quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O DISCO QUEBRADO


A quantas vai a inocência de uma criança...

Meu pai sempre gostou muito de música.
Então, na nossa casa em Olinda, parte da sala de estar era ocupada por uma vitrola RCA (A voz do dono), cuja marca nunca me saiu da cabeça: um cachorrinho sentado ouvindo um "gramophone."
Tempos depois viria a saber que o nome vitrola, ou victrola, se reportava justamente a essa fábrica de discos e produtos correlatos e do seu nome, RCA Victor, partiu a marca victrola, ou vitrola, em bom português brasileiro.
Paizinho ouvia muito os cantores Carlos Gardel, Gregorio Barrios e Bienvenido Granda.
Mais: Orlando Silva, Francisco Alves, Augusto Calheiros e Ataulfo Alves. Havia também, uma dança da moda que veio a tornar-se nosso símbolo de nordestinidade: o baião, recém-lançado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
Mas Paizinho gostava, ainda, de ouvir música erudita e foi na nossa discoteca que me encantei com os primeiros trechos de belas peças clássicas, como a Marcha Triunfal da Aída, de Verdi, peças de Beethoven, Chopin, Strauss, Bach e Tchaikovsky.
Pois bem: eu estava sempre por perto da vitrola e aprendi a mexer nela bem precocemente, mais ou menos como meus filhos, que aprenderam desde cedinho a usar os vídeo-games e o computador.
Gostava muito de um disco de Luiz Gonzaga que continha a música Baião ("eu vou mostrar a vocês, como se dança o baião e quem quiser aprender é favor prestar atenção..").
Numa dessas vezes que fui botá-lo para tocar, o disco escorregou e espatifou-se no chão da sala.
Esses discos de 78 rpm eram pesados e muito frágeis, não resistindo, em absoluto, a uma queda de certa altura.
Fiquei desesperado.. Mãezinha e Dedé, sempre na lida doméstica, talvez nem tenham percebido o desastre e eu, na minha angústia para consertar a situação, saí pela porta da frente da casa e ganhei a praia.
Com as duas bandas do disco nas mãos, chorava feito um bezerro desmamado, parando cada banhista que se atravessava em meu caminho: - Meu senhor, cole esse disco do meu pai que eu quebrei agora...
Devo ter parado uns cinco ou seis, até que um senhor muito educado, que estava fazendo a sua caminhada matinal (naquele tempo ainda não se chamava "cooper”..) me falou com muita paciência: - Oh, meu filho, volte pra casa e não fique aperriado. Depois seu pai compra outro igual. Disco quando quebra não pode ser mais colado não. Vá pra casa, vá...
Desconsolado e sem jeito, voltei e contei pra minha mãe o sucedido...
Ainda bem que minha fuga foi breve e não causou mais uma contrariedade afora a de, mais tarde, levar um "carão" bem humorado de Paizinho e prometer que não ia mais me aventurar nas gavetas do armário da discoteca, nem mexer nas agulhas da vitrola.

(Crônica extraída do meu livro "Caçador de Lagartixas", Ed.LivroRápido/Elógica, Recife, 2008)

3 comentários:

  1. Caro Fred, essa deliciosa história me fez lembrar quando eu e meu irmão quebramos um vaso preto de nossa mãe. Matutamos o que fazer e decidimos "montar" o vaso e disfarçar as rachaduras com graxa de sapato (nuggets!). Não durou 24 horas. O vaso era grande e pesado e desabou sozinho. Lembro que eu e meu irmão fizemos uma cara inocente, enquanto Mamãe esbravejava e se perguntava o que podia ter acontecido. Vi que Papai passou o dedo pelas rachaduras. Tenho certeza que ele matou a charada, mas ficou calado, cuido que rindo por dentro. Ficou tudo por isso mesmo. Hoje seria o aniversário de Mamãe. Fica aqui a confissão tardia da trela. Um abração. Fernando Ramos

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  2. Caro Fred realmente eram bolachões super quebráveis, até que veio a salvação dos inquebráveis LP, mas eu já conseguí quebrar um que caiu bem de ponta e rachou. O cachorrinho era uma graça, Nipper, sentado e interessado em um gramofone, logomarca criada e patenteada em 1899 por Francis Barraud que a vendeu para a Gramophone Co. que a usou primeiramente na Victor e Monarch nos EUA. As primeiras gravações Victor foram da James Reese Europe Society Orchestra em 1913. A fantástica logomarca do cachorrinho - VOZ DO DONO - correu a Europa em publicações de Jazz da Gramophone na França (La voix de son mestre), Espanha (La voz de su amo) e na Italia (La voce del padrone). Nos anos 50 a RCA Victor relançou o selo até 1957 quando da fusão com a EMI. Uma pena mas o Nipper se foi. Abraços Mario Jorge

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  3. Mestre Major, sem dúvida este comentário enriqueceu o Blog de uma maneira inesperada ! Uma aula destas não tem preço ! Para mim é motivo de muito orgulho ser seu amigo e discípulo. Muito maior orgulho em contar aqui com os seus comentários sempre lúcidos e esclarecedores. Muito obrigado, mesmo... de coração !

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