domingo, 20 de maio de 2012

O RECIFE AINDA É VERDE

Da Índia para o Poço da Panela - azeitonas ou jamelões

Verde e calmo. Dentro do possível, claro.
Ao lado da minha nova varanda, há uma azeitoneira povoada de pássaros de toda espécie.

Para quem não sabe, a azeitoneira a que me refiro é um pé de Jamelão, ou jambolão.
Aqui no Nordeste é conhecido como azeitona preta, esse fruto delicioso que já me lambuzou as roupas, para desespero de minha mãe, quando eu era menino, e pintou de roxo minha língua de moleque do Poço da Panela e de Casa Forte.

Pois durante 31 anos morando no Poço da Panela (entre 1955 e 1973, (com meus pais) e entre 1977 e 1991, (na minha primeira casa, um pequeno duplex que comprei pouco depois de casar), alimentava sempre o desejo de voltar ao Poço.

E voltei. Como diria Roberto Carlos, voltei para ficar, pois aqui, aqui  é o meu lugar...

Sabiá, um canto e tanto !

Por outro lado passei exatos 21 anos morando em Casa Forte, bem junto à Praça e atrás da Matriz (um endereço bem comum em vilazinhas do interior.  Toda cidadezinha pelo Brasil afora tem uma praça e uma igreja, não é mesmo?.

Socorro-me da Wikipedia, para resumir o Poço da Panela:

Eu te vi  (e te ouvi, também !)

“O Poço da Panela surgiu por volta do séc.XVIII, pertencia as terras do Engenho Casa Forte. No início era um simples povoado em meio às grandes plantações de cana-de-açúcar, porém a partir de 1746 este perfil começou a ser modificado. Naquele tempo uma grande epidemia possivelmente de cólera) tomou conta do Recife e alguns médicos divulgaram que os banhos, durante o verão, no trecho do Rio Capibaribe que banhava a povoado, eram um milagroso remédio no combate à doença. A notícia se espalhou muito rápido e fez com que essa região começasse a ser frequentada pelos ricos do Recife, que logo construíram ali casarões de veraneio. O povoado cresceu e em 1772 ganhou uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Saúde.”

Hora do lanche do frei-vicente (Tangara cayana)
Mas, o que me interessa hoje, em meio à paz desta manhã de domingo, é mostrar para vocês essas fotos dos meus vizinhos de moradia.

Na paz verde do Poço

Eles na azeitoneira, eu na varanda, câmera na mão, atento à folhagem, coisa de um mês atrás, bisbilhotando suas vidas simples e felizes.

Então, flagrei-os na hora da refeição ou dos ensaios de canto: freis-vicentes, bentevis, sabiás,  estão aqui presentes.  Mas eu já presenciei ariscos sanhaços, sibitos, bicos-de-lacre, um gaviãozinho amarelo, um bando de maritacas (essas somente voando por perto, no seu alarido característico) e um carcará que toda tarde aparece no teto do bloco vizinho.

(Agradeço ao Professor Galileu Coelho, Ornitólogo, pelos ensinamentos preciosos sobre os pássaros de Pernambuco)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

BUSCANDO AS RAÍZES – BEZERROS É CULTURA

Um dia desses tomei o rumo de Bezerros, aqui pertinho do Recife, para beber um pouco das nossas raízes culturais. Em Bezerros, a tradição e o artesanato comandam as atividades o ano inteiro. Do Mestre J.Borges e sua operosa família, surgem trabalhos belíssimos de xilogravura e cordel.

A tradição dos Papangus, no Carnaval, dita o ritmo da cidade, atraindo milhares de turistas do Brasil e do Exterior. O Centro de Artesanato é um capítulo à parte, muito bem cuidado, apresentando sempre exposições de muito bom gosto e variedade. A Serra Negra, além da beleza natural, também guarda sempre surpresas culturais inesquecíveis, principalmente em Junho, tempo de muito forró, coco e xaxado, em meio a uma natureza exuberante e um clima com temperaturas mais baixas nas suas montanhas.

Um passeio que vale sempre a pena ser feito, no mínimo para matar a saudade das coisas da terra nordestina. Quem é de fora não perderá tempo e além de apreciar e comprar peças dessa rica cultura popular, terá oportunidade de conversar com os artesãos, sempre muito solícitos com quem lhes procure. Sendo ou estando de passagem pelo Recife, não deixe de visitar Bezerros, cidade cultural por excelência.

Abaixo uns fragmentos em vídeo do meu último passeio por lá. No final, ainda testei uma rabeca bem artesanal. Música de fundo de um artista do pífano, o Gilson do Pife, de Bonito-PE.

Divirtam-se !



quarta-feira, 2 de maio de 2012

CORREDORES E "CORREDORES"

No camping, à véspera da Maratona da Paraíba
Existe um blog direcionado a corredores de rua, mantido pela revista Veja e escrito por um jovem professor de educação física. Deve ter uma boa aceitação, vez que é vinculado a uma das maiores e mais conceituadas revistas brasileiras, da qual, aliás, sou assinante.
Decepcionado pela falta de resposta a um comentário meu (sinal de que o jovem mestre não é lá muito de aceitar críticas, mesmo fundamentadas, reproduzo-o aqui no meu blog.
Muitos dos meus leitores por certo discordarão de mim. Não sei se o professor sequer vai tomar conhecimento deste post agora publicado, mas com certeza, como todo blogueiro, leu e (como alguns avessos ao princípio da livre opinião dos seus leitores) deve ter meditado sobre ele. E achado por bem jogá-lo na lixeira virtual.  Julguem vocês mesmos se tenho ou não razão em rebater semelhante afirmativa (ao que tudo indica, feita com certa revolta – vide o ponto de exclamação na manchete.  A propósito, o título do tal artigo era “PRATICAR CORRIDA: ISSO JÁ FOI MAIS BARATO ! “ 

Com minhas desculpas antecipadas ao jovem colunista, este foi o artigo mais ridículo e sem fundamento que li na minha vida de corredor de rua.

Chegando na I Maratona do Recife

Referir-se à corrida como esporte caro é no mínimo um contrasenso. Creio que o post visa a despertar polêmica mesmo, senão vejamos: a corrida é o ÚNICO esporte que você pode praticar sozinho, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar, de qualquer cidade ou região do mundo. Desde que você esteja vestindo (pra não ser preso por nudismo) um mero calção, até mesmo descalço você pode correr sem malefícios maiores para a saúde. Desde que esteja bem alimentado (o que não significa entupir-se de “produtos para corredores” e líquidos miraculosos que não chegam aos pés da boa e velha água potável, você pode correr a vida toda e gerar saúde para si mesmo e estimular seus semelhantes a fazerem a mesma coisa. O que ocorre, meu caro, é que querem tornar a corrida um esporte comercial, que rende lucros inimagináveis para fábricas, produtores de qualquer coisa vendável a uma multidão de “corredores da moda”, gente que quer correr porque hoje correr é chique, dá status e aumenta a sensação de prestígio na sociedade. Estou falando, agora, dessa corrida fashion, com academias promovendo seus "personal trainers" e outros berloques completamente desnecessários à atividade. Quem quiser correr, a qualquer hora pode simplesmente levantar-se da cadeira, colocar um pé à frente do outro e iniciar o movimento mais antigo que o homem realiza desde que se pôs sobre duas pernas e ergueu a coluna. Sou corredor há exatos 29 anos e um mês. Ajudei a fundar um clube de corredores aqui no Recife, o CORRE, defendo a corrida como atividade básica e não como esse “esporte” de que o nobre colunista fala, com medalhinhas, chips, tênis que valem fortunas, “maratonas” de 5 quilômetros e que ainda admitem “revezamento”.. Tenham dó ! Acho que a “popularidade” da corrida não interessa à atividade física mais básica, mais barata, mais popular, mais simples, tanto que era praticada pelos pré-históricos, quando saiam das suas cavernas para correr atrás da caça ou entravam nelas pra fugir dos predadores. Se o enfoque de corrida que tem a sua coluna é esse, perdão: entrei na caverna errada ! Grande abraço e boas corridas… de verdade...não corridinhas sociais !

segunda-feira, 30 de abril de 2012

PERNAMBUCALAGOAR

Saudades das Alagoas
Coqueiros de Pratagi
Onde só vou passear
E quando chego por lá
Eu viro outra pessoa
Fico preguiçoso à toa
Deitado na beira-mar
Ouvindo a onda cantar
E olhando o céu de anil
Nesse canto do Brasil
Belezas iguais não há

Pajuçara e Avenida
São Bento e Maragogi
Ponte Verde e Pratagi
São de ouro uma jazida
Eu fico feliz da vida
Nas praias do meu rincão
No Pontal do Boqueirão
No Mirante da Sereia
Em noite de lua cheia
Delira o meu coração

Praia do Carro Quebrado
Das mais lindas que Deus fez
E na Praia do Francês
Descansar extasiado
Depois de ter mergulhado
Na Barra de São Miguel
No Gunga, queijo com mel
Em Japaratinga,  manga
Um refresco de pitanga
E a praia toda é um vergel

Paripueira e Patacho
Mirante da Sereia, em Pratagi
Cada qual mais encantada
De conchinhas enfeitada
Não sei qual mais bela eu acho
Molhando os pés num riacho
Por maceió conhecido
Um riozinho contido
Correndo em busca do mar
Na certeza de encontrar
O Coruripe querido

Eu louvo uma terra amada
Onde nasci e morei
Pouco tempo aproveitei
Três meses são quase nada
(Foi meu tempo de morada)
Mudei-me de vez pra cá
Pernambuco é o meu lar
Recifense também sou
E assim vivendo eu vou
PERNAMBUCALAGOAR



Ciranda do Mar da Vida - Fred Monteiro

sábado, 21 de abril de 2012

CORDEL E CRÍTICA

Repentistas (Google Imagens)
Na minha coluna “Mascate das Lembranças”, do Jornal da Besta Fubana (bestafubana.com), tenho escrito sempre uns versos de cordel em décimas, sextilhas ou setilhas, pois tem muita gente boa por lá nesse tipo de literatura. Além de exercitar meus neurônios, nessa divertida e tradicional modalidade literária, exerço também meu direito à crítica política, porque no Brasil de hoje em dia é praticamente uma obrigação nossa denunciar todos esses erros e escândalos e não deixar que se tornem rotina. A falta de vergonha e a impunidade estão a exigir uma tomada de posição e, nesse ponto, juntando humor, ironia e engajamento, o JBF tem contribuído, e muito, assim como as demais redes sociais, para essa tomada de posição. Leiam abaixo três estrofes que construí a partir do mote de Cícero Cavalcanti, goiano de Cuiabá:


“O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas”



Eu passei toda a vida trabalhando
Dei um duro danado e aqui estou
Feito um mero esqueleto de eleitor
Que cansou das batalhas, se esgotando
E o meu velho tí’tlo vou guardando
Pois cansei de votar nesses petralhas
Que fizeram da pátria umas borralhas
E levaram do povo o seu dinheiro
“O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas”


Se cheguei pouco tarde me desculpo
Eu estava ocupado em meu trabalho
Pois a vida só tem um cabeçalho
De valor tenho aquilo que eu esculpo
Nessa luta diária eu não me culpo
Pelo tanto suado e pelas falhas
se por tudo ganhei minhas migalhas
procurei ser um homem verdadeiro
"O que dói no meu peito o tempo inteiro
é o Brasil governado por canalhas"


Entra ano sai ano e a coisa fica
Cada vez complicada de se ver
É um tal de roubar e de esconder
O dinheiro do povo na barrica
A vergonha tá ficando nanica
Nesta terra que adora essa gentalha
que na lama da corrução se espalha
E ninguém dá por falta do dinheiro
"O que dói no meu peito o tempo inteiro
É o Brasil governado por canalhas"

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A VOZ DO FREVO - CLAUDIONOR GERMANO

Hoje, Claudionor Germano, a Voz do Frevo, completa 80 redondos anos. Nascido em 19 de Abril de 1932, tornou-se conhecido em todo o Brasil pelas antológicas gravações das músicas de Capiba e Nelson Ferreira.
Conheço Claudionor, primeiro como fã, desde que me entendo por gente e comecei a gostar de frevo.  Sua voz, interpretando sucessos de Capiba e Nelson Ferreira, em pot-pourris que entraram para a História da Música Pernambucana, varava noites e madrugadas pelos altofalantes das ruas do Recife, nos dias de Carnaval, animando os palanques de frevo das ruas Nova e Imperatriz e se destacando nos clubes sociais em que se apresentava com as maiores Orquestras da cidade.
O Mestre Claudionor Germano canta no F Studio
Depois, já inserido no mundo artístico dos anos 60, conheci Claudionor pessoalmente, quando por vezes coincidiam apresentações no Rádio e TV Jornal do Commércio.
Agora, algumas décadas depois, tive –por três vezes- a alegria e o orgulho de ser incluido no repertório do Mestre Claudionor: em três ocasiões distintas ele deixou registradas melodias e palavras dos meus frevos-canção “Sol na Moleira”, “Pimenta no Pé” e, no disco em que ele comemorou o Centenário do Frevo, “Coração Recifense”.
“Pimenta no Pé” e “Sol na Moleira” ganharam arranjos do Maestro Edson Rodrigues e acompanhamento da sua Orquestra. “Coração Recifense”, arranjo do Maestro Spok e acompanhamento da Orquestra Spok Frevo.
Nesta última, principalmente, Claudionor deixa passar uma emoção juvenil, quando exclama com todo o entusiasmo num trecho da letra:  “Batuca Nação Pernambuco e mostra a esse povo porque se resiste “
Claudionor é isso: a resistência do Frevo e da Raça, que ele propagou e assumiu durante quase 70 anos de carreira e 80 de idade.
Trago aqui para o Blog minha homenagem a esse grande Cantor, relembrando e apresentando para os que não as conhecem, duas dessas músicas. Ouçam, clicando nos players.


Coração Recifense



Pimenta no Pé

terça-feira, 17 de abril de 2012

A GUITARRA GIANINNI

Pesada demais... Toda em pau-ferro, devia ter uns 10 quilos ou mais, sei lá. Vermelha, meio para vinho, devido à pintura degradée, com a guarda frontal em fórmica branca, escala de mogno e dois captadores.
Foi um dos primeiros modelos da fábrica de violões Gianinni.  Só consegui comprá-la por obra e graça de um negócio que fiz com Paizinho: daqueles negócios de pai pra filho, mesmo.
Paizinho tinha me dado de presente a câmera Flex-a-Ret dele, fantástica.  Eu aproveitei bastante a câmera e durante mais de um ano fiz ótimas fotos com ela.
Flex-a-Ret, a câmera que virou guitarra
Mas acontece que eu queria uma guitarra e estava sem dinheiro. Então, como bom comerciante, propus a Paizinho uma pechincha: eu lhe dava a câmera de volta e ele comprava uma guitarra pra mim.
Dito e feito: Paizinho me arrumou o dinheiro e ainda fiquei com a câmera, na qualidade de fiel depositário.
Eu tinha visto a guitarra na vitrine da Casa Publicadora Batista, na Rua do Hospício, perto da firma da gente. Com o dinheiro na mão, corri até lá, como se não tivesse a certeza de que ia encontrá-la ainda à venda.
Voltei com aquele troféu para o escritório, mal acreditando que ela me pertencia, a partir daquele momento.
Essa guitarra foi minha companheira de música durante um bom tempo, até que um dia um médico observou um desvio na coluna e uma inclinação para baixo na clavícula esquerda.
Não deu outra: recomendou-me trocar a guitarra por outra mais leve.
Foi com a Gianinni que eu entrei para valer no mundo da música. Era o tempo dos conjuntos de ie-ie-ie e o pessoal começava a formar grupos para embalar festinhas caseiras, assustados, como se chamava, pelos bairros do Recife.
Enquanto não aparecia alguém procurando um guitarrista, recebi um convite pra tocar num grupo dos Jesuítas, do Colégio Nóbrega.
Aceitei de imediato.. o objetivo do Diretor do conjunto, o Padre Barbosa, era levar música e alegria para asilos e hospitais.
A apresentação que mais me marcou foi num hospital psiquiátrico em Monjope, município de Abreu e Lima.

A Gianinni com Otamar, eu com uma pá e a prima com meu violão
Foto: cortesia do Dr Otamar Carvalho
Chegando lá, liguei na tomada o meu amplificador, que nada mais era que um rádio antigo, de válvulas, que Paizinho me deu e o técnico em eletrônica da SORMA adaptou para servir de amplificador (nesse tempo a gente representava também uma fábrica de intercomunicadores, e tinha uma seção de manutenção desses aparelhos ("Telespeaker “ ).
Botei logo um apelido na minha "máquina": Bode Rouco. Por que ? Ora, vocês precisavam ouvir o som dos graves desse "possante"... não tinha que ver um bode velho gritando.
Mas bem que quebrou o galho; era só não abusar do volume, que o Bode Rouco ficava manso e afinado.
Pois bem... Conjunto pronto, atacamos o repertório, com muitos baiões e sambas e as "pacientes" dançaram pra valer. No término de cada música, aplaudiam bastante e gritavam pedindo mais.
Até que, no final da tarde, quando paramos a função, aproximou-se uma delas, morena, um pouco velha e desdentada, cabelos bem desalhinhados, com um bolo na mão, falando: - Fiz para vocês comerem ...
A gente agradeceu e fez que comia o tal bolo, com muito cuidado, para não provocar a ira da maluquinha. É que o bolo era de terra, e sua vela uma folha de mangueira.

(do livro de crônicas "Caçador de Lagartixas")

domingo, 8 de abril de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 4 - IRAH CALDEIRA


Nesses 18 anos de F Studio fiz de tudo um pouco.  Inclusive vídeos.  Criação, montagem e edição de vídeo sempre foram uma paixão de um sujeito metido a memorialista, feito eu.  Registrando viagens pelo Brasil e um pouco pelo Exterior, consigo congelar momentos agradáveis da vida particular e profissional.  Como este aqui.  Um certo dia, minha amiga Irah Caldeira procurou-me no Estúdio, lá pelos idos de 2006, quando ela lançava seu CD "Entre o Calango e o Baião".  Fiquei desde logo lisonjeado pelo subtítulo, porque foi extraído de uma música que escrevi especialmente para ela, "Aperta o Nó" (entre o calango e o baião).  O texto que pontua a edição deste vídeo-promocional foi escrito por um poeta palmarense, que à época eu, -por culpa da falta de tempo para acompanhar o movimento literário de Pernambuco e do Brasil- agarrado ao trabalho 10 horas por dia, ainda não conhecia.  Tempos depois, ou seja, em setembro de 2011, vim (pela mão de Leonardo Dantas- conhecer essa grande figura humana, escritor premiado, de méritos incontestáveis, autor de vários livros importantes para a nossa literatura:  Luiz Berto escreveu um texto para a capa do CD de Irah que diz tudo dessa mineirinha/pernambucana que desde então marcou em definitivo seu lugar na nossa Música.  Irah é uma estrela de grande magnitude e brilho e muito me honrou a oportunidade de escrever,em melodia e poesia, a sua trajetória das Gerais ao Sertão pernambucano.  Irah participou comigo da edição e montagem desse pequeno vídeo, e nele estão o texto de Luiz Berto interpretado por meu sobrinho, o excelente locutor Pedro Augusto Monteiro, pontuando uma trilha sonora rica de regionalidade.


Falar de Irah Caldeira e sua bondade, sua simpatia e carisma é muito fácil.   Sua carreira, feita com garra e tenacidade, é o coroamento de uma vida de luta, estudo e dedicação à sua arte.  Seu canto é puro como as cachoeiras de Minas Gerais e cativante como as serras, as cidades, as tradições, o povo, e tudo quanto diz respeito àquele Estado tão querido por todos os brasileiros.  Irah é a síntese da mineirice que o Brasil aplaude. Deixemos que Irah cante a sua saga, trinando como um rouxinol a sua música, transformando em dança e rítmo toda a sua alegria e continue nos apaixonando com o seu jeito puro de ser e de viver.  Obrigado Irah, por um dia ter entrado pela porteira do F Studio, você que é, hoje e sempre, um patrimônio da terra pernambucana.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 3 - HELENO RAMALHO

Conforme havia prometido aqui no blog, começo hoje um série de postagens sobre meus amigos músicos e compositores que gravaram comigo no F Studio.
E começo com uma pessoa especial, muito querida por todos os pernambucanos que gostam de boa música, em especial do frevo-de-bloco e do forró pé-de-serra.
Heleno Ramalho, poeta, jornalista e compositor, nasceu em Tabira e transferiu-se para o Recife há décadas, para realizar sua vida profissional e ao mesmo tempo dar maior amplitude aos seus horizontes artísticos.
Heleno, todo de branco e chapéu panamá,
com a nossa turma do Bloco Vitória-Régia
Poeta sensível, ligado às raízes, até hoje discorre saudoso sobre o Sítio em que nasceu, cresceu e viveu, na sua Tabira querida.  Cada conversa com Heleno, sustentada com muito humor e verve, é uma lição de amor à terra natal, que ele nos dá com seu sotaque pesado de sertanejo consciente dos seus valores mais puros.
A obra de Heleno Ramalho, hoje conhecida por todos os foliões, ultrapassa fronteiras e sua música “Flabelo de Ilusões” é cantada com fervor, como se fosse um dos hinos do carnaval lírico do nosso Estado.
É bonito ver a multidão de nativos e turistas, pelo Recife Antigo, a entoar quase religiosamente cada palavra da bela poesia de Heleno.
Para quem priva da sua amizade, ouvir os “causos” que Heleno conta com muito humor, com seu sotaque arrastado, é momento de raro prazer.  Mas hoje, eu conto um “causo” em que ele é personagem, sucedido num dos muitos dias de gravação do seu disco “Flabelo”.
Estávamos no Estúdio, assistidos atentamente por Heleno, gravando os vocais do frevo “Louvores”, uma pequena obra prima, que teve as bases executadas pela Orquestra Levino Ferreira, regida pelo Maestro Lúcio Sócrates, com o apoio de vários instrumentistas da Orquestra Sinfônica do Recife, com fagote, oboé, violinos, violoncello, numa mistura linda do clássico com o popular. 
Num dado momento, Heleno pede para parar a gravação e diz, de sopetão:  - Não estou gostando nada dessa frase.. Minha avó já morreu faz muito tempo.. E ela não vai se levantar de jeito nenhum !!
Todos estranhamos a interferência e perguntamos a Heleno o que estava havendo.  Ele explicou:  - As “meninas” (as vocalistas do Coral)  estão dizendo “.. e quando canta se levanta minha vó”.. Minha vó já morreu faz tempo ! Vamos gravar de novo !
E repetimos a frase muitas e muitas vezes mas Heleno não se conformava. Até mesmo Suely, sua esposa também presente, assegurava:  - Mas, Heleno.. eu estou ouvindo tudo certinho ! As meninas estão dizendo “E quando canta se levanta minha VOZ!”
No F Studio, Fred, Lúcio Sócrates e Heleno

Foi difícil convencer o Mestre, mas depois ouvir  algumas vezes mais o trecho ele finalmente se convenceu de que o ouvido o traía e sorriu em paz.
O trecho todo diz assim:  “Vem, Carnaval, abre tuas asas sobre nós.. Saudade canta, e quando canta se levanta a minha voz !”
Confiram a beleza dessa música e sua poesia, no player abaixo.  E a seguir, ouçam também uma comovente toada em que Heleno, acompanhado de Canhoto da Paraíba e pelo sanfoneiro Caxiado canta o seu amor por Tabira e pelo Sertão, numa magistral melodia que fotografa o momento marcante da volta do matuto ao seu sítio.  A música chama-se “Canção Rural” e faz parte de um LP do mesmo título.





domingo, 1 de abril de 2012

GENERAL LIMA VERDE, UM AMIGO CORREDOR.

Gen. Lima Verde
O Brasil de hoje nos guarda umas surpresas que gostaríamos de não ter.
Com tanta corrupção estampada nas notícias de jornais e noticiários de rádio e tv, afora, principalmente o que vemos todos os dias, on-line, pela Internet, chegamos a nos decepcionar com a qualidade dos homens públicos que temos aqui na nossa Pátria Mãe Gentil.
Algumas reservas morais, no entanto, permanecem intactas.
Entre estas há homens e mulheres de todas as latitudes e longitudes, de todas as profissões, de todas as cores políticas e religiosas imagináveis.
Tenho bons amigos em todas elas e os distingo com o meu respeito.
Pena que em praticamente todos os casos, estas pessoas de tão dedicadas aos seus misteres profissionais e afazeres familiares, não queiram e não possam ter uma vida pública dedicada a fazer a direção política dos destinos da Nação.  E assim, vamos ficando entregues ao destino de ser dirigidos por maus governantes e  maus brasileiros.

Fiz essa introdução para dizer da minha admiração por um amigo, que conheci como corredor de rua.  Um corredor anônimo que passou a frequentar nosso Clube dos Corredores do Recife-CORRE, fundado em 1983 por um grupo de amigos que necessitavam do esporte para sair do estresse da vida moderna.
Depois de alguns dias de convivência, vim a saber que o mesmo era Oficial do Exército, dedicadíssimo ao esporte e aos estudos militares.  Na época, ocupava o posto de Tenente-Coronel.  Seu nome: Júlio Lima Verde Campos de Oliveira.
Eu tinha inventado um jornalzinho para animar as programações esportivas do Clube e o amigo Lima Verde (assim o chamo, normalmente) passou desde o início a colaborar com o jornal, arranjando inclusive patrocínio de uma centena de cópias xerox do mesmo, todo mês.  A amizade permanece forte até hoje, mesmo que o Lima Verde, nacionalmente conhecido por muitas missões militares de relevante importância, tenha galgado, na sua vitoriosa carreira militar, o posto de General de Divisão do Exército Brasileiro.
Muito me orgulha essa amizade de quase 30 anos.  Tanto que lhe dediquei um "dobrado" que denominei “General Lima Verde” o qual hoje trago à apreciação dos amigos leitores do Blog.
Na sua discrição de homem de bem, inteiramente dedicado à família e à profissão que abraçou, o amigo Júlio Lima Verde continua militante e praticante da Corrida de Rua, misturado anônima e alegremente à massa de corredores da sua querida Fortaleza, animando o movimento pela Saúde, ao mesmo tempo em que preside o CORCE-Corredores de Rua do Ceará, mantendo sempre atualizado o Blog do Clube e distribuindo a sua amizade e solidariedade aos que lhe cercam. Ouçam aqui a minha homenagem ao distinto General.

http://www.4shared.com/mp3/fr4zQXlO/general_lima_verde.html

quarta-feira, 28 de março de 2012

MORTE EM ITAMARACÁ

Certo dia, naqueles idos de 1951, sábado pela manhã, chega lá em casa um tio meu, irmão de Paizinho, que exercia cargo de Direção na Penitenciária de Itamaracá. 
Tio José, ou Zé Monteiro, como o chamávamos precisava do Land Rover, para atender uma urgência de família. 
Naquela ocasião, ele estava no Recife e a família dele, de férias, na Ilha de Itamaracá. 
Paizinho, de imediato, emprestou o jeep e eu, sempre afoito, pedi a Tio Zé Monteiro que me levasse consigo, curioso para conhecer a Ilha. 
Ele, claro, concordou.. e saímos rumo a Itamaracá. 

(foto Google)
Quando atravessamos a longa ponte sobre o canal de São Gonçalo, que divide a Ilha do continente, na cidade de Itapissuma, pegamos uma estradinha de areia margeada por coqueiros e plantações. 
A maioria era de hortas cultivadas pelos presidiários, já que aquela era uma Penitenciária Agrícola. 
A estrada era cheia de curvas, porque não tinha traçado prévio ou, se tinha, não o obedecia, ficando tudo por conta dos buracos e bancos de areia.

 Às vezes se estreitava tanto, que dava a impressão de que o jeep não conseguiria avançar sem roçar nos troncos dos coqueiros. 
Como raramente passava um carro por ali, o Land Rover seguia imponente e dócil à experiente direção do meu tio. E eu, curtia a paisagem e ouvia o cantar do vento nas folhas dos coqueiros.

Numa destas inúmeras curvas, mais adiante, a infausta surpresa: a estradinha estava tomada por uma pequena multidão de pessoas de todas as idades. 
Sitiantes e transeuntes se aglomeravam num círculo em torno de algo ou alguém estendido no chão de areia. 
Meu tio, como a pressentir a desgraça, pediu para que eu me abaixasse.
 Desobedeci e continuei alerta, olhando para a aglomeração e tentando desvendar o mistério.
 Bem próximo já do aglomerado, tio Zé Monteiro colocou a mão na minha cabeça e forçou-me a abaixar, rente ao banco do jeep, para tirar-me a possibilidade de enxergar aquilo tudo. 
Em vão... eu me desvencilhei da sua mão e encarei de frente a cena. A essa altura, parte do grupo oferecia passagem ao veículo, o que tio José agradeceu passando ao largo e desviando o olhar. 
Vila Velha de Itamaracá (foto Google)
A cena era, realmente, dantesca... uma pobre mulher havia sido atropelada, não fazia muito tempo. 

Um caminhão velho jazia abandonado poucos metros adiante, no meio dos coqueiros, em conseqüência do esforço final do seu condutor para livrar a vítima do atropelamento. 
O sangue empapava a areia branca.. 
Anos mais tarde, toda essa tragédia me vinha à mente sempre que eu ouvia, na radiola de casa, um disco de Vicente Celestino com uma canção que eu achava linda, embora trágica: Sangue e Areia.. ("Manolo quando entrou na arena, na tarde serena...") 
Foi o meu segundo contato com a morte, num curto espaço de tempo e me marcou muito. 
Mas, a partir daí e até hoje, procuro evitar essa coisa tão disseminada entre o nosso povo: olhar com uma ânsia incontrolada para a morte... de frente, como a desafiá-la. 
É que eu a considero uma espécie de mensageira soberana da Última Verdade. 
Jamais duvidei do seu poder e por isso a respeito, respeitando a Vida... a minha e a alheia.

(do livro de crônicas "Caçador de Lagartixas, Recife, 2008, Ed. Livro Rápido)

quinta-feira, 22 de março de 2012

MEMÓRIAS DO F STUDIO 2 - ORIANO DE ALMEIDA, PIANISTA

Não é todo dia que a gente tem a oportunidade de conhecer ou até conviver com um Gênio.
Eu tenho muita sorte na vida. Conheci e tive a oportunidade, em alguns casos, de conviver com alguns.
Um deles, o maior intérprete brasileiro da obra de Chopin: Oriano de Almeida.

Paraense de nascimento (1921) tornou-se natalense em virtude da mudança dos seus pais para Natal ainda bebê. Iniciou seus estudos musicais com seu tio, o Maestro Waldemar de Almeida, tendo estudado com a grande pianista Magdalena Tagliaferro.

Oriano tornou-se mundialmente conhecido por conhecer e executar com perfeição a obra de Frederic Chopin, a tal ponto de atingir o estrelato respondendo no famoso programa de TV “O Céu é o Limite”, sobre a obra do compositor, ganhando notoriedade internacional em inúmeros concertos por vários países do mundo.

Após um trágico atropelamento, nos anos 80, perdeu os movimentos do braço direito, interrompendo assim sua brilhante trajetória de virtuose do piano.

Oriano de Almeida
(cortesia do Blog do Braga)
Conheci Oriano de Almeida e com ele convivi por quase dois meses, quando, apresentado ao Mestre pela também virtuose Elyanna Caldas, então diretora do Conservatório Pernambucano de Música, fui convidado a remasterizar para o áudio digital a sua obra gravada.  Isso porque fazia  poucos meses que eu havia remasterizado uma fita gravada por Elyanna em homenagem ao centenário de nascimento do compositor paulista Aurélio Gregori.  Sobre Elyanna Caldas voltarei um dia em outro post. 

Ao todo, compilei em 4 CDs dezenas de peças que Oriano guardava gravadas em fitas cassetes bastante antigas.  As gravações originais em fita magnética foram feitas no Estúdio da Rádio MEC.   Exigente, o Mestre sempre discutia e observava o trabalho de filtragem de ruídos e chiados das fitas o timbre do instrumento, etc.  Os originais, já bastante usados, apresentavam aquele chiado de fundo característico e me consumiram dezenas de horas de trabalho no estúdio, até chegar ao resultado final que ele considerou o ideal.

Capa de um dos cds.

Oriano, então já com a saúde debilitada, em virtude de problemas cardíacos, estava hospedado num Hotel  em Casa Forte, próximo ao meu estúdio, e assim nos vimos e por muitas vezes conversamos sobre o andamento do trabalho.

Em 2004, fiquei bastante triste com a notícia da sua morte, por câncer.   Um fim melancólico da carreira artística de um dos maiores músicos brasileiros de todas as épocas. Reproduzo aqui Aquele Realejo de Pigalle, de sua autoria.

sábado, 17 de março de 2012

MEMÓRIAS DO FSTUDIO

Semana passada publiquei no meu Facebook um aviso de despedida da minha atividade de produtor musical e músico profissional. Amigos e amigas da Música ou dela simpatizantes acorreram virtualmente para comentar a nota, o que me deixou muito sensibilizado.

Na ocasião, prometi que postaria algumas matérias sobre meus 18 anos de atividade nessa área da Música e vou começar hoje a faze-lo.

Sempre que puder, trarei aqui para o Blog, memórias dos bons momentos de um trabalho prazeroso demais. Como qualquer trabalho, um estúdio de gravação também tem seus momentos difíceis, de rotina, de repetição, literalmente de muito suor para se conseguir o melhor resultado.

Começo, portanto, trazendo uma curiosidade, que hoje é comum em vários lugares, incluindo painéis de programas de TV, livrarias, lojas de disco, etc. Mas eu conto como a idéia nasceu, em primeiro lugar.


Em 1997, numa apresentação aberta ao público nos jardins do Parque da Jaqueira, a Orquestra Sinfônica de Berlim, trazida pelo Programa Cultural Concertos de Vinólia, nos ofereceu um espetáculo fantástico, único para quase 100% das pessoas que acorreram em massa ao Parque.  Sentado no gramado com minha família, apreciamos todos, nota por nota de cada peça apresentada e passamos muito tempo rememorando aquele evento maravilhoso.

Havia, pela cidade, vários cartazes anunciando o espetáculo, ocorrido no dia 24 de março de 1997.  E um ou dois dias depois, já pensando como subiria num poste da Praça de Casa Forte, enquanto por ali corria, e onde havia um desses cartazes pendurados, bem no alto, deparei-me com funcionários da Prefeitura que os recolhiam. Parei minha corrida e pedi aos funcionários que me cedessem um deles.  Eles até estranharam, já que havia muitos no carro em que estavam.  Prontamente atenderam meu pedido e eu, cartaz enrolado debaixo do braço, parei com o exercício e voltei para casa como um menino que ganhou um sorvete de presente.

É que eu já havia planejado montá-lo numa moldura e afixá-lo no meu iniciante estúdio. Fazia poucos meses que eu alugara uma sala comercial, para estabelecer uma atividade de cunho mais profissional, vez que durante um ano e meio realizava meus projetos e gravações num dos quartos do apartamento.

Dito e feito, outra ideia me ocorreu: quando os artistas da terra viessem gravar comigo, eu pediria seus autógrafos naquele cartaz.  E assim, a partir dali, dezenas e dezenas de amigos passaram a assinar meu enorme poster. De tão cheio, já numa outra sala, no centro da cidade, que comprei para dar mais facilidade de acesso à clientela, os autógrafos passaram a ser dados na própria parede do estúdio.  Uma parede inteira foi escrita com mensagens e assinaturas dos amigos e amigas.

Como não podia carregá-la, filmei e fotografei tudo, para não perder a energia de tanto carinho dispensado. Assim, mostrarei aos poucos, e por partes, esse cartaz e minha parede autografada, a partir de maio de 1997, até quando mudei-me para uma terceira sala, em 2002. Aguardem, vocês que assinaram e escreveram coisas que ficaram no meu coração e na minha memória.  Foram o que de melhor aconteceu nesses 18 anos de luta musical...Aos poucos vamos revê-las! 

sexta-feira, 16 de março de 2012

CARANGUEJOS POLARES E GOSTOSOS

Os patolões na seção de frutos do mar do Pike Place Market, em Seattle
Este mundo é pequeno demais..  e de vez em quando a gente se surpreende com certas coisas.
Por exemplo: quebrar caranguejos, deve ser uma atividade das antigas, da idade das cavernas, do tempo do ronca.

Só assim se explica você chegar num restaurante especializado em frutos do mar, lá no outro lado do mundo, perto da fronteira do Canadá, mais precisamente em Bellevue, região de Seattle e de repente pensar que entrou em alguma barraca na Praia do Futuro, em Fortaleza, ou em Porto de Galinhas, Pernambuco, ou na Lagoa do Mundaú, Alagoas, por aí.

Fui experimentar o “caranguejão” do Alaska, aquele que se transformou  até em seriado de TV (Pesca Mortal). O chamado “King Crab”,”jumbo crab” ou algo que o valha. O Restaurante foi  “The Crab Pot” e o serviço de lá justifica minha surpresa.

Fachada do The Crab Pot, Bellevue, WA

Detalhe do avental de comedor de caranguejo
A gente se acomoda na mesa e pede o prato mais solicitado: um mix de 3 ou quatro tipos de caranguejos do Alaska, incluindo as patas do gandalhão (enormes, coisa de quase meio metro de pata e patola do “garoto”). 

Até aí, tudo bem.. O garçon traz, então um avental de papel plastificado e ... um batedor com sua respectiva tábua, para quebrar os caranguejos.  Pra auxiliar quem não tem a prática dos papa-guaiamum do Nordeste brasileiro, vem também um “quebra-nozes”, que pra nós foi de uma inutilidade total.

Pra imitar nossa bagunça, e até ultrapassá-la, os bichos vêm dentro de uma bacia de aço inox de bom tamanho, cheia até em cima.  Só que a dita bacia vai servir para acondicionar os restos das patas já devidamente quebradas e prazerosamente degustadas.  Porque em cima da forração da mesa que é feita com uma longa toalha de papel, o garçon derrama, ao longo dela, toda aquela caranguejada cheirosa e pra lá de gostosa.

Família reunida 

Diogo e seu martelão de caranguejo
Aí é só partir pro abraço e lembrar-se de agradecer à turma da pescaria, que vai lá pros gelados mares polares buscar essa delícia, fechar os olhos e na medida do possível pensar que está numa praia pernambucana ou alagoana, debaixo de uma barraca forrada de palha de coqueiro, ou mesmo na beira de um manguezal à margem de um rio, no tempo dos Flinstones, com um olho no caranguejo e o outro no tigre de bengala que pode chegar a qualquer momento pra te jantar !

terça-feira, 13 de março de 2012

LAND ROVER 1951

Foto: Google Images

Meu primeiro sonho de consumo que continua a ser o mesmo até hoje: um jipe Land Rover modelo Defender, verde-oliva e creme.
Carroceria de alumínio, toda rebitada, tração nas quatro rodas e a disposição de um camelo no deserto...
Por força da profissão de vendedor-viajante, meu pai possuiu bons automóveis cuja compra era financiada pelo Laboratório Raul Leite, onde trabalhou durante muitos anos.
Em 1951, morávamos em Olinda, à beira-mar, numa casa alugada, que pouco tempo depois começou a ser coberta pelas águas verdes do mar, numa nada poética ressaca de agosto.

A beira-mar de Olinda, naquele tempo, era de uma beleza inesquecível.
Arrecifes que se fundiam com a areia branca e solta, por onde nadavam, nas marés baixas, peixes de todos os tamanhos, loucos para serem fisgados pela legião de pescadores de fim de tarde.
Em certas épocas, golfinhos, que -pernambucanamente- chamávamos ainda de bôtos, mostravam suas barbatanas dorsais e respiradouros, nadando aos pares para lá da linha dos arrecifes, alegrando nossos entardeceres olindenses.
Corria a lenda de que esses animais salvaram muitas e muitas vidas, trazendo às praias do Carmo e dos Milagres os quase-afogados banhistas que se atreviam a nadar para mais distante da costa. Eram para mim heróis-animais encantados e encantadores.

Foto: Google Images
Um dia, Paizinho chegou mais cedo para o almoço, anunciando que à tarde iria ao Cais do Porto do Recife, buscar o seu carro, que acabava de chegar de navio, vindo de Liverpool, Inglaterra.
Fiquei ansioso pela novidade e logo pedi pra que ele me levasse junto... e assim aconteceu.
Quando chegamos de volta, eu estava pra lá de orgulhoso, sentado no banco de couro verde do jipe.
A única coisa que não me agradou foi o fato de o carro ter vindo com uma meia-capota de aço creme e o restante em lona verde escura.
Por engano o carro foi assim despachado na fábrica inglesa, mas isso foi depois resolvido, pelo revendedor Renê de Pontes, com a colocação de uma capota de aço inteiriça.
Foto: Google Images
Daquele dia em diante, durante alguns anos em que o jipe ficou conosco, ele foi o modelo predileto nos meus desenhos de criança.
Sou capaz de desenhá-lo ainda hoje, se tanto me for pedido... decorei mentalmente cada detalhe dos seus traços austeros, um carro de trabalho, sem muito luxo e rebuscamento de linhas, mas de uma funcionalidade que até hoje é reconhecida por todos que gostam de carros e de viagens.

sábado, 10 de março de 2012

COITADOS DOS JUMENTOS

Notícia recente dá conta de um fato um pouco mais antigo. Nos dois casos, coitado do jumento "nosso irmão", como diria a letra da música popularizada por Luiz Gonzaga, este ano centenário. É que os orientais, agora os chineses, estão tratando de importar, do Brasil 300 mil jumentos por ano, para alimentação e fabricação de sabão.  Um animal cuja existência no Nordeste sempre esteve ligada ao trabalho e ao homem do campo, servindo-lhe de transporte, de tração para os arados e carroças vai ser, dentro de pouco tempo, a julgar pela voracidade dos números chineses, extinto de vez.  Ameaças de extinção, em outras épocas, de "charqueadas" com carne de jumento e cavalo, aqui mesmo pelo Nordeste, já houve. Então, abatido pela notícia e com uma comiseração justa pelo pobre animal, escrevi essas estrofes em décimas, para louvá-lo, como tantos já fizeram.


Uma coisa me faz contrariado
Nessa terra que não dá mais valor
Aos valores que merecem penhor
Animais deste chão nordestinado
Numa seca que deixa o chão crestado
Com barrocas de terra quente e dura
O castigo maior da mãe Natura
Não consegue parar essa alimária
O trator de um sertanejo pária
Salvação dessa pobre agricultura

Veja que um jumento na cangalha
Come pouco, não se faz de rogado
Dá as horas zurrando seu recado
Passa o dia suando e só trabalha
Ara a terra, e também carrega a tralha
Do seu dono pra onde ele quiser
Inda puxa a carroça da mulher
Pras crianças serve de montaria
Sem jamais reclamar dessa agonia
Labutando sem férias seu mister

Mas agora me chega uma notícia
Que atormenta a cabeça de um cristão
Lá pras bandas da China ou do Japão
Mais parece um caso de polícia
Ou de gente que age com malícia
Querem exportar nossos animais
Os jumentos que são tradicionais
Nesta lida diária do sertão
Vão virar bife, couro e até sabão
Só para enriquecer orientais

*****

domingo, 4 de março de 2012

BONITO, O PARAÍSO ENCONTRADO

O tempo voa.  Frase manjada demais, mas verdadeira como nunca. De setembro de 2010 para cá,  fiz outras inúmeras viagens.  Mas na hora de recordar nossos passeios mais queridos, vamos no congelador de imagens que é a fotografia e os temos de volta quantas vezes quisermos.  E certos lugares, digo melhor, praticamente todos os lugares em que já estive, são mesmo inesquecíveis.  Feito Bonito, Mato Grosso do Sul.  Cachoeiras, rios cristalinos, grutas belíssimas, Bonito é mesmo digno do nome. E nada melhor que fotografias (que valem mais que mil palavras) para admirar esse lugar maravilhoso, muito pra lá de bonito...Voltarei depois com outras fotos de paisagens, flores e bichos de lá.

de bote, no rio formoso
corredeiras

mergulho de proa

registrando até debaixo d'água - rio sucuri

corimba - rio sucuri

dourado - rio sucuri

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

DE GAIVOTAS E BARCOS


Neste post de hoje vou falar muito pouco.
Só quero mostrar umas fotos .


De uma cidade que tem tudo a ver com o mar, com os barcos e com as gaivotas.
Florianópolis, Santa Catarina, maio de 2007.

Uma câmera simples, mas eficiente na mão.
Uma paisagem deslumbrante à frente dos olhos.
Um céu azul intenso e limpo sobre minha cabeça.  (Se bem que houve dias nublados.)


Acima de tudo a felicidade que envolveu e saturou minha mente por uns dias.
Floripa, uma paixão. Jamais esquecerei. E ainda volto lá. 



Pra ver suas praias, suas lagoas e suas gaivotas.


Pra estar com seu povo alegre e que tão bem me recebeu.


 




Dedico este post à amiga Cléa Braganholo, ao Rafael Hilbrecht e ao Paolo Piermarini.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

22 DE FEVEREIRO, O DIA DO MEU PAI


Hoje, Você estaria completando 95 anos.
E eu queria mais uma vez homenageá-lo.
Frederico, Paizinho, você foi tudo o que eu queria ser.
E que jamais serei.
Meu exemplo de vida, meu Herói.
Obrigado, eternamente obrigado.
PARABÉNS, MEU PAI !



dobrado Monteiro da Cruz