quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

MEMÓRIA DO BLOG - AS MAIS LIDAS, POR ASSUNTO

Essa é a primeira postagem de uma série que reeditará as postagens mais lidas e também -eventualmente- algum comentário dos leitores e respostas do blogueiro.
O critério utilizado foi meramente o estatístico, uma vez que o "Blogger", provedor que abriga nosso blog no Google, fornece diariamente esses números ao assinante.  Começo pelo marcador ESPORTES, que tem 18 postagens (é o menos aquinhoado, uma vez que o blogueiro prefere, por motivos óbvios correr, nadar, pedalar, caminhar, do que escrever sobre isso, hehehe).  O post selecionado teve o título DIÁRIO DO CORREDOR - PARA AFERIR O PROGRESSO e até que nem foi muito comentado: apenas 5 comentários, contra 14 de "CORREDORES E "CORREDORES".  Vamos relembrar !

Nunca foi bom em Matemática.. Eu me virava, nem sei como, pelo Ginasial.  Como queria fazer Direito, cursei o Clássico (hoje seriam Humanas). Livrei-me assim de uma só vez de alguns fantasmas terríveis, como Física, Química, Trigonometria e outras coisas que não me entravam pelo cocoruto.  Mas, alguma coisa sempre você tem que utilizar, em que letras são substituídas por números.  É a linguagem da vida se metamorfoseando em valores, sejam financeiros, de avaliação, de equiparação, sei lá..  Valores numéricos são símbolos primordiais na civilização e você termina tendo que lidar com eles.  Eu preferia que não fosse assim.   Mas, desde os pré-históricos que mantinham seus calendários riscados na pedra contando luas e colheitas, até os "managers" de Wall Street, muito número rolou por esse mundo velho sem fronteiras.  Enfim, o Universo é Matemática pura ! No Esporte não seria diferente.. Em treinamento esportivo temos que nos basear nos nossos números particulares para melhorarmos ritmo, resistência e velocidade.  Somente com uma observação constante de certos valores numéricos isso é possível. Eles se referem -principalmente- a: frequência cardíaca, ritmo, distância percorrida e o próprio peso corporal.  Tudo isso está mais do que relacionado, os números se entrelaçando numa equação simples, porém aparentemente indecifrável para quem não gosta de lidar com eles.  Portanto, à medida em que o corredor evolui, se ele anota seus números e os acompanha com cuidado, vai verificar que, na medida em que ele melhora seu condicionamento, sua frequência cardíaca basal e o seu peso corporal diminuem em proporção inversa ao aumento do ritmo de corrida e das distâncias percorridas. É muito importante que se observem também fatores  subjetivos e objetivos que interferem no treinamento, como:  indisposições, pequenas lesões de estresse, condições físicas gerais, condições do percurso escolhido, topografia, temperatura, etc.  Um treino pode ser perfeito num determinado dia e no mesmo percurso e terrível no outro.  Basta a umidade do ar, o aumento anormal da temperatura, uma gripe mal-curada, uma entorse de que descuidamos no dia anterior, um estado emocional conturbado por algum problema doméstico ou profissional, para estragar a melhor das corridas.  Para tudo isso, não há nada melhor do que anotações diárias desse desempenho geral.  Se você mantém um "diário", vai ter muito melhor condição de se observar do que um corredor que não o mantém.
Aprendi, com  Ayrton Ferreira, corredor baiano, veterano e muito competente, a anotar tudo que se relacionasse com meus treinamentos e fiz disso um hábito diário, tão constante como vestir o calção, amarrar os sapatos e sair correndo pela madrugada. Durante 11 anos, os mais produtivos dos meus mais 28 de atividade constante, anotei religiosamente  os valores de cada treinamento e competição realizada.  Com isso constitui uma ótima base de dados que ainda hoje guardo como um dos troféus importantes que consegui na prática da corrida.  Hoje dispomos de programas e tabelas pre-moldados em softwares dirigidos a corredores de todos os níveis.  No meu tempo de iniciante, 1983, não havia nada disso, que fosse do meu conhecimento.  As anotações era em papel mesmo e a sua interpretação idem.  A partir desses dados  desenhei gráficos para um período de 36 meses de autoavaliação, em três fatores que me interessavam: frequência cardíaca basal, distância e ritmo. Coisa simples, somente para entender mesmo o porque dos resultados muito bons que eu obtive com a corrida. Passo para vocês agora uma amostra do meu "diário de corredor" e desses mal-desenhados gráficos.  O primeiro volume do "diário" foi o próprio livro do Ayrton Ferreira.  O segundo mandei fazer numa gráfica de um amigo, com tabelas idênticas às do livro original.  Claro que hoje há maneiras mais fáceis de se manter essas anotações.  Mas as minhas, eu garanto, nunca sofreram com o surgimento de vírus, "bugs" de softwares, queima de HDs e outras mazelas eletrônicas. O papel dos livros está amarelado pelo tempo, mas as anotações estão lá, testemunhas dos meus progressos. Escolhi aleatoriamente 2 páginas desses diários para comentar.

Abrindo a tabela 01 , vocês poderão observar o treinamento de um iniciante, com um ano de corrida, quilometragem baixa e tempos ainda muito abaixo do exigido para me considerar um corredor razoável.  Depois de uma corrida de 9,2 km num ritmo de 5,25/km, por exemplo,  tive um resfriado por dois dias, apesar de fazer uma recuperação..e já vinha sentindo dor no tendão dois dias antes..típico de iniciante, mesmo.

Na tabela 02 (quando já tinha alguma experiência) nota-se um ritmo bem melhor e mais regular (correndo 12 km x 2 no final de semana a um ritmo de 4,35/4.40) no tempo de  55 a 58 min..e a frequência basal chegando até 38 bpm .. se bem que geneticamente eu fui privilegiado.. na época pesava 63 ks, para 1,78 altura.
No gráfico 02 podemos acompanhar o aumento da quilometragem da minha época de maratonista iniciante (a primeira maratona em 1985) numa mínima de 80 km mensais  e máxima de 280 km mensais, em finais de período de treinamento. No gráfico 01, a queda bastante acentuada dos tempos para os 10 km (entre 54 min de 1984 a 39 min em 1987.. nas últimas anotações  que tenho cheguei a correr os 10 km para 37 minutos). O gráfico é inversamente proporcional ao aumento da quilometragem.. No mesmo sentido, inversamente proporcional à melhoria de ritmo e aumento de quilometragem é a queda acentuada também da frequência basal, indo de uma média de 56 bpm em 1984 até uns 40 bpm em 1987, como se vê no Gráfico 03.





Uma última tabela resume minhas últimas competições.. ao todo foram 62, entre dezembro de 1983 e outubro de 1991. Desde uma corrida de 2km que terminei em 6min13 segs (ritmo de 3min06 segs p/km) até o meu melhor tempo na Maratona, de 3hs49min, curti com muito prazer e continuo curtindo até hoje, esse esporte maravilhoso que é a corrida rústica ! Por tudo isso, considero de vital importância anotar tempos, percursos, sentimentos durante e depois da corrida, tomar a frequência basal (antes de levantar da cama para o treinamento), anotar tempos de treinamento, de competições, etc.. Claro, tudo isso sem estresse, tornando-se um hábito como de resto a corrida se torna um hábito e automatizamos todas essas coisas.  Relembrar, muitos anos depois, de tudo isso, é estender o prazer e colher os dividendos do que plantamos por toda uma vida sadia. Espero que estas lembranças sejam úteis, de alguma forma. E boa corridas para todos !

sábado, 2 de fevereiro de 2013

CORDELARIA MONTEIRO

Cordéis - minha nova mania definitiva
Tem gente que pensa que eu só acumulo manias.  Pode até ser verdade. Mas eu penso que minhas manias têm durado a vida toda. Foi assim com a música, que começou aos 8 anos de idade, quando Tia Mary me deu uma gaita cromática de presente. Nunca mais parei de tocar (mal, diga-se de passagem) vários instrumentos (daí no nome deste Blog).
Viagens, campismo, turismo ecológico, trilhas, caminhadas, natação, corridas e bicicleta, nem conto mais como manias.  Tudo isso faz parte, desde sempre, da minha vida. É escolha mesmo, de um estilo de vida que pratico, curto e propago.  Quem me conhece de perto, sabe  disso.  E não abro mão, há dezenas de anos.  Só abri mão, nesse ponto, de uma péssima mania: fumar.. isso eu larguei em 1978, pra nunca mais voltar. 
Com a fotografia, comecei também ainda muito pequeno, quando meu Pai me deu de presente uma câmera (não tenho certeza mais se era Agfa ou Kodak) modelo caixão.  Idem com o cinema Super-8 e depois o Vídeo ( isso desde 1970).
Literatura talvez seja a mais recente, pelo menos considerando a impressão do primeiro livrinho de crônicas (1980), outro de poemas e crônicas (2002) e mais um de crônicas (2008).
Pois dentro dessa última "mania", inclui há um ano a chamada "Literatura de Cordel".  Comecei devagar, pé-ante-pé, pisando em ovos, porque o terreno é movediço, escorregadio. Ao mesmo tempo, íngreme.  São tantos modos, tantas regras, tanta coisa por estudar e aperfeiçoar, que muita gente desiste logo de início.  Atinge-se muito menos pessoas com o Cordel do que com outras modalidades literárias. 
Mas, apesar das dificuldades, é gratificante encontrar a rima certa, manter a cadência e métrica corretas, encontrar o caminho para desenvolver bem qualquer tema, e, principalmente, viver o Cordel como ele pode e deve ser vivido.  
Como uma forma remanescente de poesia medieval, como se fôssemos um trovador dos caminhos ibéricos, um contador de histórias, um humorista sarcástico, um narrador de romances de cavalaria... Assim o fizeram e fazem os nossos grandes trovadores e poetas nordestinos, já consagrados no meio, muito embora, mais das vezes, ilustres desconhecidos do grande público consumidor de literatura.  Não por ignorância, mas por falta de maior divulgação do Cordel nos grandes centros urbanos.  Em áreas rurais, por incrível que pareça, principalmente nos Estados mais pobres do Nordeste, o Cordel é, muitas vezes, a CARTA DO ABC de centenas, milhares, dos nossos conterrâneos.  Na foto, meus primeiros e recentes cordéis editados. Quem quiser conhecê-los deixe seu email ou endereço na área de comentários, para que possamos combinar forma de envio (impressa ou eletrônica).

domingo, 27 de janeiro de 2013

UM CONCERTO A QUATRO MÃOS

Exerci na vida várias profissões.  Fui cobrador de uma Caixa de Crédito de Pesca, aos 15 anos; fui comerciário, propagandista-vendedor, bancário e músico profissional, entre os 16 e os 22 anos; fui, finalmente, arquivista-datilógrafo, advogado e procurador federal dos 23 aos 48 anos; encerrei minha carreira como músico, compositor e produtor musical este ano, depois de completar os 67.

Falei isso somente para dizer que agora, aposentado de vez de carreiras ditas "normais" estou exercendo a melhor carreira da minha vida: sou avô profissional !  Dedicado e (acho) competente avô profissional. Destes que topa qualquer parada só pra ver um neto sorrir !

Minha atual carreira começou paralela à de produtor musical e músico, há sete anos atrás, quando nasceu meu primeiro "patrão", chamado Diogo.  Aumentou neste ano de responsabilidade, com a chegada do segundo "patrão" Theo e vai crescer ainda mais em maio/junho com a chegada de mais duas "patroas": Elena e Alana.  A primeira vai nascer nos Estados Unidos, filha do meu filho mais velho e a segunda aqui mesmo, filha do caçula.

Mas isso tudo está resumido no vídeo que vem a seguir, registrando a estréia de um concertista muito esperto e dedicado.  7 meses e meio de intensos estudos na área da "trelinologia", ciência infantil que alia inventividade "trelosa" com "tecnologia" musical.

Pois é, meus caros e caras !  Curtam o mais novo fenômeno musical do Recife, o pianista Theo Vitorino, executando sua primeira e complicada composição;  Trata-se de NEBULOSIDADES, uma peça de difícil execução dedicada por ele ao seu pai, Bruno Vitorino, contrabaixista do "Nebulosa Quinteto", grupo de jazz progressivo que tem na improvisação livre (calcada numa harmonia moderna) o seu ponto forte.

Do meu ponto de vista, acho que este pianista é sério candidato ao Grammy, este ano !


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

ODE AO BODE


Galeguinho, assessor despedido injustamente

A Coluna do Augusto Nunes, na VEJA, tem uma Seção que eu adoro ler, para desopilar o fígado e comentar. Pois, antes de começar a minha ODE AO BODE, gostaria de transcrever -por oportuna- esta jóia de humor do Mestre Augusto, no citado "Sanatório Geral":

“Ele é meu assessor há 13 anos, estava fora da empresa, realizou comigo um bom trabalho, mas ele mesmo percebeu que estava gerando distorções políticas e saiu”.      Henrique Alves, deputado federal (PMDB-RN), explicando a 22 colegas num jantar convocado pela dupla Sérgio Cabral e Eduardo Paes que a empresa Bonacci, beneficiada por repasses orçamentários pelo candidato a presidente da Câmara, não era dirigida por seu assessor Aluizio Dutra, mas pelo bode Galeguinho, único funcionário encontrado no terreno que servia de sede para a firma fantasma.


ODE AO BODE

Estava tão feliz no seu emprego
e era assim um cidadão comum,
sem nunca precisar fazer jejum,
a nada conseguia ter apego.
Porém um dia se foi o sossego
e então aconteceu um remoinho,
tirando-o daquele doce ninho.
O seu patrão foi pego em enrascada,
de tanta falcatrua e marmelada...
e a culpa foi cair no Galeguinho

Um pobre bode esguio e tão branquinho,
simpático e amado pelas cabras,
tornou-se, nessas invenções macabras,
a vítima de um caso tão mesquinho
mais um a ser jogado ao Pelourinho !
E sujo, feito um chão de mictório,
saiu como quem vai para um velório,
da porta da antiga moradia,
na qual ganhou seu pão como vigia..
Tornou-se um mero bode expiatório !

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DE REPENTE, UMA CANTORIA

Nas minhas andanças pelo Brasil, volto sempre à minha terra natal, Maceió.

Av Tomaz Espíndola, Farol, a casa onde nasci
Toda vez que vou a Maceió, passo aí...
Atraído, quem sabe, pelo meu umbigo que ficou enterrado por lá, conforme é crença aqui na Nação Nordestina, gosto muito de rever aquelas praias de um azul único em todo o Brasil, de sentir a brisa morna das tardes alagoanas, sob o manto dos coqueiros cujo verde escuro contrasta com o céu azul intenso do verão e o verde azulado do mar e das lagoas.

Numa dessas muitas estadas por lá, passei uma manhã na Praia do Francês, no vizinho município de Marechal Deodoro.

E lá, com cara de turista, fui abordado por uma dupla de violeiros de praia, dfas muitas que atuam por ali, fazendo loas e cantando seus improvisos à cata de uma boa gorjeta.

Fazendo de conta que eu era de fora, deixei que eles cantassem à vontade.  Quando pararam para respirar, informei que, apesar de morar em Pernambuco desde ainda bebê, tinha nascido em Maceió, no bairro do Farol.

Não se deram por vencidos e mandaram mais uma dezena de estrofes em torno do tema.

Dada a gorjeta de praxe, partiram, sobre a areia quente e o sol escaldante para agraciar com seus versos mais um casal de turistas.


sábado, 19 de janeiro de 2013

DOIS ANOS NO AR. . E EU NEM ESPERAVA TANTO


No último dia 8 deste mês, o Blog completou seu segundo aniversário.
Com tantas tarefas a cumprir (aposentado também tem suas ocupações, hahaha) deixei "passar batida" a data .  
Dividindo a atenção entre família e casa, tenho que cuidar do Blog, da coluna no Jornal da Besta Fubana (Mascate das Lembranças) - bestafubana.com - da criação de cordéis, do estudo da música (músico burro sofre!) fui deixando pra depois falar sobre isso.
Mas a verdade é que estou muito feliz em chegar a esta marca. 
Nesses dois anos, atingimos até hoje, 62.000 acessos, o que não considero pouco para um blog pessoal bastante modesto, como o nosso.
Pra mim, "Sete Instrumentos" é aquela cadeira velha e confortável que a gente colocava na calçada da casa, nos bons tempos em que se podia fazer isso literalmente, quando a noite começava a cair, pra contar histórias acontecidas durante o dia, ou coisas do passado. 
Despertar esse interesse de um papo amigável com outras pessoas é coisa que faço com um prazer que beira a paixão.
Sinto que às vezes torno os assuntos uma questão pessoal, um abrir de coração, um dividir intimidades.
Não sei se isso é bom ou se vocês aprovam.  
Mas para mim isso representa a vontade de mostrar que gosto de vocês todos que passam por aqui. De verdade. Muito embora a distância e as limitações de transmitir emoção por uma telinha de computador ou de smartphone.  
Estatisticamente foram mais de 2583 acessos mensais, 86 diários.  Há blogs que cravam esse número num mísero segundo.  
Mas, quem quer saber do tempo aqui, se a intenção é apenas relaxar naquela cadeira de calçada e contar a cada amigo que passa pela rua virtual da minha casa, uma historinha boba, mostrar umas estrofes que acabei de escrever, umas fotos antigas ou novas, uma música que acabei de compor, dissertar sobre viagens, dividir umas emoções, tudo isso com o prazer de uma criança que ganhou um brinquedo novo ?! 
A única coisa que me interessa por aqui é ter sempre assunto pra conversar naquela calçada, sentindo a brisa do Tempo e olhando, da minha cadeira de conversador compulsivo, o movimento dos dias, dos meses e dos anos, bem ali, no leito da Avenida do Agora.  
Um abraço fraterno a cada um de vocês que me dão a honra desse papo diário pela vida afora.  Saúde, Alegria e Paz !

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

NUMA RODA DE CHORO... SÓ DE FERAS ! - PARTE 2


Dando sequência a uma série de clipes musicais que improvisadamente gravei numa reunião de chorões recifenses de primeira linha, trago hoje, em homenagem aos seus 50 anos de atividade musical profícua, o Mestre Henrique Annes, um dos maiores violonistas brasileiros, mudialmente consagrado.
Querido e respeitado por todos os músicos daqui e de fora, Henrique dispensa maiores comentários, motivo pelo qual deixo para vocês o som cristalino do seu violão e a maestria da sua arte. Prestem atenção, a partir dos 2:20, num coro de passarinhos que acompanha Henrique Annes, da varanda da casa do nosso amigo Adalberto Cavalcanti, o Beto do Bandolim.

sábado, 12 de janeiro de 2013

DESVENTURAS DE UM CURURU


 1.
Casquinho era um cururu
que não gostava de rima
porque embaixo ou em cima
nunca rimam com caju
esse final jururu
do nome que ele leva
E "aquela" rima lhe entreva,
o faz ficar deprimido
mas sendo um sapo contido,
esse problema releva

2.
Porém Casquinho teve sorte 
de encontrar nessa vida
de sapo, difícil lida, 
amigo a lhe dar suporte
E assim tornou-se forte,
um cururu respeitado,
bem tranquilo e alimentado
seu emprego era guardar
do dono do seu lugar
um pote bem reforçado.

3.
O pote era um tesouro
num lugar de seca só
pobrezinho de dar dó
ali nunca se viu ouro
Num tamborete de couro
o pote tinha seu trono
E de inverno a outono
o Casquinho vigiava
Inseto ali não chegava,
pois ficava em desabono

4.
Casquinho só na vigia
jogava a língua e pegava
todo inseto que passava
ali naquela coxia
O cururu lhe lambia,
a lingua nele alcançando
Mesmo o inseto voando
o Casquinho lhe jantava
e nunca se aperriava,
estava sempre almoçando

5.
Pois um dia o seu patrão,
que por João é conhecido,
"Caneiro" por apelido,
foi fazer sua devoção
Passando um dia em ação
de bebedor veterano,
bebeu mais do que o plano
quase perdeu o caminho,
chegou assim de mansinho,
com cara de desengano

6.
Foi direto para o pote,
bebeu água a mais de quilo,
mas entalou-se com um grilo,
que na boca deu pinote
Pois  João pegou um barrote
de aroeira, bem pesado,
vingou-se no seu criado
gritando:  " Feladaputa,
você não tá na labuta
e eu lhe trato bem tratado ?"

7.
"Cururu cabra safado
você passa a pão de ló
e aqui me engana só
sem cumprir o seu riscado
de pegar bicho avuado
que no pote queira entrar ?
Pois você vai apanhar
uma surra de cacete
é agora que o porrete
no seu lombo vai cantar"

8.
Era o cururu pulando
e o João batendo o pau
com uma cara de mau
que o sangue foi jorrando
e o sapo escorraçando
de casa botou pra fora
Casquinho sem mais demora
foi jogado no terreiro
e o cururu sem berreiro
foi se finando na hora

9.
De manhã João saiu
procura o sapo e não vê
começa a se arrepender
vendo que o sapo sumiu
disse: "putaquipariu !
será que matei meu sapo?
eu tou me sentindo um trapo
homem desqualificado"
todo desmoralizado,
foi ao pé de jenipapo

10.
Lá na árvore frondosa
um cururu estirado,
por formigas devorado,
junto à moita de babosa
Criatura tão bondosa
que outrora lhe serviu..
João de joelhos caiu
pediu perdão ao amigo:
"Cururu, que fiz contigo?"
e então no choro abriu !

11.
Essa história que eu contei,
deste mesmo jeito assim,
ouvi tim-tim-por-tim-tim
de um poeta que é Rei
um cearense de lei,
José de Oliveira Ramo,
escritor que eu aclamo,
que é grande jornalista
e também é colunista
do Jornal que frequentamos

12.
Sua coluna é bacana
se chama "Enxugando Gelo"
ali ele monta a pelo
a tal da Besta Fubana,
criatura soberana
que reina só pelos ares,
navegando sete mares,
com suas asas de aço,
medindo a régua e compasso
suas rimas e cantares.

Recife, 30.12.12
Fred Monteiro

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

NUMA RODA DE CHORO.. SÓ DE FERAS !

Anteontem de tarde, estava aqui em casa trabalhando nesta árdua tarefa de "ensacar fumaça", encangar grilo e estudar violoncello (esse arco de cello ainda me bota doido), quando toca o telefone.
Era o meu amigo Bozó (Ewerton Sarmento, gente da melhor espécie):

Beto do Bandolim comanda a Roda.
- Fred, estás em casa?
- Claro, Bozó.. E eu não me aposentei de novo ?  Até vendi meu Estúdio pra você, rapaz!
- Se não estiver fazendo nada, vem aqui pra casa de Beto do Bandolim que a gente vai começar uma roda aqui..

[Beto (Adalberto Cavalcanti) foi assunto de recente post aqui no Blog.]

- Beleza, Bozó.. vou consultar minha Agenda.. peraí... hmmm.. Rapaz, tou com sorte ! Nenhum compromisso pra hoje... chego já, visse ?

E cheguei mesmo.  Foi só descer o elevador, caminhar até o portão do Condomínio, seguir pela calçada, dobrar à direita, continuar pela mesma calçada, atravessar a rua (ainda não asfaltada, vento soprando, mangueiras carregadas, passarinhos cantando) e chegar lá.  Esqueci de dizer. Eu e Beto somos quase vizinhos, aqui no Poço da Panela, um pedaço de Natureza encravado à beira do Capibaribe, que corre manso, bem pertinho dali.

Cheguei.  Surpresa !!  Beto e Bozó trouxeram pra pandeirar no choro, o nosso amigo João Araújo, Físico, poeta e pandeirista, chorão das antigas, embora tenha a mesma idade do meu filho mais velho.  Aliás, tocaram juntos, Fred Filho no bandolim, no tempo de estudantes da UFPE.  Gente fina demais.. vive atualmente na Alemanha.

Começamos os trabalhos.  Muita conversa, muito abraço, uma cerveja gelada e tome choro !  Daí a pouco chegou o Mestre Henrique Annes, meio século de violão pernambucano de nível mundial, recentemente comemorado no Teatro de Santa Izabel.  Pronto, a roda estava completa.  E Beto começou com um choro de Henrique (Angelical, dedicado à sua esposa Angélica)..

E daí pra frente foi choro até a noite chegar. Confiram no vídeo e depois me digam se eu não sou um cara de sorte, por ter amigos músicos deste nível.  E ser vizinho do Beto do Bandolim...  Vem muito mais por ai, dessa roda e de outras que combinamos fazer.  Aqui pertinho, ouvindo os passarinhos, o bandolim de Beto, o violão de 7 cordas de Bozó, o violão de Henrique Annes e o pandeiro de João, enquanto ele estiver no Recife.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

SEMPRE JUNTOS, MEU PAI !

Faz três anos que perdi o meu melhor Amigo.
O meu mais justo Conselheiro.
O meu Guia e meu Exemplo de Vida.
Seu nome, que originou o meu, como ele me originou, é Frederico.
Não, não morreu.
Retiro o que disse aí em cima: eu não o perdi.
Ele está sempre comigo, no meu coração e na minha alma.
Nos meus sonhos e nas minhas tarefas do dia-a-dia.  
Paizinho, você jamais morrerá.
Estaremos sempre juntos, meu Velho.
Neste ano e em todos os anos que virão.
Para o que der e vier.
Muito obrigado por ser seu filho.
Eu nem merecia tanto.



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

CRÔNICA PARA UM ANO QUE SE VAI




O ano agoniza.  Cai, desfalecido, céu abaixo, amortecendo a queda num colchão de nuvens. Da minha janela eu observo tudo. Saudade dos momentos bons, também dos momentos tristes.


Duas faces da mesma moeda, duas texturas diversas da mesma massa que nos modela: sentimentos.  Sentimentos, o motor dos humanos. Animais, dizem alguns, também os têm. Mas, penso eu, não tão exacerbados quanto os humanos (os seres e os Sentimentos).

(E, apesar de tudo, o ano agoniza.)

Vai embora, aos pouquinhos, sem pensar na gente. Cumpre sua rotina:  amanhecer, anoitecer, amanhecer, anoitecer, amanhecer.. 
O ano resume-se em cada dia que lhe cumpre existir. Amanhece a primeiro de janeiro, anoitece a trinta e um de dezembro. 

(E, apesar de tudo, o ano agoniza.  E agonizamos nós, solidários.)





Cada dia nos acrescendo bons e maus momentos. Não maus de todo. Tristes, apenas.  Tristes momentos de que temos até saudade. Cada dia, sua agonia. Cada dia, um fio de cabelo branco, um segundo que se foi.  Desperdiçado, algum.   aproveitado, outro.


Todos passando, todos desfalecendo, todos agonizando.

Negro, o céu agora.  Em repouso mortal.  
Para ressuscitar em janeiro.  Sob o barulho dos fogos, sob o clarão do Ano Novo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

VENDE-SE JESUS




"Vende-se Jesus."
Sintomático.  Misturam-se as coisas, no Natal de hoje.
Vende-se o Natal, vendem-se os sonhos, vende-se a alma.
Qualquer coisa tem seu preço, incluindo a virgindade leiloada.
Incluindo a honestidade e os princípios morais.
Quem dá mais por um deputado ?  quanto vale um Senador ?
Compra-se e vende-se de tudo neste mundo corrupto.
Vende-se a alma.  Não faltam Luciferes compradores.
A preço de banana...ou de uma pedra de crack.  
Vendem-se ilusões a granel.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 13 - ERALDO LEITE E MADEIRAS DO ROSARINHO

Há exatos 10 anos, o meu caro amigo Eraldo Alves Leite, Sociólogo, concluía seu Curso de Ciências Sociais, na Universidade Federal de Pernambuco.  Apaixonado pelo Carnaval recifense, Eraldo foi um dos grandes colaboradores do Bloco Flor da Vitória-Régia que lhe deve a maior parte do acervo filmográfico, bem como excelentes fotografias dos desfiles que ele acompanhava com devoção.

Estudioso da Cultura Popular, Eraldo esmerou-se numa pesquisa de campo à qual juntou farta documentação, entrevistas, vídeos e fotografias, tudo isso resultando num precioso documento enfeixado no seu trabalho sobre o mais conhecido e amado Bloco Carnavalesco Misto do Recife, "Madeiras do Rosarinho".

Como fio condutor do seu trabalho, Eraldo dissecou com precisão cirúrgica os elementos formadores desse "mythos" do Carnaval recifense e pernambucano, o frevo de bloco "Madeira que o Cupim não rói", composição de Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa).

A música tem origem no Carnaval de 1963, em decorrência do resultado do Concurso Carnavalesco daquele ano, em que o BCM Madeiras do Rosarinho perdeu o campeonato para o seu arquirival  "Batutas de São José".
Depois de concluído o trabalho, Eraldo, com suas muitas horas de gravação de vídeo, procurou-me no F STUDIO, para fazermos a montagem do documentário que agora, com sua autorização, reproduzo aqui.


Comemoramos esses 10 anos com muito orgulho, porquanto sabemos registrada para a posteridade esse belo trabalho de pesquisa e essas imagens com toda a sua pureza documental que a gente simples do bairro de Rosarinho, no Recife, construiu com muito amor pelas cores do seu Bloco que há oitenta e seis anos incendeia corações pelo Recife afora.

sábado, 15 de dezembro de 2012

ACAMPAMENTO FRUSTRADO

Trailer Turiscar Briliant
Quando estudava em Baturité, no Ceará, participei ativamente de caminhadas longas pela Serra, no grupo de escotismo improvisado na Escola, e tomei gosto pelas atividades ligadas à Natureza, coisa que até hoje me fascina e que pautou toda a minha vida, nisso incluído haver viajado por todo o Brasil, com meus filhos, praticamente sem ocupar um quarto de hotel, somente acampando, quer em campings organizados, quer em áreas de praias e montanhas, quer usando um trailer ou barracas simples de lona e nylon.
Conheci assim os principais pontos turísticos e as atrações naturais dos Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Goiás e Distrito Federal.
Aos demais, minhas viagens foram feitas por avião, dadas as distâncias enormes que nos separam deles.
Esse amor pela terra brasileira está bem solidificado em toda a minha família e cada vez me sinto mais apaixonado por esta pátria tão cheia de contrastes e ao mesmo tempo tão farta de beleza, de sol, de música e alegria.
Nas férias de 57, quando voltei do Ceará, após um semestre afastado de casa, resolvi acampar no fundo do quintal, embaixo de uma frondosa mangueira.
Passei uma corda do seu tronco para um cano grosso de ferro das pilastras que sustentavam o telhado lateral da casa, deixando-a bem esticada e por sobre ela lancei um cobertor de lã axadrezado, de casal, que "tomei emprestado" do varal onde secava.
Era de tardinha, por volta das 5, o sol já querendo se recolher, e o pessoal estava todo lá pela frente, de forma que "trabalhei" muito tranquilo na execução dos meus planos para armar minha tenda.
Esses planos incluíam uma ação meio nefasta, qual seja: armado de umas seis estacas de madeira, com cerca de um palmo cada, afiadas com faca de cozinha e originárias de um cabo de vassoura quebrado, passei a enfiá-las no cobertor, fixando-o no chão de terra do quintal e furando um buraco de bom tamanho, a cada estaca que batia.
Isso posto, com a minha cabana triangular perfeitamente esticada e fixada ao chão, providenciei um piso muito confortável: uma esteira de piri-piri, de propriedade de minha madrinha Dedé que, também desconhecendo a minha expropriação, ajudava Mãezinha com os pequenos, lá na frente da casa.
E prosseguia minha "trela"... fui ao quarto e, de cima da minha "cama patente" Faixa Azul, arrastei o colchão de palha seca, revestido de um tecido rústico de algodão listrado de azul, vermelho e branco, numas tonalidades meio desbotadas, creio que pela economia de tintura na fábrica de tecidos que o distribuía.
Colchão de palha..ô tempo bom ! 
Colchão em cima da esteira, fechei as abas da barraca com duas toalhas de banho e, calado, fui pra sala jantar.
Como já estava escuro e ninguém mais achou de ir até o fundo do quintal, naquela hora, meu "acampamento" ficou lá, camuflado pelas sombras da noite.
Terminada a ceia, anunciei meu segredo: iria acampar no fundo do quintal e, solenemente, pedi a Paizinho a permissão.
Ele, não contendo o riso, a concedeu e acrescentou:
-Vá, meu filho..mas se o medo apertar de noite, pode bater na porta que eu abro a casa pra você.
Fiquei feliz pelo voto de confiança e, muito ancho, recolhi-me ao meu acampamento particular. Por via das dúvidas, levei uma lanterna de pilhas, que naquele tempo a gente chamava de "flash-light" e era de metal cromado, da marca "Eveready".
lanterna eveready das antigas 
Valentemente fiquei lendo alguma coisa à luz da lanterna, até o sono chegar, enquanto escutava os risos dos irmãos, som que aos poucos foi sendo substituído pelo chiado dos grilos e miados de gatos da vizinhança; mais tarde, apenas um ou outro latido de cachorro e - distante- o assovio agudo e tranquilizante do apito do guarda-noturno.
Não sei se cheguei a dormir... acho que cochilava quando, de repente, um piado de coruja ou bacurau me fez arrepiar todo e saí em disparada pelo quintal, batendo várias vezes na janela do quarto dos meus pais.
Paizinho, que estava acordado, esperando mesmo este momento, abriu a porta da casa e me ajudou a botar o colchão pra dentro.
Chato foi ter que aguentar as gozações do dia seguinte, acompanhadas do jogral da irmanzada:
- "Escoteiro de marca fobó, que mija na cama e diz que é suor"....
E eu, que havia até pensado numa desculpa bem conveniente para a desistência, esqueci meu imaginário "gato-do-mato quase do tamanho de uma onça", que seria meu álibi para a corrida de volta ao sossego das quatro paredes de um quarto, sorri amarelo, disfarcei e entrei no coro.

(do meu livro de crônicas "Caçador de Lagartixas")



segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

CORDEL - A TRISTE HISTÓRIA DO PINTO ZÉ



1.
Morava lá nas Queimadas
a Raimunda Buretama
mestiça trabalhadora
e que por ali fez fama
 "cevando" sua mandioca
deitando galinha choca
vivendo a vida sem drama

2.
Raimunda sempre dizia
que pra galinha chocar
e sem perder nenhum ovo
teria que acobertar
onze ovos, nada mais
pros pintos nascerem em paz
e em galinhos se tornar

3.
Certo dia, nesse afã
sentindo-se "afuleimada"
e conforme ela dizia
com "a priquita queimada"
sem querer, na conta errou,
doze ovos arrumou
no ninho atrás da latada 

4.
Ela tanto conhecia
seu ofício, que gostava
de botar nome nos ovos
que a galinha chocava..
e o ovo Zé sobrou
pois quando ela recontou
do ninho logo o afastava

5.
Mas, a galinha, sabida
uma mãe muito amorosa
empurrou o Zé pra dentro
da quenturinha gostosa
e chocou a dúzia inteira
o Zé foi, na brincadeira,
chocado pela penosa

6.
Cismada com suas contas
Raimunda foi conferir
de novo contou os doze
e de novo fez sair
o Zé de dentro do ninho
foi parar, o coitadinho
na "cesta de consumir"


7.
E quando os pintos nasceram
Raimunda fez um almoço
matou uma galinha gorda
que era só carne, sem osso
e serviu para o marido
aquele ovo escolhido
que foi frito sem sobroço

8.
Foi quando um pintinho saiu
piando com alarido
até encontrar o ovo
no prato lá do marido
Piava de fazer dó
que a Raimunda ficou só
lhe dando o maior "sentido"

9.
A Raimunda ouvindo o pinto
piando sua latomia
começou a chorar tanto
que chega dava agonia
traduziu na mesma hora
isso tudo, sem demora
o que o pinto dizia

10.
O marido da Raimunda
ficou triste como que
quando a mulher lhe falou
o que o pinto quis dizer :
" Zezinho, fala comigo!,
meu irmãozinho, meu amigo,
que saudade de você !"

11.
Esse drama de novela
aconteceu tal e qual
estou contando a vocês
e eu choro de passar mal
quando lembro que o Zé
não foi um pinto qualquer
d'uma tragédia rural

12
Essa história foi contada
a mim, desse mesmo jeito,
pelo amigo José Ramos
Cabra de muito respeito
morador de Imperatriz
E tudo o que ele diz
pode crer: é sem defeito !

Recife, 10.12.12
Fred Monteiro

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MEMÓRIAS DO FSTUDIO - 12- FRADE E FRED


Ele era baixinho, careca e meio gordinho.  Idade, por volta dos 80 anos.
Estava parado num ponto de ônibus defronte à Praça de Casa Forte.
Eu tinha acabado de sair de casa e ia fazer uma caminhada até o centro da cidade, para o estúdio.
Começou a chover e fui me abrigar na marquise do ponto de ônibus.
O Frade, vim saber depois, era apelido. Seu nome era José. Um cara muito engraçado e de fala e sorriso fáceis.
Começou uma conversa.  Contou que estava meio perdido. Tinha ido a uma consulta num posto de saúde próximo,
teve vontade de andar e vinha meio sem saber onde estava, até começar a chuva. Aí, ficou naquela parada esperando
o primeiro ônibus que fosse para o centro da cidade.
- Eu vou pro centro e pego um ônibus para o bairro de San Martin.  Na hora que chegar chego bem, porque minha velha fica até feliz quando eu estou fora de casa. Ela diz que eu perturbo muito.
Eu já achei o velhinho simpático e sorri do seu bom humor.  Era cego de um olho (hoje a gente tem que chamar deficiente visual, que saco!)
Mas estava feliz como um menino levado e começou a cantar baixinho uma marchinha.  Em certo ponto, parou.  Aí voltou com a carga toda:
- Tá ouvindo essa música?  Eu comecei a fazer.  A letra eu sei todinha, mas a música mesmo eu não sei como termino. Só tem esse pedaço.
Interessei-me na conversa.
- E o senhor é compositor?
- Nada.  E eu sei lá o que é isso ? Eu faço umas coisas e invento umas poesias. às vezes eu termino, às vezes não.
E eu:  - E por que o senhor não grava, pra não esquecer ?
- Ah, meu filho, e eu lá tenho dinheiro pra isso?
- Mas eu tenho um estúdio de gravação.  Se quiser gravar, terei o maior prazer. Gostei muito da sua marchinha.
O velhinho acendeu o olhar.
- Tá brincando comigo ? 
- Nada.. e eu sou de brincadeira.  Se quiser gravar, vamos lá no Estúdio e gravamos. Depois eu dou um acabamento e o senhor não esquece mais sua música.
- De graça?
- De graça, claro. Não sou eu que estou oferecendo o estúdio?
- Ave Maria, meu fio ! De graça até injeção na testa. Agora é que eu vou virar artista mesmo.
Chega o ônibus.  Entramos. Eu pela porte de trás, porque naquele tempo ainda não era idoso (tinha 55 anos), ele pela porta da frente, com a carteira de identidade na mão, feliz da vida.
Nos encontramos novamente no corredor.
Traçamos os planos.  Ele cantaria a parte que sabia da sua música, eu completaria o que faltava de melodia para o restante da letra e faria os arranjos.
Já no Estúdio, Frade soltou a voz e cantou.  Eu peguei o violão, compus na hora o restante da melodia, na intuição mesmo, em cima do que ele já tinha feito.  Passamos o resto da manhã fazendo as bases com a sanfona (teclado) e o ritmo (zabumba, triangulo, reco-reco e agogô).  Na hora  de cantar o Frade rejeitou a parada.  Não tinha jeito de afinar. Tentamos muitas vezes, mas cadê ritmo e afinação ?  Não deu...
- Deixa comigo, Frade, eu canto.
De tanto repetir, eu já tinha decorado melodia e letra e mandei ver.
Mas eu queria gravar a voz do novo amigo.  Afinal, o tempo todo ele falava:
- Minha velha não vai acreditar que eu agora sou artista e gravei minha música !  Eu quero ver a cara do pessoal lá da rua, quando ouvir essa música no Rádio.  O senhor conhece alguém de Rádio pra tocar minha música ?
- Conheço, Frade... Fique tranquilo. Vou levar seu disco para a Jovem Cap e para a Rádio Universitária, no programa de Ivan Ferraz. Agora você é um artista de verdade !
E inventei um diálogo que gravamos e depois mixamos, com os solos no meio e no final da faixa.  Tudo improvisado também.  Afinal, o que eu queria era ver o velhinho feliz.
E está aí o nosso trabalho. A voz dele fica meio ininteligível, no diálogo, mas parece muito com a do personagem "Coronel Ludugero" de saudosa memória.  Matutão desenrolado, o Frade ainda passou várias vezes lá pelo Estúdio.  Conversamos e rimos muito da sua aventura musical.  Levei, efetivamente, o Frade e seu disco para a Jovem Cap e o apresentei a Carminha Pereira, proprietária da emissora e animadora de diversos programas.  Ela adorou a figura.  Ivan Ferraz também.  Enfim, o Frade tocou bastante naquele São João e nos que se seguiram.  Faz tempo que não o vejo, e espero que ele esteja bem.
Como ele próprio diz, no final da música, com toda a alegria de quem está de bem com a vida, apesar de tudo :
- É, Compadre Fred. Agora vai... vai e vai bonitinho !!!






quinta-feira, 29 de novembro de 2012

NÃO É POR SER MINHA FILHA NÃO, MAS...

Tatiana fazendo de conta no contrabaixo

Se eu fosse publicar aqui somente minhas besteiragens musicais e poéticas, eu estava era ferrado!  Porque, aqui pra nós, não tenho mesmo muito o que mostrar.
Por outro lado, tenho... e é prata de casa, digo melhor, ouro de casa, no caso, meus filhos artistas.  Artistas, vírgula !  Artistas amadores, mas amadores competentíssimos.
Tatiana, cantora, poetisa e compositora festejada e premiada em alguns Festivais de Música.  
Fred Filho, bandolinista e cavaquinista, também compositor, também premiado em Festivais.
Enrico, saxofonista (alto) e flautista, compositor, arranjador e pianista.

Fazer o que?  Ora, mesmo a contragosto deles, que não gostam de aparecer, feito eu, que sou muito "amostrado", vou passar a trazer aqui, de quando em vez, alguma coisa do trabalho deles.

Feito esse clipe, que faz parte de um DVD amador que produzi, filmando com duas câmeras (uma fixa e outra na mão fazendo "takes" de outros ângulos,  e fazendo a edição em casa mesmo.  

Este "show" que ela fez, com a antes denominada Bande Ciné (hoje Bande Dessinée), aconteceu num espaço bacana, o Teatro da Livraria Cultura, onde apresentações de muito bom gosto e para um público seleto sempre acontecem.  Foi em 2007, outubro ou novembro, não estou bem certo.  O repertório da banda era bem eclético, com músicas dos anos 60, a maior parte  do repertório de artistas franceses, italianos, alguma coisa de música latina, também. 

Um detalhe, neste clipe, é curioso: A cantora DALIDA, que fez uma famosa dupla com Alain Dellon, não pronunciava corretamente a palavra "PARÔLE" (em francês, palavra, mesmo.)  Talvez por conta de sua naturalidade (egípcia) tinha dificuldade de falar o "R" dobrado ("parrole").

Mas assim ficou e todas as suas gravações e apresentações.  E Tatiana, fiel à pronúncia da Dalida, assim também o fez.  Esquisito, mas faz parte da História, já.

Curtam, então, o som dessa excelente Banda e a voz limpa e afinada da minha maior Musa, Tatiana, mãe de Theo, neto querido, e esposa do Bruno, que faz o contrabaixo elétrico (embora prefira o acústico, que também domina à perfeição).

E depois não me digam que eu sou CORUJA..  Podem me chamar de CORUJÃO, mesmo !




segunda-feira, 26 de novembro de 2012

MEMÓRIAS DO FSTUDIO - 11 - BETO DO BANDOLIM

Beto do Bandolim, em ação

Um grande amigo, um imenso músico, compositor, arranjador e, mais que isso tudo, um grande ser humano.
Gravei 3 CDs com o Beto do Bandolim (Adalberto Cavalcanti) e em todos eles me surpreendi com a qualidade da sua execução.  Beto é, sem dúvida nenhuma, um dos maiores bandolinistas do Brasil.  Além do que, como compositor, escreve belíssimas páginas musicais em todos os gêneros, dedicando-se principalmente ao chorinho e ao frevo.

Campeão de Festivais, agenda cheia o ano inteiro, Beto toca e compõe de tudo e na área da música nordestina é muito solicitado para gravações, o que faz com perfeição, sempre.

Quando inventei o Bloco Cinema Mudo, Beto entusiasmou-se com a idéia e saiu conosco fantasiado de "Carlitos", brilhando com seu bandolim pelas ruas do Recife Antigo.  Um perfeito ator, reproduzindo todo o gestual e até as características físicas do Mestre Chaplin, do qual é fã confesso.

No Bloco Cinema Mudo (Beto é o Carlitos, à direita)
 e da esquerda para a direita eu, (o Magro),
a melindrosa Dalva Torres e  Fred Filho (o Gordo)
Gravamos os CDs " Um Bloco em Poesia ", "Inspirações" e  "Felix Silva - Cantando com o Coração", um disco de seresta co-produzido por nós e que contou com a participação brilhante de Dalva Torres, Henrique Annes, Bozó 7 Cordas, Valdemir Silva (flautista), e outros feras da música pernambucana.

O que mais gostei de ter feito, foi Inspirações.  Um dos primeiros trabalhos autorais de Beto, contendo frevo-de-rua, valsa, maxixe, xote, baião, seresta e polka.  Inspirações, que deu nome ao disco é um choro fantástico que ele fez em parceria com o imortal Rossini Ferreira, que escreveu a segunda parte e o qual reproduzo aqui.  


O frevo-de-rua, foi um presente que o Beto me deu e do qual muito me orgulho.  Chama-se  "Pé-de-Vento" , apelido que ele me concedeu, por conta da minha condição de Maratonista. É um frevo de execução bem difícil, dada a intensidade do ritmo, que Beto sabe explorar muito bem, calcado nos poucos frevos para bandolim de autoria do imortal Jacob.  Reproduzo-o, a seguir.


Dos tempos da minha primeira sala (aquela foto de cima já foi feita na mais recente), tenho esta foto com o Beto e seu bandolim e eu, dando uma da flautista, coisa que nunca fui (mas que tive vontade de aprender esse instrumento, isso tive!)

Bandolinista de ouro e Flautista de araque
Somente para provar que não estou exagerando quando digo que Beto é um multi-artista, mostro aqui um outro presente especial: a minha caricatura (ele é exímio caricaturista e se diverte desenhando os colegas enquanto espera sua vez de gravar).  Fiz uma montagem do desenho sobre a partitura da melodia, devidamente oferecida, como vocês podem ver aí abaixo.

Parti-cari-catura
Resumindo, um dos grandes momentos do FSTUDIO com Beto, foram vários, porque além dos seus discos  o meu querido amigo Adalberto Cavalcanti foi assíduo frequentador do meu modesto estúdio, tocando dezenas de vezes com os conjuntos e Orquestras que comigo gravaram.

sábado, 24 de novembro de 2012

UM XOTE NA PRAIA (UMA PARCERIA FRUSTRADA)

Lagoa do Mundaú-AL
Um dia desses publiquei aqui um post que é um dos mais lidos do Blog, onde eu conto a história de minha música "Travesseiro de Macela".Só que eu não contei a história completa. Por que? Para não falar sobre uma parceria que morreu no nascedouro. Eu explico. Tatiana, minha filha, que é uma poetisa de primeira, cantora, compositora, advogada, e mãe do meu querido neto Theo, tinha feito um poema falando sobre a casa que ela gostaria de ter numa praia imaginária. Achei que o texto tinha um ritmo pra lá de gostoso que me lembrou desde logo um xote. E, depois da primeira leitura, já comecei a reler o poema cantando e e batucando com os dedos o ritmo. Para fazer surpresa, gravei de maneira bem simples o "nosso" xote e à noite, em casa, botei pra tocar. Tati realmente tomou um susto, ficou meio sem jeito mas, sincera como sempre foi me disse que não era bem num xote que ela tinha pensado e que fez o poema na brincadeira, sem a menor intenção de divulgá-lo. Eu entendi e disse a ela que também tinha feito a gravação somente para agradá-la, sem intenção de divulgar. Mas, passados mais de 12 anos, acho que ela não se importará se eu mostrar a vocês a sua "casinha na praia". E aqui pra nós: eu bem que forcei a barra, porque xote e praia não têm mesmo nada a ver, um com o outro. É como surfar lá na Praia da Joaquina, (Joáca, para os íntimos) , em Santa Catarina, vestido de vaqueiro...


 CASA NA PRAIA
(Tatiana Monteiro)


Quatro quartos, um banheiro, uma cozinha
Meu amor, duas salinhas: a do som e a do café
Um terracinho, a varanda com a rede
Encostado na parede um distinto canapé
Pelo chão, meu violão e mil tapetes
e um quadro de bilhetes, de cortiça, feito à mão
Na  minha casa, lá na praia, que sossego
vou contar-te meus segredos,
ver minha constelação

Ter as estrelas e o mar como vizinhos
Acordar com os passarinhos,
se não despertar te chamo
E no meu quadro, branco e verde, de bilhetes
vou pregar com alfinetes
um recado, que te amo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

55.555



55.555...
Número mágico.  Cinco números 5.  Na fila, feito menino entrando em sala de aula, com a mão no ombro do menino da frente, marchando e cantando alguma cantiga antiga e saudosa.

Um sorriso na carinha gorda, de bochechas avermelhadas. Uma mão no ombro, outra segurando a lancheira.

Mas, que história é essa ? 
Acho que a imagem infantil voltou à tela mental, por conta do mais novo poema do Mestre Jessier Quirino, que acabo de ler, intitulado "Merenda Corriqueira". Que, por sinal, termina assim:

"A mais doce ventura desta vida
É a lancheira, os recreios e a lição."


O número apareceu na tela do computador, hoje de manhã;  na verdade o que apareceu, logo que eu entrei no Blog foi o número 55.552.  

Fiquei ligado.  Ansioso e como se dizia antigamente, "com um olho no padre e outro na missa".  
Lia um dos muito emails e voltava de quando em quando para a página.  Numa dessas voltas, está lá estampado o número mágico.  55.555 acessos.  

Gostei tanto, que mandei logo um "print screen", copiei a tela pelo "paint" e  aí em cima está o arquivo para a posteridade. 

Mais uma vez agradeço a vocês.  Afinal, foram 55.555 vezes que me concederam a honra de suas visitas.
Eu queria muito estar "ligado" de novo, no dia em que o contador marcar 555.555 ou 5.555.555, o que já é
pedir demais... 

Mas 55.555 é um número único, uma filinha de cinco cincos, de mão esquerda no ombro do colega da frente e mão direita segurando a lancheirinha de lembranças. 

Muito obrigado a todos !

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MINIBEE



A abelhinha era menor que uma mosca.

A flor, menos de um centimetro de diâmetro.

A lente, sim,  foi uma macro-zoom. 

A paciência também foi macro.

Uns cinco ou seis minutos esperando que ela  parasse um pouco até eu conseguir enquadrá-la e, finalmente, fazer este registro.

Mas eu acho que valeu a pena e divido com vocês.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

CASA DE FARINHA




















Eu nunca participei
de festa de farinhada
Porém já vi num terreiro
debaixo de uma latada
em redor do forno quente
um meio mundo de gente
entretida na empreitada

É homem girando a roda
É mulher que vai rapando
É mandioca moendo
e outras vão peneirando
e enquanto a lenha esquenta
um cheirinho bom aumenta
e a farinha vai secando

Como eu sou um praciano
que nasceu pela cidade
sigo assim bem satisfeito
com toda felicidade
de provar dessa receita
tão gostosa e tão perfeita
branca preciosidade !

A raiz da mandioca
produz a farinha fina
mas se tem coisa que eu gosto
é do olhar da menina
desencaroçando a goma
depois sentir o aroma
da tapioca divina

Com um pouco de manteiga,
com queijo ou coco ralado,
purinha mesmo, bem quente
como até ficar impado
Mas pra ficar na medida
ela tem que ser servida
com café bem caprichado