, pelo que sei, isso não é muito utilizado.



O longo aprendizado da arte de viver e de cumprir a lei, mais a preocupação do cidadão consciente com o meio ambiente e com a vida animal, levam a esse resultado.
Somente isso.
Sem mais segredos ou fórmulas mágicas. 
Educação é tudo !