quarta-feira, 5 de março de 2014

ETERNO CARNAVAL




Começa hoje o período da Quaresma cristã.

Para os foliões, este primeiro dia, a Quarta-Feira de Cinzas, significa o fim da folia de Momo.

Antigamente, o período durava 3 dias. Do domingo à Terça-Feira Gorda, os foliões se esbaldavam nos prazeres da dança, da música, da comida farta e principalmente de imensas e intermináveis libações. No popular, pulavam e cantavam, comiam de tudo e enchiam a "caveira" de cana.

Mas, a quarta-feira ingrata chegava e haja lamentações, murmuradas, choradas baixinho nas dores de cabeça e de "cotovelo".

À ressaca fatal, juntavam-se as dores dos amores perdidos, dos amores de carnaval, fugazes como a vida, quando olhada pelos olhos do Juízo.  Do juízo perdido naquela tríade louca.  Que, hoje, são pelo menos uma dezena e meia de tríades, pois o carnaval de muitos começa no espoucar dos fogos do Ano Novo e termina no Domingo da Quaresma.

Mas há, ainda, quem cultive as reflexões da Quarta-Feira de Cinzas.  Nem que seja por breves linhas de um "post" num blog mal alinhavado.

Nem que seja somente para recordar uma música composta na madrugada de uma quarta feira de garoa fina, que mitigava o calor do Recife, nos idos de fevereiro de 1995.

Foi assim que compus "Eterno Carnaval".  Que, anos depois, a minha amiga WOLEIDE DANTAS, excelente cantora, que conviveu, cantando na sua Orquestra, com Nelson Ferreira, o nosso grande Maestro, ícone dos eternos carnavais.

Aqui, a letra do frevo:

Meio cinzenta, vem chegando a quarta-feira
Sua tristeza apertando corações
Anunciando que acabou-se a brincadeira
E a vida nem sempre é formada de ilusões

Mas resistimos agarrados nas lembranças
Feito crianças recusamos despertar
E um belo sonho de amor, tão colorido
Pelas ruas do Recife insistimos em sonhar

Virá um dia de alegria sem igual
E um grande sol dourando as pontes da cidade
Vai nos dizer que eternamente é carnaval
E o nosso bloco não precisa ser saudade...


Aqui, a música, na interpretação de Woleide Dantas:

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

TODO DURO CONTINUA "ESTRAÇAIANDO" E FAZENDO AMIGOS

Luciano "Todo Duro" Torres, um mito do boxe

Quem não conhece essa figura lendária do boxe pernambucano, não conhece o Recife.

Eu tive esse prazer há cerca de 26 anos atrás, no Parque da Jaqueira, onde eu já praticava corrida havia 5 anos. 

Meu filho mais velho queria estudar capoeira e um professor começou a dar aulas no Parque, embaixo de uma frondosa mangueira.

Era um cara simples, comunicativo e de uma energia sem limite. Seu nome de pia, Luciano Torres, mas pouca gente se lembra disso.  Mas se perguntarem por Todo Duro, todo mundo se manifesta. Ele com sua simpatia e com suas luvas e golpes certeiros, ganhou a unanimidade da torcida do Recife e acho que do Brasil inteiro.  

Seu linguajar que não mudou até hoje, é de um cara sofrido criado no trabalho duro e escolado na vida de atleta.  Uma trajetória esportiva que inclui 70 combates, 45 vitórias por nocaute e apenas oito derrotas.  Seu arquirrival, o baiano Hollyfield fez com ele seis lutas, com três vitórias para cada lado, mas o confronto fora dos ringues é que chamou a atenção do país e entrou para o folclore do esporte. 

No seu jeito moleque de desafiar os rivais, Todo Duro tem um bordão, uma frase que faz rir qualquer fã e tremer qualquer desafiante: "Vou estraçaiá!!"  (Pra quem não conhece o dialeto, estraçaiá é "estraçalhar", acabar de vez com o oponente.) 

E assim, de luta em luta, Todo Duro conquistou sua glória.  Ser reconhecido como atleta e como ser humano diferenciado, no Recife e no Brasil.

Domingo passado, encontrei Todo Duro num bloco aqui pelo Poço da Panela.  Ele mora pela redondeza, em Santana, bairro vizinho.  Reconheceu-me logo, quando falei nos treinos na Jaqueira e nas aulas de capoeira que ele dava para o meu filho.  

E até me confessou, depois que perguntou se eu continuava correndo: - Você corria muito pro meu gosto. Eu nunca passei de 10 quilômetros até hoje.  Mas se eu quiser, eu ainda "estraçáio" um até na corrida.  

Demos uma boa risada e logo posamos para as fotos do desafio que lhe fiz para uma luta (de mentira).  
O desafiante e o campeão Todo Duro...(quero ser estraçaiado nada!!!)
Meu filho Enrico, que não foi seu aluno, mas continua seu fã, fez as fotos.  E eu também fiz uma em que Todo Duro desafiava Enrico para um nocaute no ringue.

Todo Duro e Enrico, só na cara de mau

Para encerrar, uma matéria do Globo Esporte sobre o último desafio de Todo Duro: a cadeira do dentista.  A reportagem está simplesmente hilária !  E desta vez quem foi "estraçaiado" foi nosso herói...

copie o link, cole no seu navegador e veja aqui: http://globotv.globo.com/rede-globo/globo-esporte-pe/v/todo-duro-e-nocauteado-na-cadeira-do-dentista/3172838/


Longa vida a Todo Duro, esse pernambucano ímpar no ringue da vida !

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

MÚSICAS PARA O BLOCO FLOR DA VITÓRIA-RÉGIA (9) UM PRANTO QUE CAI

UM PRANTO QUE CAI
(Getúlio Cavalcanti)

Vitória-Régia está dizendo adeus
A nossa Praça vai silenciar
Tempos de glória foram tantos seus
Onde o passado soube caminhar
Cruzando ruas seduzindo nós
Extasiados pela emoção
Fantasiados de evocadores
Cativando as flores soltas pelo chão

Casa Forte deixou de rir
Um silêncio esvaiu-se em dor
O Recife se despediu
De quem foi seu amor
Nosso "Banjo de Ouro" sai
Da História que aconteceu
E um pranto do rosto cai
Pela dor que doeu

Da esq para a dir: Getúlio, Hamilton, Fred e Tatiana, numa noite de despedida


Foi assim que Getúlio Cavalcanti fez a homenagem final ao nosso Bloco dias após o Carnaval de 2006.

O ponto alto do desfile era quando o Bloco chegava ao Largo do Poço da Panela e nós prestávamos uma homenagem a José Mariano, um dos patronos da Abolição em Pernambuco.
Diante do seu busto em bronze encimando a figura de um escravo com grilhões arrebentados, sempre nos deixávamos tomar pela emoção daquele lugar histórico.

No Largo do Poço, a casa de José Mariano,
seu busto e a estátua do escravo liberto

Os moradores do bairro festejavam demais esse momento com fogos de artifício que pintavam de verde a noite, refletindo nossas cores nas paredes da multicentenária Capela de Nossa Senhora da Saúde.

Nesta noite, em especial, após tocarmos muitos frevos de Bloco, estávamos eu, Getúlio e minha filha Tatiana, a Presidente do Bloco conversando sobre a decisão, que havíamos tomado em família, de recolhermos o Flor da Vitória-Régia por prazo indeterminado. Foi um momento triste; não havia como evitar a despedida. Num abraço final, foi impossível conter a emoção e evitar as lágrimas.

Sem deixar transparecer essa tristeza às centenas de pessoas ali reunidas, retornamos à Praça de Casa Forte, já sabedores de que, pela última vez, o Bloco regressava ao seu ponto de partida.



domingo, 23 de fevereiro de 2014

OS COBRADORES


Anos atrás, não sei se 25 ou 30, por aí,  numa "carrocinha" da época, um fiatezinho de segunda mão, me deslocando pelo já complicado trânsito do Recife, rumo ao trabalho eu era assediado por menores ditos "abandonados", vendendo chiclete em sinal ou simplesmente pedindo ou tentando "lavar" os parabrisas dos carros com água suja recolhida dos canais fétidos do Recífilis,  pensava cá com meus botões: um dia eles não vão mais querer pedir, esmolar, uma condição melhor de vida.  

Eles irão exigir isso pelos seus métodos, um dos quais o mais óbvio:  a brutalidade, o instinto predador que se forma anos a fio de revolta e fome, de frustração e desencanto com o futuro.  

E as "autoridades" a quem compete a direção da cidade, do estado, do país, o que podiam fazer, sob nossa procuração concedida através do voto de confiança dado quando os elegemos, o que faziam por eles?  

Exatamente o que fazem hoje: nada. Nada a não ser piorar o que já era insuportável.  

Não precisava ser profeta para adivinhar que um dia tudo isso viria à tona, nas suas cores mais berrantes, nos seus ruídos mais distorcidos.  O que vivemos hoje é uma era de cobranças. 

Abusamos dos humildes, tripudiamos sobre os eternamente vencidos, desprezamos o grito dos miseráveis.  

Nós, os eleitores, e eles -principalmente eles, os eleitos- estamos recebendo agora essa cobrança. Quanto dinheiro dos nossos impostos, do nosso suor, desperdiçado ao longo dessas décadas! Quanta dor e sofrimento de toda essa massa obscurecida pela torrente invencível do tempo.  

Multiplicaram-se os cobradores. 

A miséria só aumenta, a cada filho indesejado, nascido nas enxergas das favelas.  O instinto de preservação faz, assim, aos miseráveis, aquilo que faz aos ratos. Procriam desesperadamente visando minorar sua miséria. 

Um paradoxo da natureza, esse instinto.  Quanto mais miséria se tem, mais miséria se gera. Poucos desses miseráveis tiveram o adjutório do destino, que lhes concedeu o momento de salvação e os tirou da roda viva da fome, do vício, da vida bandida. 

Estão agora, consciente ou inconscientemente, cobrando da vida o que a vida lhes negou, sempre. E nós, conscientes ou inconscientes, estamos pagando a conta. Enjaulando-nos em prisões de luxo, nossos apartamentos vigiados, trancados, inacessíveis, por enquanto.  Alguns, muitos, já não o são mais.  

As grades em geral separam bons e maus. Bons seriam os livres, maus os prisioneiros. O sinal inverteu, faz muito.  Hoje somos nós os prisioneiros.  A vida assim o decretou.  

Trancafiamos nossos sonhos num espaço minúsculo, enquanto que os "cobradores" vivem livres nas cidades que sonhamos um dia para os nossos descendentes.  

A paz dos campos com que sonhamos metamorfoseou-se nas batalhas campais a que assistimos hoje nos telões de led, aconchegados numa suposta paz dos lares. 
Aonde chegaremos?  Quem sabe?  Com sorte, se dosarmos nossas saídas ao mundo violento extra-muros, conseguiremos escapar ilesos por alguns anos mais.  

Não vejo muitas saídas. Inviabilizamos nossos sonhos, apagamos as luzes do progresso da humanidade, de que tanto nos orgulhamos um dia.

 A Hidra cresceu.  Com sete mil cabeças, não menos. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

MÚSICAS PARA O BLOCO FVR - 8- PERFUMANDO CASA FORTE

Num desfile pelo Recife Antigo, ladeado pelo Maestro Duda e sua esposa Mida
"Nos meses de janeiro e fevereiro brotam as flores da vitória-régia. Elas são brancas ou rosadas, possuem várias camadas de pétalas, e abrem somente durante a noite, exalando um perfume maravilhoso. Algumas flores atingem trinta centímetros de diâmetro."

Elas -como o Carnaval- têm vida curta. Mesmo assim, tornam-se inesquecíveis, para quem as conhece.

Foi realmente uma vitória para a nossa família trazer para a rua uma alegria pura, ao modo antigo de brincar carnaval.  A nossa intenção, desde o início foi essa: sem patrocinadores, sem verbas públicas, sem apoio de quaisquer associações de bairro ou entidades outras, simplesmente juntávamos os músicos da família e os amigos da Música, desde gente muito importante em Pernambuco, como o Maestro Duda, um ícone dos nossos carnavais, a sobrinhos que começavam a tocar violão ou percussão, a filhos e netos dos amigos ou simplesmente músicos simples que se incorporavam à nossa orquestra pelo prazer de participar e manifestar sua alegria.  

Assim também os desfilantes da familia ou amigos e amigas, que cuidavam de confeccionar as suas fantasias (todas dentro das temáticas estabelecidas para cada ano, mas que podiam ser utilizadas nos anos seguintes, sem restrições de nossa parte).  

O Bloco criou, em seu entorno, uma aura de simpatia e carinho que cativava cada vez mais foliões. Nossa Orquestra chegou a ter mais de 30 músicos, muito bem ensaiados e numa afinação e harmonia invejáveis e com repertório sempre atualizado. Foi esse espírito de participação que procurei mostrar na letra desse frevo-de-bloco, como vocês poderão ver.

PERFUMANDO CASA FORTE
(Fred Monteiro)

O nosso Bloco vai sair vistoso
Cantando um frevo dengoso
P'ro povo se alegrar
E na cadência desse frevinho sincopado
Eu quero estar do teu lado
Na hora de regressar

Vitória-Régia, flor de Casa Forte é a nata
É um turbilhão verde-prata
Que faz nossa gente vibrar
Pastoras formosas que evoluem com graça
Cantando as belezas da Praça
Deixando perfume no ar.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

MÚSICAS PARA O BLOCO FLOR DA VITÓRIA-RÉGIA (7) BRÁULIO DE CASTRO

Minha esposa Edla e a Vitória-Régia, no Parque Emílio Goeldi, em Belém-PA

Continuando a série "Músicas para o Bloco Flor da Vitória-Régia" trago hoje um dolente frevo-de-bloco do campeoníssimo compositor Bráulio de Castro, em dupla com sua esposa Fátima. 

Tricolor inveterado, perturbou muito, em coro com o Véio Mangaba (Valmir Chagas) e o percussionista Xaruto, este blogueiro,  quando da gravação do disco comemorativo aos 90 anos do Santa Cruz F.Clube (O Veneno da Cobra Coral).

Bráulio é um colecionador de títulos os Festivais de Frevo promovidos pela Prefeitura do Recife e nos deu este presente logo depois da fundação do FVR.  Desfilou algumas vezes conosco, junto a Fátima, esta também participando da Orquestra de pau e corda do Bloco e do seu Coral.

Uma honra para nós, ter tido essa colaboração da ilustre dupla, por demais conhecida e competente.  Filhos de Bom Jardim, a terra de Levino Ferreira, Dimas Sedícias, Laurivan Ferreira, Lúcio Sócrates e tantos outros grandes músicos pernambucanos, os dois têm sido presença constante entre os primeiros colocados naquele Festival, há anos.  Abaixo, letra e música do frevo-de-bloco.


QUE FLOR É ESSA ?
(Bráulio de Castro e Fátima de Castro)

Que flor é essa que brotou em Casa Forte?
Cheia de encanto, tão diferente
Foi se abrindo, espargindo alegria
E perfumou o coração da gente

Só quatro dias ela tem de existência
Mas a essência jamais morrerá
Que flor é essa? É a Vitória-Régia
Que nos guizos da folia brotou e vai ficar
Que flor é essa? É a Vitória-Régia
Que nos guizos da folia brotou e vai ficar


sábado, 1 de fevereiro de 2014

COISA DE PARECEIRO



Dedé, minha Madrinha e segunda mãe usava muito certos termos bem nordestinos e os aprendi com prazer. E quando ela queria expressar seu repúdio a gente com atitudes negativas, pessoas mal educadas, meninos grosseiros e desobedientes, usava, de frente a palavra PARECEIRO.
Eu achava interessante esse linguajar e ficava me questionando o por que de "pareceiro". Um dia perguntei a Dedé o que queria realmente dizer "pareceiro".  E ela, na hora, respondeu: -Fedim, pareceiro é gente ruim que parece com o Cão.
Nunca mais esqueci.  E passei desde esse dia a ser vigilante com minhas atitudes, para não me tornar também um "pareceiro".
Então, um dia desses, no Jornal da Besta Fubana, onde tenho coluna, surgiu um mote, dado pelo amigo Marco DiAurélio, botando na berlinda os pareceiros que hoje mandam no Brasil.
Como sempre acontece, assunto não falta para um mote desses e daí começamos uma "peleja" baixando o cacete nos pareceiros atuantes deste Brasil tão grande e tão massacrado por pareceiros de todas as cores partidárias, principalmente os do pastoril encarnado e azul que continuam deslustrando o nosso País.
Segue aí o resultado da peleja, que virou mais um cordel da nossa Cordelaria Monteiro.

COISA DE PARECEIRO 

1. Dom Capeta

Eita país tão escroto
que não me vale um vintém
seu futuro nunca vem
nem vai sair do esgoto
um carro véi sem piloto
descendo pelos aceiros
um jogo de trapaceiros
vivendo de enrabada
eita corjinha safada
que elege seus pareceiros.

2. Fred Monteiro

Dom Capeta bom de guerra
traz um mote arretado
pra gente fazer traçado
esculhambando essa terra
de político que emperra
o progresso brasileiro
e que só pensa em dinheiro
dentro do seu matulão
eita país de ladrão
pra eleger seu pareceiro !

3. Ismael Gaião 

De que o povo reclama,
Eu não consigo entender.
Pois só o vejo eleger
Bandido que muito mama.
Se o país está na lama
É culpa dos brasileiros,
Pois eles são os primeiros
A fazer corrupções
Votando nas eleições
Nos que são seus pareceiros.

4. Dom Capeta

Meu caro Ismael Gaião
você disse e disse bem
em nosso Brasil não tem
quem trace na eleição
um freio de arrumação
pra juntar esse mosqueiro
com gasolina e isqueiro
numa fogueira bonita
pra acabar essa desdita
desse mói de pareceiro.

5.Fred Monteiro

Mas tipo de gente existe
inteligente e letrada
em “finesse” acostumada
e metida a fazer chiste
que não entrega o “alpiste”
é luxo pro ano inteiro
vive fazendo cruzeiro
de um vinho não abre mão
eita país de ladrão
pra eleger seu pareceiro

6. Dom Capeta

Sou Capeta bom de guerra
Fred Monteiro falou
eu puxei a meu avô
um senhor de pouca terra
cabrito que é bom não berra
no meio do espinheiro
eu nunca fui traiçoeiro
e muito menos babão
eita país de ladrão
cheinho de pareceiro.

7. Fred Monteiro 

Quem defende a safadeza
só vê o que lhe interessa
na verdade não tem pressa
acha a vida uma beleza
e esgrima com destreza
desculpas de batoteiro
num balé bem traiçoeiro
como a ponta de um facão
eita país de ladrão
pra eleger seu pariceiro

8. Dom Capeta 

Patriótico poema
poderia ter beleza
sem existir safadeza
nem ladrão medido à trena
se apertar essa pustema
vai sair o talo inteiro
e um verso brasileiro
não teria um só ladrão
estaria na prisão
esse mói de pareceiro.

9. Fred Monteiro

Eu não sei como tem gente
pra defender esse pulha
que as idéias embrulha
numa razão aparente
parecendo inteligente
mas no fundo é um salseiro
defender um quadrilheiro
que inventou o mensalão
eita país de ladrão
pra eleger seu pariceiro

10. Dom Capeta

Meu caro Fred Monteiro
pode se arrepiar
pois o cancão vai piar
bem no meio do terreiro
assanhar o formigueiro
com baba de um sarará
pois ninguém vai escapar
da agenda de Fefé
valete vira melé
dispois que se embaralhar.

11. Fred Monteiro

O Brasil é terra boa
tirando os “cabra safado”
que já roubaram um bocado
e querem fazer mais loa
tem na terra da garoa
e tem no nordeste inteiro
desse Brasil brasileiro
uns cabra ruim que nem cão
eita país de ladrão
pra eleger seu pariceiro

12. Dom Capeta 

A Lígia que foi PT
entrou de sola e baião
falou da corrupção
do que pode acontecer
o fogo que vai crescer
e o fio de meu quicé
sob as vistas de Fefé
eu abano esse braseiro
pois o ladrão brasileiro
é pior do que melé.

13. Fred Monteiro 

Quando eu entro numa dança
danço até “reporteresso”
e nem desculpa eu não peço
vou entrando e meto a lança
pode vir mulé de trança
projeto de guerrilheiro
amigo de quadrilheiro
eu furo com meu ferrão
eita país de ladrão
pra eleger seu pareceiro

14. Dom Capeta

Cardeal Fred Monteiro
dança inté reporteresso
eu lhe arranjei um ingresso
pra entrar em meu terreiro
atravessar o braseiro
sem deixar perder a fé
depois falar com Fefé
pedir a bença e voltar
e adispois se confessar
para voltar o que é.

15. Fred Monteiro 

Eu nunca vou defender
uma cambada nojenta
presidente ou presidenta
do meu pão não vai comer
pois não vou retroceder
Eu tou do lado certeiro
Não gosto de companheiro
do cabra do bigodão
eita país de ladrão
pra eleger seu pareceiro

16. Fred Monteiro 

Quem entrar na roda agora
se não rezar direitinho
vai se queimar bonitinho
Fefé ajeita na hora
Dom Capeta não demora
aprontar seu fogareiro
que tem até um bueiro
lá nas profundas do Cão
eita país de ladrão
pra eleger seu pareceiro

17. Fred Monteiro 

Capeta vêi cá mulixa
tirando fogo das venta
quem num gostá se arrebenta
vá coçá rabo na lixa
vá pedir a bença a bicha
vá lavá os seus cuêro
Dom Capeta  tem berrêro
de derrubá avião
eita país de ladrão
pra eleger seu pareceiro




segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

MÚSICAS PARA O BLOCO FLOR DA VITÓRIA-RÉGIA (6) DEUSA AMAZONA


Flor da Vitória-Régia, o Bloco de Casa Forte
Em 1935, o grande paisagista Burle Marx inaugurou uma carreira de sucesso quando projetou sua primeira grande obra pública no Recife, a Praça de Casa Forte. Até então uma área aberta, conhecida como Campina da Casa Forte, em frente à Igreja Matriz do bairro que tinha sido, no passado, a sede do histórico Engenho da Casa Forte, onde batalhas se travaram na luta contra o invasor Holandês em idos do Século XVII.

Faz 61 anos que moro no Poço da Panela e em Casa Forte e tenho um grande amor por esses bairros (o primeiro originado de uma "povoação" à beira do Rio Capibaribe, terra de José Mariano, o Libertador e o segundo um solo sagrado de onde o nascente exército brasileiro venceu mais uma batalha para expulsar do solo pátrio o exército invasor).

Pois Burle Marx, no projeto grandioso do ajardinamento da Praça de Casa Forte, utilizou-se largamente de espécimes da flora amazônica, incluindo árvores de grande porte, destacando, em seu canteiro central um lago circular, em que reinou absoluta em meio a outras plantas do Rio Amazonas, como ninfeias, tinhorões e aningas, a singular "vitória-régia" dominando tudo, por sua beleza e excentricidade.

Assim, com o decorrer do tempo, esse parque que é um verdadeiro patrimônio da Cidade Maurícia, tornou-se conhecido, também, como a Praça da Vitória-Régia. Tanto assim é que, em 26 de janeiro de 1936, o Diário da Manhã publicou com todo o destaque reportagem fotográfica sob a manchete "O MAIS BELLO JARDIM DO RECIFE", destacando a beleza das suas ninféias e em especial "o encanto das victórias-régias".

Aos sete anos de idade eu, menino de curso primário da Escola Padre Donino, naquela Praça, ansiava pelo término das aulas, para ficar passeando pelos seus jardins e, principalmente, admirando aquela planta fantástica que, segundo ouvia falar, aguentaria o peso de uma criança em sua enorme folha de um metro de diâmetro que de tempos em tempos se ornava com uma belíssima e enorme flor cuja cor cambiava do violeta ao branco mais puro, em alguns dias.

Assim, quando fundei, com minha família, o Bloco Flor da Vitória-Régia, procurei ressaltar nas suas cores e símbolos todo o amor que lhe dedicava e logo após o Carnaval de 2001, compus "Deusa Amazona", a música que ilustra este "post". Note-se que no título permiti-me uma "licença poética" quanto ao termo "amazona". O correto seria, naturalmente, "amazônica", por se referir à sua origem daquele Estado brasileiro.

Aqui, a letra desta música do nosso Bloco:

DEUSA AMAZONA (marcha de bloco de Fred Monteiro)

Oh, flor da vitória-régia
Rainha de Casa Forte
Sem ti não há quem suporte
Tanta saudade so Carnaval
A lua prateia as águas
Em que repousas serena
E as mágoas se tornam amenas
à tua presença real

Se Deus, ao criar as flores
Em noite tão soberana
Ungiu-te com Seus favores
Oh, minha deusa amazona
Cobriu-te então de amores
E nunca mais te esqueceu
Pois dentre todas as flores
A preferida Ele te escolheu


Este frevo-de-bloco (ou marcha-de-bloco, como usualmente prefiro), foi gravado também numa versão bem seresteira pelo grande músico e amigo Geraldo Azoubel, num arranjo especial para a sua gaita de boca ou "realejo", como preferia chamar. Incluo aqui as duas versões, a primeira com a nossa orquestra de pau-e-corda (destaco o bombardino floreado do meu amigo músico da Banda Sinfônica do Recife, o Américo e o flautista Valdemir); a segunda com arranjo meu e participação também do Valdemir, na flauta.

Deusa Amazona versão do Bloco FVR



Deusa Amazona versão solo Geraldo Azoubel







sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

MÚSICAS PARA O VITÓRIA-RÉGIA (5) - INALDO LIMA

O Bloco Flor da Vitória-Régia desfila no Recife Antigo (Ponte Maurício de Nassau)













Desde o início do Bloco, o compositor e amigo Inaldo Lima, Professor aposentado da UFPE, músico criativo e recordista de gravações de frevo e choro, Prefeito da Praça do Choro (na sua residência) onde congrega a nata dos "chorões" daqui e de fora nos prestigiou com seu talento.

Inaldo é pai de duas exímias musicistas (já falei sobre elas aqui) as gêmeas Mayra e Moema (bandolinista e cavaquinista respectivamente -ou será o inverso?... eu sempre me atrapalho) além de Iuri, um contrabaixista de primeira. O próprio Inaldo foi também músico, clarinetista da Banda do Liceu Pernambucano.

Apaixonado pelos blocos líricos do Recife, Inaldo compôs para todos eles.  Para o Vitória-Régia nos presenteou com duas pérolas musicais. Este "Voltando ao Vitória-Régia" foi a primeira que nos ofertou e cuida do arrependimento de uma das nossas coralistas e do seu retorno ao Bloco.

O humor é uma característica de Inaldo, além dos hilários títulos que ele põe nos seus frevos de rua, muito técnicos e bem arranjados (ele próprio é arranjador).

Segue a letra e a música do Mestre Inaldo que um dia, no texto de uma capa de disco seu, eu disse ser (e é, sem dúvida) uma "represa humana de talento".  Isso porque, num curto espaço de tempo Inaldo gravou centenas de músicas, todas de excelente qualidade.

VOLTANDO AO VITÓRIA-RÉGIA (Inaldo Lima)


Eu acho é pouco que você esteja sofrendo
Pela mania de falar sempre demais
Dizendo coisas que você nem sente
Deixando a gente na beira do cais

Você pegou um barco e foi embora
Em outro bloco você foi cantar
E agora retorna chorando
Ao Vitória-Régia pedindo pra voltar

Eu não sei que fazer pra resolver o seu problema
Pois o Coral já está "na medida"
Com Tatiana, Henny, Karina e Mida
Dulce e Dalila afinando o cordão

Você precisa mudar menina
Se aconselhar pra não ficar sempre na mão
Procure Fred que é "macaco velho"
Que logo, logo, ele acha a solução...

VOLTANDO AO VITÓRIA-RÉGIA
Interpretação: Coral Edgard Moraes

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

MÚSICAS PARA O BLOCO FLOR DA VITÓRIA-RÉGIA (4) - O HINO DO BLOCO

O autor, ladeado pela filha e esposa, com os flabelos dos
dois Blocos que fundou com a família: Cinema Mudo e Vitória-Régia
Em 12 de Setembro de 1998, numa reunião da família para comemorar aniversário de casamento dos nossos pais, resolvemos fundar um Bloco Carnavalesco Misto para brincar em paz nosso carnaval em Casa Forte.

Eu havia composto meses antes um frevo-de-bloco com essa intenção mas precisa sondar a turma toda pra ver se topavam a empreitada, que não é fácil.

Só gravei oficialmente esta música quando o Bloco completou 10 anos, ou seja em fins de 2008.  É que o compositor Getúlio Cavalcanti solicitou uma parceria, para compor uma melodia para a minha letra.

Aceitei e durante 7 anos em que desfiliamos nas ruas de Casa Forte, o Bloco cantou essa versão, que ficou bem mais conhecida, em virtude do longo tempo de exposição.

Mas, por questão de respeito e amor à história do Bloco, gravei a versão original com melodia e letra de minha autoria.  Não é o primeiro caso, na história da música brasileira, de termos uma letra de música cantada com duas melodias diferentes, nem será a última.

A letra vai aqui transcrita e as gravações logo abaixo.
Por favor, entendam que esta divulgação não tem o caráter de comparar o que é incomparável.
São dois trabalhos de criação diferentes e completamente diversos, cada melodia com o clima que o compositor (eu e Getúlio, respectivamente) imprimiu à obra, com o seu próprio sentimento.

HINO DO BLOCO FLOR DA VITÓRIA -RÉGIA
(Letra e música de Fred Monteiro)

Escuta, Casa Forte!  Teu Bloco vai sair
E a Flor da Vitória-Régia
Outra vez na Praça vai se abrir
Viemos para cantar glórias e tradições
De um bairro secular
À luz dos seus eternos lampiões

Relembra, Casa Forte
O Engenho de Anna Paes
As lindas sinhazinhas
Correndo em seus quintais
E à luz do sol poente
Ao som das cigarras daqui
Saudamos José Mariano
E a Liberdade que ele fez surgir


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FLOR DA VITÓRIA-RÉGIA
(Música: Getúlio Cavalcanti / Letra: Fred Monteiro)


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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

DOUTOR, EU NÃO SOU POETA !


Nessa atividade diária com a poesia de cordel, de dois anos pra cá, tenho aprendido -e muito- com amigos poetas já consagrados.  
O Jornal da Besta Fubana é um polo de desenvolvimento e luta pela manutenção desSa tradição maravilhosa que os poetas nordestinos não deixam morrer.
A literatura de cordel é uma marca na cultura do Nordeste brasileiro que interessa a estudiosos e pesquisadores da literatura universal, tanto pelo seu aspecto folclórico, como do ponto de vista histórico.
Fincou raízes por aqui de tal maneira que é difícil dissociar seus elementos com os da cultura ibérica de onde evoluiu e aqui aportou trazido pelos colonizadores.
Apaixonei-me de tal modo por essa arte que sempre admirei desde a infância, ouvindo os emboladores, cantadores, repentistas em geral, mas nunca havia tentado escrever poesia de cordel. 
Até que, instigado pelo movimento cordelista abundante no Jornal da Besta Fubana, que congrega gente de todo o Brasil, passei a praticar e estudando sempre as formas e modos de versejar, tentando sempre obedecer às rígidas regras dessa arte, tenho hoje algum reconhecimento dos meus pares.
E uma forma de agradecer a eles é divulgar as suas glosas, no meu espaço literário, que são os blogs SETE INSTRUMENTOS e PROSA & RIMA (este desativado, no momento) e também na minha coluna do JBF (Mascate das Lembranças).
Trago então um mote do caro poeta JESUS DE RITA, de Acari, RN, que foi glosado pelo nosso grupo de apaixonados por cordel, destacando Maria de Lourdes Catunda, de Ipu (CE), a nossa querida DALINHA CATUNDA.
O mote é: "Doutor eu não sou poeta, sou curioso somente."  Vamos às glosas:



Jesus de Rita de Miúdo

Queria cumprir a meta
De viver só de poesia
Mas descobri outro dia
DOUTOR, EU NÃO SOU POETA.
Isso muito me afeta
Chegando a ser comovente
Meu esforço diligente
Pra fazer verso perfeito
Mas creio que não tem jeito
SOU CURIOSO SOMENTE.  

Dalinha Catunda 

Nunca tiro o meu da reta
Na hora de versejar.
Não tenho medo de errar
DOUTOR, EU NÃO SOU POETA.
Mas est’arte predileta,
Remexe com minha mente
É mágica e envolvente,
E ninguém me contradiz
Porém sou só aprendiz
SOU CURIOSO SOMENTE.

 Fred Monteiro

Eu atiro a minha seta
mas não acerto no alvo
porque além de ser calvo
DOUTOR, EU NÃO SOU POETA
pois nesta arte seleta
só tem cabra inteligente
daquele tipo de gente
que é difícil encontrar
por isso posso afirmar:
SOU CURIOSO SOMENTE !

Jesus de Rita

Minha alma se inquieta
Triste está meu coração
Pois cheguei à conclusão
DOUTOR, EU NÃO SOU POETA.
Sou apenas um atleta
Aplicado e penitente
Vivendo o meu presente
Aprendendo bem ligeiro
Não sou um Fred Monteiro
SOU CURIOSO SOMENTE.

Fred Monteiro

Eu posso ser até atleta
pois corri a Maratona
sete dias por semana
MAS DOUTOR, NÃO SOU POETA
Passo o chapéu na coleta
pra servir ao indigente
que eu sou neste repente
eu juro e não acreditam
e peço que me repitam:
SOU CURIOSO SOMENTE !

Jesus de Rita

Mas como bom estafeta
Sou atalaia de linha
Aprendendo com Dalinha
DOUTOR, QUERO SER POETA.
Meu espírito arquiteta
Um prédio de bela frente
Com mil versos num repente
Sempre em boa companhia
Pois nessa engenharia
SOU CURIOSO SOMENTE.

Fred Monteiro

Me interessei nessa meta
de glosar esse bom mote
eu sei que sou um pixote,
DOUTOR, EU NÃO SOU POETA..
sou somente “versão Beta”,
Esforçado e persistente,
destemido e renitente,
posso ser, e eu admito
mas digo, muito contrito:
SOU CURIOSO SOMENTE !

Mauricio Santos 

Tentei atingir a meta
Mas não passei do tentar
E sou franco ao declarar
DOUTOR, EU NÃO SOU POETA
Por isso peguei a reta
E saltei do meu batente
Me afastei do repente
Segui outra profissão
Pode anotar meu patrão
SOU CURIOSO SOMENTE

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

MÚSICAS PARA VITÓRIA-RÉGIA (3) SAMUEL VALENTE

Na Praça de Casa Forte, o Bloco Flor da Vitória-Regia prepara-se para desfilar
No Festival de Frevo da Prefeitura do Recife, ano de 2006, o compositor e amigo Samuel Valente, grande pesquisador da música brasileira e do frevo em especial, escreveu para o nosso Bloco uma marcha-de-bloco belíssima.
Classificada para aquele festival a música agradou em cheio os amantes do gênero e foi gravada com a Orquestra do Festival e Coral Edgard Moraes, que fez uma apresentação emocionada dessa canção.
Ficamos por demais orgulhosos de ter no nosso repertório uma música de tão grande qualidade poética e melódica.
Uma prova do carinho de todos os maiores e melhores carnavalescos de Pernambuco para com a nossa agremiação, que embora já fora dos desfiles, pois desde o ano de 2005 já não participava do Carnaval, continuou inspirando nossos poetas e brincantes.

Ouçam aqui o motivo de tanto orgulho:


E aqui o belo poema de Samuel:

FLOR DA VITÓRIA-RÉGIA
(Samuel Valente)
interp: Coral Edgard Moraes

No Bloco da Vitória-Régia
Se planta a saudade de antigos carnavais
Porque a beleza desta vida é a flor
A esperança verde de cantar o amor

No Bloco da Vitória-Régia
Se planta a saudade de antigos carnavais
E o seu perfume tange primas e bordões
Na harmonia viva de mil violões

Vitória-Régia na avenida desfolhando
Toda a ternura de um sonho que passou
São as lembranças de um lança-perfume
Na fantasia que a brisa carregou

Vesti palhaço porque sei que a própria vida
É carnaval dentro de nossos corações
Pra refolhar pedaços de uma serpentina
Que se entrelaçam no cordão das ilusões





terça-feira, 24 de dezembro de 2013

LILI MARLENE - UMA CANÇÃO QUE TODOS AMAM

"Tantas Lilis" é o nome de um frevo-de-bloco que escrevi para o Bloco Carnavalesco Nem Sempre Lili Toca Flauta, fundado e mantido pelo meu amigo Gerson Victor e família. 

Esse é um dos Blocos mais queridos do Carnaval recifense, juntando milhares de pessoas todos os anos, no seu desfile sempre incerto de horário e local de saída (justamente para evitar a superlotação nas ruas, à maneira do Galo da Madrugada.)
A turma do Lilly no ensaio..Um sai-não-sai já tradicional...

Querido por todos, "Lili", como é carinhosamente chamado, é uma alegria só.

Querida por todos, no mundo todo, é também a canção alemã, que virou meio francesa, chamada "Lili Marlene", ou Lili Marlènne, Lili Marlen, ou Lili Marleen, no original.

Lili Marleen foi escrita em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, e publicada sob o título "Canção de amor de um jovem Sentinela", em 1937, sendo gravada em 1939 pela cantora alemã Lale Andersen com o título " A garota sob a lanterna".
Tornou-se popular entre as tropas de ambos os lados em combate (ligados ao "Eixo" ou aos "Aliados"), pela intensa divulgação feita pela Rádio Belgrado, durante a invasão da Iugoslávia, em 1941.

Cartaz de época
Além da gravação de Lale Andersen, tornaram-se antológicas as feitas pela grande atriz e cantora Marlene Dietrich e pela Banda Alemã da "Panzergrenadierdivision", além da francesa Suzy Solidor e da americana Connie Francis, dentre muitas outras de outras partes do mundo. 

Trago então, para apreciação de vocês uma versão especial, de Lale Andersen, gravada em três línguas, (inglês, francês e alemão) e a gravação da Banda da divisão Panzer.  Ouçam-nas, em conjunto aqui:


Muito curiosa também, é a gravação feita pelo músico ambulante Jean Marie que corre o mundo com o seu realejo mecânico tocando e cantando canções francesas. Essa gravação que trago dele está num CD que comprei ao mesmo, numa apresentação ao ar livre na Rua das Flores, em Curitiba, em 1996.  Vale a pena ouvir todas as versões, para entrar no clima universal desta canção. Aqui, a de Jean Marie:

Jean Marie et son limonaire
Quanto à minha intervenção carnavalesca, quem tiver a curiosidade de conhecê-la, trago-a também, como se encontra incluida no CD que gravei do Bloco "Nem Sempre Lily toca flauta" há algum tempo atrás, gravada por mim (parte instrumental) e por Tatiana, minha filha, Naara Santos e Eliane Ribeiro, cantoras amigas, que participavam do Coral do nosso Bloco.  Ouçam aqui:


E qual a razão desse "post", perguntariam os curiosos?  Além, muito além, do aspecto histórico e musical, digo a vocês: é que não há nada tão imbecil, desumano ou desnaturado que uma Guerra.  Principalmente quando o conflito atravessa as fronteiras e toma ares de uma insanidade universal.  Exatamente o contrário do que o que ocorreu com essa música (Lily Marlene): universalizou-se pelo seu aspecto de melodia terna, de lembrança melódica que não tem nada a ver com ódio, luta e sangue.



sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

AS MÚSICAS DO BLOCO FLOR DA VITÓRIA-RÉGIA (2)


Com Getúlio e sua filha Alessandra, nos carnavais da vida
Dando sequência à série inciada terça-feira passada, trago hoje uma música que cantamos bastante nos nossos desfiles. É uma parceria minha (letra) com Getúlio Cavalcanti (música).  Foi gravada no CD "O Som dos Blocos", que produzi em conjunto com o Bloco Eu Quero Mais, de Olinda. Um disco que fez muito sucesso na época e que até hoje toca nos programas carnavalescos da Rádio Universitária, de Hugo Martins (O tema é frevo) e Miriam Leite (O Bloco está na rua). Com Orquestra e Coral Vitória Régia, na época formado por Henny, Tatiana, Dalila, Dulce, Adeilda, Edla, Eunice, Fátima, Leone, Mida, Naize e Valdênia. Arranjo do Maestro Duda.

Eis a letra:

Cigarras de Casa Forte
Por que sumistes da Praça?
Já vai tão distante o tempo
Em que cantavas com graça
Nas ruas da minha infância
Relembro teus madrigais
Nos galhos das pitombeiras
Dos cajueiros e trapiás

Cigarras, quanta saudade!
Daquelas tardes dolentes
Das noites de serenata
Luares resplandescentes
Se agora eu choro a mágoa
De ter perdido teus ais
Me consolam as pastorinhas
Que acalentam meus carnavais
(Nas proezas de Flor da Lira
Vitória-Régia e Eu Quero Mais)

A música vai aqui:

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ESTAMOS DE VOLTA !

Na Rua da Aurora, com o compositor Heleno Ramalho, de branco, à direita

Quase dois meses de férias.  Mas quase três anos no ar.  Valeu a pena parar, para fazer um balanço e descansar vocês.  Estamos de volta, a partir de hoje. E com um assunto que talvez interesse a todos os que acompanharam o nascimento e a trajetória do Bloco Flor da Vitória-Régia.  Em setembro passado, o Bloco completou 15 anos de fundação. E oito de recesso.  Como o Carnaval já se aproxima, talvez valha a pena reviver esses oito anos de atividade, do primeiro desfile, em fevereiro de 1999, ao último, no Carnaval de 2005.  
Ano que vem também completará 15 anos a maior festa dos Blocos líricos do Recife, a "Aurora dos Carnavais", idealizada pelo Poeta Romero Amorim.  O nosso Bloco recebeu um convite da organização para participar, como um dos 3 blocos que inauguraram a festa, no ano 2000.
O Bloco Flor da Vitória Régia foi agraciado pelos compositores carnavalescos do Recife com 16 marchas de bloco (ou frevos-de-bloco, se preferem).  Acho que é um dos campeões, nesse sentido. Prova do quanto foi (e é) querida a nossa agremiação.
Instado por um amigo (e perseguidor do Bloco, também), listei hoje pela manhã todas essas músicas.  E a partir de agora, duas vezes por semana, às terças e sextas-feiras, vou transcreve-las aqui no Blog e no Jornal da Besta Fubana,  Para evitar "protecionismos", seguirei a ordem alfabética das canções.
Assim, vai abaixo a primeira delas: 

A CURVA DO RIO
(Heleno Ramalho)
Interp.:  Orquestra Vitória-Régia e Coral Meus Amores

Chega, vem cantar saudade
Ó pastora amada, 
Que já vai meu dia
Canta, que o tempo é breve
e passa mais leve
Se tem alegria
Quando me abraçar a noite
com aquele açoite 
De adeus final
Lembra da Vitória-Régia
A flor mais vistosa
Do meu carnaval

É bonito ver o Bloco a resplandecer
O luar de Casa Forte e a minha inspiração
Se a curva lá do rio me faz reviver
Mais uma lembrança acorda
Batendo nas portas do meu coração


sábado, 12 de outubro de 2013

UMA FESTA DE TULIPAS (SEM TULIPAS)

As tulipas se esconderam com frio.. só deu pra ver 
essas amarelinhas aí..nem sei que nome têm
É logo aliiii.. daqueles "logo ali" de matuto, vocês sabem...mas vale a pena, pra quem gosta das tulipas.

De todas as cores, plantadas criteriosamente e expostas todos os anos num Festival muito bacana. Em 2009 estivemos por lá.

O mapa da mina, pelo Google


Mas, não demos muita sorte não.. O Festival começa logo no início da Primavera. Uma homenagem à Estação das flores.. 

Em 2009, porém, o frio não deixou que as tulipas se abrissem.  Só vimos tulipas de estufa, mas o passeio é lindo, um lugar de sonho.. Impossível não ficar deslumbrado.  Fred Filho havia me mandado  fotos maravilhosas de lá, feitas por ele, com os campos de tulipas alternando-se em cores as mais diversas: amarelas, vermelhas, azuis, roxas, brancas, bicolores, com as mais diversas combinações.
Um simpático moinho, pra combinar com a paisagem.

Essa foto aí é do site oficial da Roozen Garder

A fazenda que visitamos é uma das mais famosas do lugar: Roozen Garder.   Creio que os proprietários são descendentes de holandeses.  Um dos destaques é um moinho cercado de jardins por todos os lados. E fica bem próximo à fronteira do Canadá (Columbia Britânica), a pouco mais de uma hora de Vancouver.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O DOM DA POESIA


Já falei aqui no Blog da amiga e parceira Claude Bloc. Vou falar de novo. 

E por que motivo?   Para mostrar a vocês o nosso terceiro trabalho, numa cantoria virtual.  São encontros poéticos que mantemos via internet, por email.  

Gosto muito desse desafio e cada vez que escolhemos um tema, ou um mote para desenvolver, sei que vem coisa boa da poeta do Cariri, que embora no nome e na filiação seja francesa, no nascimento e no coração é brasileira da gema, nordestina, cearense e caririzeira.

Dissertamos desta vez sobre a poesia, como Arte e como Dom.

Dom, sim, porque às vezes por mais que a pessoa tenha a técnica e a capacidade literária, falta-lhe a musicalidade, ou a rima fácil, o ritmo certo e a intimidade com os muitos modos de fazer poesia.  

Principalmente poesia dita "de cordel", com regras rígidas que não dão margem a frases soltas, a versos brancos e outras manobras literárias da poética dita moderna.

Na literatura de cordel, esse é o desafio.  Sem fugir ao tema, mantendo o estilo escolhido, versejar metrificando, rimando, dentro do ritmo próprio e da prosódia correta.

E quando isso acontece com uma parelha de cantadores, duelando com suas violas e violões, aí é que a coisa vira espetáculo.  

Aí é que vemos o valor da inteligência dos nossos repentistas sertanejos que muitas vezes aprenderam a ler em antigos folhetos de cordel já desgastados e amarelados pelo tempo, onde descobriam romances medievais, notícias históricas, enredos românticos ou políticos que vararam décadas e até hoje são lidos e relidos à luz de lampiões e candeeiros pelo Nordeste afora.

É desse dom que falamos.  Confiram e vejam se não temos razão!

Mote de Claude Bloc:
“A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana.”

CB
Lamentei ter perdido a mocidade
Esse tempo de grande ilusão
Nos meus versos eu fiz a projeção
De viver alegria e liberdade
E se falo de amor, essa verdade
Eu já sei que é de mim que ele emana
Pois eu vivo a correr nessa gincana
Que deslizo no verso sem ter medo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana.

FM 
Quando Deus fez o homem, Ele lhe deu
Ferramentas de grande utilidade
E os dons que ofertou à humanidade
São parcelas do Céu que prometeu
Transparências no véu que escondeu
Toda a Luz que da Sua face emana
É o Poder da bondade soberana
No princípio era o Verbo o Seu segredo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana

CB
A Bondade de Deus é infinita
E entre os dons que nos deu, Eternidade
Vamos todos seguindo essa Verdade
Pois a alma da gente canta e grita
Sentimentos que a vida delimita
Mas de Luz nossa história se engalana
A Herdade Divina não engana
Nem relega o Homem ao degredo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana

FM
Deus é bom, Deus é Pai, Sabedoria,  
E aos filhos protege e acalenta
Cada dia que passa, em mim cimenta
A Palavra que é carta de alforria
E a Verdade, mãe da Soberania
Derrotando o Mal que nos engana
Tem na voz a clareza espartana
Do Universo infinito e mete medo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana

CB
Quando a vida parece não ter jeito
Quando o sonho se esconde no lamento
Vem de Deus nosso único alento
Que remove essa dor em nosso peito
E é d'Ele esse gesto tão perfeito
Que nos une e até mesmo nos irmana
Que nos livra dessa tristeza insana
Nos liberta e nos traça outro enredo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana 

FM
Já louvamos a Deus, por necessário,
Pois é nossa primeira providência
E o fizemos com toda consciência
Pois de Deus é bem vindo este fadário
Para o homem não ser um perdulário
desses dons, é preciso qual chalana
Navegar manso rio de água plana
que da vida não esconde seu segredo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana

CB
Pela terra deixei meu pensamento
Pelos ares a mais louca paixão
Descobri que o tempo é ilusão
E que a vida é também deslumbramento
Meu poema nasceu do movimento
E desliza do olhar pela pestana
E se esculpe com o fio da catana 
Pois o verso é mais breve que o levedo 
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana 

FM 
Da palavra o poeta é operário
No esforço pra construir seu verso
Extraindo a matéria do Universo
Seu motivo é cantar um canto vário
Sem ligar pr' o detalhe do salário
Tem seu gozo na estrofe que se explana,
E a  constrói feito molda a porcelana
Na alegria tão pura de um folguedo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana

CB 
As palavras são contas de um rosário
Que rezamos com alma e sentimento
Pois revoam sem causar sofrimento
No rascunho do nosso dicionário
Não importa qual seja nosso erário
Se lidamos com a língua lusitana
Se moramos ao léu, numa choupana
Se pisamos em falso num lajedo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana

FM
Já nem sei quando a minha Musa vem
Do Olimpo pra inspirar meu estro
sendo a vã sinfonia que eu orquestro
Eu me anulo no verso, eu sou Ninguém
E encaro essa vida com o desdém
De quem busca a razão que não profana 
ou que aceita a pobreza franciscana
com a ternura de quem perdeu o medo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana

CB
Eu me inspiro no cheiro de uma rosa
No suspiro mais doce de uma flor
Nas procelas do mar, no trovador
Que deságua em verso sua prosa
Numa rima perfeita, tão cheirosa
Quanto um sonho de amor, feito nirvana
Delicado fervor, pureza lhana.
Ilustrando o sol com riso ledo 
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana 

FM
Toda a Glória é cantada em tom maior
Pra louvar tantos dons que recebemos
Construindo esse mundo que não vemos
mas sentimos vibrando em derredor
Sacrifícios aos pés do altar-mor
Desta vida que não mais nos engana
Um poema rimado não se empana
são quais uvas brilhantes num vinhedo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana

 CB
O meu ritmo é sempre musical
Como um gesto de amor, em peito arfante
Como o som da viola mais vibrante
Que empolga e se cala no final
E conduz o poema em espiral
Como a brisa que sopra e se encana
E o som que do âmago emana
Provocando o mais íntimo arremedo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana  

FM
Agradeço às Musas dadivosas
Ao meu lado, agindo docemente
Seu labor gracioso e inteligente
Inspirando-me com vozes tão sedosas
Seus cabelos em mechas olorosas
No dançar doce e lento da pavana
ao soar de uma flauta em meia-cana
A tal baile entreguei-me e ao seu enredo
A palavra pra mim é um brinquedo
Projetando as feições da alma humana.